Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

como reconhecer um bobo

Já falei aqui em postagem antiga (do caráter das mulheres) sobre como é fácil reconhecer as víboras: são as que fazem cara de meiga para a foto. Não sei se é possível tal analogia para o caráter masculino - talvez a analogia no reino animal para homem seja homem mesmo - mas também é possível inferir algo sobre um homem fotografando-o. Vamos lá:
1) para começo de conversa um homem interessante nunca se deixa fotografar com muita facilidade;
2) já o bobo adora aparecer na foto; na iminência da foto, faz cara de "profundidade", fixa o olhar num ponto ao longe, como a contemplar as esferas celestes, ou olha direto para a câmera, mas com olhar vazio, de quem não está ali, mas no interior de seu próprio cérebro;
3) o bobo bem acabado posta a foto na internet. 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

"A mulher e seu passado"*


"Ela conta a história de uma freira que a atormentava no internato, em seu tempo de menina; de um homem que a fez viver longamente entre o desespero e o tédio, a revolta e a humilhação. E fica meio magoada porque a tudo eu sorrio, porque eu não pareço participar do sentimento com que ela fala contra essa gente que passou. Afinal ela também sorri: “Você é meu amigo ou amigo da onça?”

Sou seu amigo. Mas rico ri à toa, e eu me sinto vertiginosamente rico porque essas histórias, alegres ou tristes, ela me conta de mãos dadas, junto de mim. Digo-lhe isso; mas não confesso que aprovo e abençôo todas as coisas e pessoas que povoaram seu passado, e tenho vontade de dizer:

“Benditos teu pai e tua mãe; benditos os que te amaram e os que te maltrataram; bendito o artista que te adorou e te possuiu, e o pintor que te pintou nua, e o bêbedo de rua que te assustou, e o mendigo que te disse uma palavra obscena; bendita a amiga que te salvou e bendita a amiga que te traiu; e o amigo de teu pai que te fitava com concupiscência quando ainda eras menina; e a corrente do mar que te ia arrastando; e o cão que uivava a noite inteira e não te deixou dormir; e o pássaro que amanheceu cantando em tua janela; e a insensata atriz inglesa que de repente te beijou na boca; e o desconhecido que passou em um trem e te acenou adeus; e teu medo e teu remorso a primeira vez que traíste alguém; e a volúpia com que o fizeste; e a firme determinação, e o cinismo tranqüilo, e o tédio; e a mulher anônima que te vociferou insultos pelo telefone; e a conquista de ti por ti mesma; e os intrigantes do bairro que tentaram te envolver em suas teias escuras; e a porta que se abriu de repente sobre o mar; e a velhinha de preto que ao te ver passar disse: “moça linda...”; bendita a chuva que tombou de súbito em teu caminho, e bendito o raio que fez saltar teu cavalo, e o mormaço que te fez inquieta e aborrecida, e a lua que te surpreendeu nos braços de um homem escuro entre as grandes árvores azuis. Bendito seja todo o teu passado, porque ele te fez como tu és e te trouxe até mim. Bendita sejas tu.”

*Rubem Brada, In 200 Crônicas Escolhidas, Record, Rio de Janeiro, 1978

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

"O crime (de plágio) perfeito"*


"Aconteceu em São Paulo, por volta de 1933, ou 4. Eu fazia crônicas diárias no Diário de São Paulo e além disso era encarregado de reportagens e serviços de redação; ainda tinha uns bicos por fora. Fundou-se naquela ocasião um semanário humorístico, O Interventor, que depois haveria de se chamar O Governador. Seu dono era Laio Martins, excelente homem de cabelos brancos e sorriso claro, boêmio e muito amigo. Pediu-me colaboração; o que podia pagar era muito pouco, mas eu não queria faltar ao amigo. Escrevi algumas crônicas assinadas. Depois comecei a falhar muito, e como Laio reclamasse, inventei um pretexto para não escrever. Seu jornal era excessivamente político (perrepista, se bem me lembro) e eu não queria tomar partido na política paulista, mesmo porque tinha muitos amigos antiperrepistas. Laio não se conformou: “Então ponha um pseudônimo!”

Prometi de pedra e cal, mas não cumpri. Laio reclamou novamente, me deu prazo certo para lhe entregar a crônica. No dia marcado eu estava atarefadíssimo, e quando veio o contínuo buscar a crônica para O Interventor eu cocei a cabeça – e tive uma idéia. Acabara de ler a crônica de Carlos Drummond de Andrade no Minas Gerais, órgão oficial de Minas, com um pseudônimo – algo assim como Antônio João, ou João Antônio, ou Manuel Antônio, não me lembro mais; ponhamos Antônio João. Botei papel na máquina, copiei a crônica rapidamente e lasquei o mesmo pseudônimo.

