terça-feira, 27 de abril de 2010

quinta-feira, 22 de abril de 2010

"Canção do vento e da minha vida"

[É preciso envelhecer para entender certas coisas]

"O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.

O vento varria as luzes
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.

O vento varria os sonhos
E varria as amizades...
O vento varria as mulheres...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.

O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo."

Manuel Bandeira, 50 poemas escolhidos pelo autor, Cosac Naify, São Paulo, 2006

domingo, 18 de abril de 2010

virado viajado (a pedido da Zazá)


Em outros tempos, quando o mundo era bem maior, tinha muito menos gente, os veículos eram outros e as estradas às vezes nem existiam, era impensável sair em viagem qualquer sem levar um farnel farto, planejado para durar um bom tempo além do normal previsto para o percurso. Foi assim, por exemplo, que vim a conhecer o pão sírio, que os turcos donos da serraria na Saudade (na verdade eram sírios mesmo) levavam de São Paulo, cheio de quibe frito ou assado; na viagem de volta eles iam com o pão caseiro e o virado de galinha de minha mãe, pelo qual eram capazes de se bater em duelo.
Bem antes disso, no tempo de minha mãe e meus tios meninos, meu avô tinha “negócio”, como se chamavam os armazéns antigos, num lugarzinho de nada chamado Bom Jardim, no interior do Paraná. Era uma propriedadezinha considerável, a julgar pelo croquis que dois de meus tios, já velhos, reconstituíram de memória para mim, com casa espaçosa conjugada ao negócio, instalações da padaria, horta e pomar, galinheiro, chiqueiro e uma boa área para os cavalos. Acontecia às vezes de meu avô desejar um virado de galinha, mas virado viajado, e em lombo de cavalo, em cujo suor, segundo ele, acabava de se temperar o dito cujo. Minha avó então se programava para no dia seguinte cedinho estar com a iguaria pronta para a viajem, acondicionada num saco de pano muito branco; mas, não sendo o caso de viagem nenhuma, encilhava-se um cavalo e mandava-se que meu tio Darci, o menino mais velho, ficasse a cavalgar pelo potreiro até que desse a hora do almoço, quando então deveria “chegar” com o virado bem sacolejado na anca do animal, para alegria de todos.
Dia desses dou a receita.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

o virado de meu pai


Meu pai fazia um virado de feijão diferente de todos os outros que já comi. Lembrava, pela consistência, um cuscuz paulista: quando já frio, e principalmente amanhecido, podia ser cortado em pedaços ou quebrado em bolotas para se comer com as mãos; isto pela manhã, com café preto, é uma iguaria para deixar um autêntico caipira do Paraná de joelhos. No Paraná usa-se de preferência o feijão preto, ou usava-se naquele tampo, e em minha casa era mais comum a farinha de milho branca do que a de mandioca, embora esta possa ser usada aqui com vantagem, desde que em flocos. O preparo do virado não tem dificuldade nenhuma: refoga-se numa frigideira (daquelas pretas antigas de preferência) muita cebola; adiciona-se o feijão já cozido e temperado que sobrou do almoço, que deve estar com bastante caldo, deixa-se ferver bem, corrige-se o sal, acrescenta-se pimenta do reino e por último a farinha, em quantidade suficiente para fazer uma coisa bem mais espessa que um tutu, mas não solta como o virado à paulista. No fim, com o fogo desligado (ou com a frigideira puxada para o lado mais frio da chapa, se o fogão é a lenha, como era em minha casa), o segredo do meu pai: abafa-se o virado com um pano de prato bem usado, já úmido e sujinho, por alguns minutos. Se abafar com tampa ou pano limpo não fica a mesma coisa.