segunda-feira, 30 de março de 2026

lições da casa dos mortos

 "De modo geral, todo subalterno se irrita com qualquer negligência assoberbada, com qualquer menosprezo a que se vê exposto. Há quem ache, por exemplo, que basta o detento ser, de acordo com a lei, bem alimentado e mantido em boas condições para que tudo dê certo. Esse também é um equívoco. Qualquer pessoa, seja ela quem for e por mais humilhada que esteja, vem a exigir, embora por mero instinto, embora inconscientemente, que respeitem a sua dignidade humana. O presidiário sabe, por si só, que é um presidiário, um excluído, e bem conhece o seu lugar perante o comandante; porém, não existem ferretes ou grilhões capazes de fazê-lo esquecer que é um homem. E, sendo ele de fato um homem, deve ser tratado como tal. Meu Deus... Pois o tratamento humano pode humanizar mesmo aquele homem em que a imagem divina se apagou há tempos! São justamente aqueles "desgraçados" que mais merecem o tratamento humano. É a salvação e o consolo deles. Eu encontrei alguns comandantes bondosos e nobres assim. Presenciei o influxo que eles produziam sobre aquela gente humilhada. Umas palavras carinhosas e os detentos pareciam ressuscitar moralmente. Alegravam-se como crianças e, como crianças passavam a amar. Notarei mais um detalhe estranho: os próprios detentos não gostam que seu superior os trate de modo familiar e demasiadamente benévolo. Querem respeitar quem manda e, neste último caso deixam de respeitá-lo. O preso se anima, por exemplo, quando o seu comandante tem condecorações, quando é um homem vistoso e favorecido por algum figurão, quando é, de uma vez, rigoroso, imponente, justo e cheio de dignidade inabalável. Assim são os comandantes dos quais os detentos mais gostam: não se abaixam, por um lado, até eles e, por outro lado, não os ofendem; por consequência, está tudo bom e decente."


Fiódor Dostoiévski, in "Memórias da casa dos mortos"

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