Dias depois recebi o dinheiro da colaboração, juntamente com o pedido urgente de outra crônica e um recado entusiasmado do Laio: a primeira estava esplêndida!

Daí para frente encarreguei um menino da portaria, que estava aprendendo a escrever à maquina, de bater a crônica de Drummond para mim; eu apenas revia, para substituir ou riscar alguma referência a qualquer coisa de Minas. Pregada a mentira e praticado o crime, o remédio é perseverar nesse rumo hediondo; se às vezes senti remorso, eu o afogava em chope no bar alemão ao lado, e o pagava (o chope) com o próprio dinheiro do vale de Antônio João.

O remorso não era, na verdade, muito: Carlos não sabia de nada, e o que eu fazia não era propriamente um plágio, porque nem usava matéria assinada por ele, nem punha o meu nome em trabalho dele. E Laio Martins sorria feliz, comentando com meu colega de redação. “O Rubem não quer assinar, mas que importa? Seu estilo é inconfundível!”

O estilo era inconfundível e o chope era bem tirado; mas você pode ter certeza, Carlos Drummond de Andrade, que muitas vezes eu o bebi à sua saúde, ou melhor, à saúde de Antônio João, isto é, à nossa. Dos 25 mil-réis que Laio me pagava, eu dava 5 para o menino que batia à máquina; era muito dinheiro para um menino naquele tempo, e isso fazia o menino feliz. Enfim, lá em São Paulo, todos éramos felizes graças ao seu trabalho: Laio, o menino, os leitores e eu – e você em Minas não era infeliz.

Não creio que possa haver um crime mais perfeito."

*Rubem Braga, In 200 Crônicas Escolhidas, Editora Record, Rio de Janeiro, 1978.

sábado, 8 de maio de 2010

Cecília 1

Houve um tempo em que orientandos de meu marido, aqueles com os quais tínhamos maior afinidade, quase todos, na verdade, frequentavam em bandos a nossa casa. Eram dias agradáveis, com almoço e muito vinho, que invariavelmente desembocavam, com todos já meio “comovidos”, em sarau literário. Numa dessas ocasiões, em que cada um se aplicava em ler em voz alta um poema ou um trecho de prosa de sua predileção, fui em socorro de uma moça que trabalhava com a poesia da Cecília Meireles e queria muito falar um determinado poema; ocorria que lá pelo quarto ou quinto verso ela desatava a chorar, parava, recompunha-se, recomeçava, desatava a chorar, recompunha-se, recomeçava, e por aí ia. Por fim desistiu da tarefa e queria porque queria que alguém lesse em seu lugar; nenhum dos outros, já um pouco assustados com a sugestão do tema e dos primeiros versos, se habilitou. Eu, que como alguém uma vez disse, “não sou do ramo mas acompanho bem a conversa” inadvertidamente (eu não conhecia o poema) assumi a empreitada: “ora, que coisa, deixa que eu leio”. Li até o fim, mas deve ter sido um desempenho horroroso, pois logo percebi que eu teria que pensar em outra coisa enquanto lia, para não fazer o mesmo aguaceiro da moça.
Hoje, procurando um outro poema de que gosto muito, a propósito da maternidade, dei com ele. Não me atrevo nem a transcrevê-lo; quem quiser que o procure; chama-se “LAMENTO DA MÃE ÓRFÔ e está no livro MAR ABSOLUTO.
O outro, aqui vai:


A mulher e o seu menino

MULHER DE PEDRA,
que é do menino
que houve em teu doce
braço divino,
- nesse teu braço
que ainda está preso,
plácido e curvo,
à eterna idéia
de um vago peso?

“Vento do tempo
me estremeceu:
ele era pedra
da minha pedra,
mas nunca soube
se era bem meu.

Vento do tempo
passou por mim:
foi-se o menino,
deixou-me assim.
Foi sem palavras.
Tão pequenino,
que ia falar?
Talvez soubesse
para onde é que ia...
Eu não conheço
senão meu peito:
há outro lugar?

Têm vindo coisas:
não sei que são.
coisas que cantam,
coisas que brilham.
Mas ele, não.
E era tão feito
só de ficar
que, embora longe,
sinto-o comigo:
meu braço é sempre sua cadeira,
todo o meu corpo
seu espaldar.”

Mulher de pedra,
que é do menino?

“Vento do tempo
quebrou meu seio
para o arrancar.
A mim, deixou-me.
A ele, levou-o.
(Há algum lugar?)

Desde o Princípio,
comigo vinha.
Meu Nascimento
nele nasceu.
Foi-se – por onde? –
tudo que eu tinha.

Ele era pedra
Da minha pedra,
Porém é certo
Que nunca soube
se era bem meu...”


Cecília Meireles, OBRA POÉTICA, Cia. José Aguilar Editora, Rio de Janeiro, 1967

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Ainda o namorado


Minha amiga Ieda, que tem a incrível capacidade de reconhecer todos os gansos de Águas de Lindóia, me fez por email esta inusitada revelação:

"[...]
Fiquei emocionada ao ler suas palavras, reconhecendo na foto o Lino. Afetivamente, chamei a princípio esse gansinho branco de Tontolino: ele nunca vinha comer guloseimas da minha mão como os outros e dificilmente encontrava no chão os pedaços de bolacha que eu jogava para ele.

Mas, Ayde, como você sabe, o Tontolino não é tonto: a sua sensibilidade, enorme, se reconhece. O Tontolino, o Lino não é tonto: ele é cego.

Difícil alimentá-lo, porque a natureza deu a meus outros amigos, inúmeros, a visão imediata da comida. O tempo do Lino é outro, mais demorado. Impressionante o modo como é capaz de atravessar o lago e passear ora pela grama, ora pelo galinheiro-“ganseiro”: talvez iluminado parcialmente pelo sol e pela presença dos demais, com a proximidade às vezes de dois gansinhos seus irmãos; e sempre o invisível, vivo interesse sentido por você.

Soou trágico o que eu escrevi, afinal talvez o Lino apenas não enxergue tão bem. Mas não deixa de ser cômica essa revelação sobre o seu “namorado”, até porque eu mesma andei com as “retinas fatigadas” [...], e a imagem do Lino é bonita inclusive por ele enxergar de outra forma. [...]"

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Um namorado





Num parque central de Águas de Lindóia propus-me a encontrar um ganso branco de olhos azuis que é muito amigo de minha amiga Ieda Lebensztayn, e que eu talvez reconhecesse por já tê-lo pintado a partir de uma foto que a Ieda me mostrou. Como a gansarada fosse inúnera, e estivessem muito longe, e eu impossibilitada de andar muito, não consegui identificá-lo. Em compensação arranjei um namorado, este gansinho da foto, que ficou vivamente interessado em mim, mesmo eu não estando com nenhuma daquelas guloseimas que costumam atrair os gansos. Vai ver ele reconheceu em mim sua alma gêmea.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Das razões do nome deste blog 1

"Um dia, ao começar a escrever um livro didático sobre literatura, tive que dar uma definição da poesia e embatuquei.[...] No aperto me socorri de Schiller, em quem o crítico era tão grande quanto o poeta, e disse com ele: 'Poesia é a força que atua de maneira divina e inapreendida, além e acima da consciência'.

Sabeis o que é atuar de maneira divina? Confesso lisamente que não sei. Mas conheço da poesia, por experiência própria, essa maneira inapreendida de ação: nunca pude explicar, em muitos casos, a emoção que me assaltava ao ouvir ou ao ler certos versos, certas combinações de palavras. A propósito, vou contar-vos uma anedota. Havia na Avenida Marechal Floriano um hotel que se chamava Hotel Península Fernandes. Toda vez que eu passava por ali e via na tabuleta aquele nome Hotel Península Fernandes, sentia não sei que pequenino alvoroço, - alvoroço em suma de qualidade poética. E ficava intrigadíssimo. Por que aquele hotel se chamava Península Fernandes? Uma tarde meu primo Antônio Bandeira, igualmente invocado pelo estranho nome, não se conteve, subiu as escadas e foi falar ao proprietário, que era um português terra-a-terra e sem nenhuma fumaça de literatura.

- O sr. me desculpe a curiosidade, mas por que é que o seu hotel se chama Península Fernandes?

- Muito simples, respondeu o homem. F'rnandes porque é o meu nome, e P'nínsula porque é bonito!

O nome estava realmente explicado, mas a emoção poética não: atuava de maneira inapreendida.
É assim que muitos fatos de rua atuam sobre a nossa sensibilidade. Dois automóveis colidem, ou uma senhora desmaia, ou um homem é assassinado, ou uma estrangeira em trânsito para Buenos Aires desembarca na Praça Mauá em trajes pouco mais que menores: forma-se logo um ajuntamento e os que vão chegando e aderindo ao grupo e os que olham de longe não sabem ainda o que se passou. Paira no ar um certo tumulto emocional, criando uma como que atmosfera de poesia. Pois bem, o poeta suscita a mesma coisa, só que mediante apenas uma colisão de palavras.

Manuel Bandeira, In "DE POETAS E DE POESIA", Edições de Ouro Culturais, Rio de Janeiro, 1967.