Mostrando postagens com marcador Selma Lagerlöf. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Selma Lagerlöf. Mostrar todas as postagens

sábado, 26 de fevereiro de 2011

"Os Santos de Barro"*


Imagem de Nego Miranda

"A igreja de Svartsjö é branca por fora e por dentro, as paredes são brancas, o púlpito, as bancadas, o coro, os caixilhos das janelas e o frontal, tudo é branco. Na igreja de Svartsjö não há decorações, nem quadros, nem brasões. Dantes, não era assim. Dantes, o tecto estava cheio de pinturas, e havia nesta casa de Deus muitas obras garridas de pedra e barro.

Uma vez, há muito tempo, um pintor de Savartsjö estava a contemplar um céu de dia de Verão, observando a passagem das nuvens em direcção ao Sol. Tinha visto como as nuvens brancas e luminosas, que de manhã se encontravam no horizonte, vão crescendo. Tinha visto como as enormes massas se alargavam e se apressavam para subir com velocidade. Içavam velas como os barcos. Levantavam estandartes como soldados. Preparavam-se para invadir o céu inteiro. Estes monstros em crescimento fingiam ter uma forma inofensiva perante o Sol, o dono do espaço. Um leão voraz transformou-se numa dama empoada. Um gigante com braços asfixiantes tomou a posição de uma esfinge sonhadora. Algumas nuvens adornavam a sua nudez branca com mantas de bordas douradas. Outras punham maquilhagem vermelha nas faces de neve. Havia planícies. Havia florestas. As nuvens brancas tornaram-se donas do céu de Verão. Enchiam todo o firmamento. Chegaram até o Sol, tapando-o. “Oh, que bom seria”, pensou o dócil artista, “se as almas langorosas pudessem subir para estas montanhas de nuvens e serem transportadas por elas como um navio oscilante, sempre mais alto!”

E então compreendeu, de repente, que as nuvens brancas dum dia de Verão eram os navios em que viajavam as almas dos mortos.

Estava a vê-las. Encontravam-se naquelas formulações deslizantes com lírios nas mãos e coras de ouro nas cabeças. O seu canto ressoava no espaço.

Havia anjos que em asa largas e fortes vinham ao seu encontro. Oh, que grande multidão de almas de defuntos! À medida que as nuvens se espalhavam, apareciam sempre mais almas. Repousavam nas nuvens, como nenúfares num lago. Adornavam-nas como os lírios enfeitam os campos. Que ascensão jubilosa! Apareciam sempre mais e mais nuvens. E em todas havia exércitos celestiais com armaduras de prata e cantores imortais em mantas debruadas de púrpura.

Foi este pintor que depois pintou o tecto da igreja de Svartsjö. Ele quis aí mostrar como as nuvens que se levantam num dia de Verão levam os mortos à glória do Céu. A mão que segurava o pincel era forte, mas também um pouco dura, de modo que as nuvens mais pareciam as ondas crespas de uma peruca de juiz do que uma montanha fofa de neblina. E à medida que os santos tomavam forma na imaginação do pintor, ele não era bem capaz de reproduzi-los, e vestiu-os como seres humanos, em mantos vermelhos e mitras severas, ou em sotainas pretas com golas rijas e caneladas. Deu-lhes cabeças grandes e corpos pequenos e muniu-os de lenços de bolso e breviários. Das suas bocas saíram sentenças em latim, e para aqueles que considerava mais importantes, colocou cadeiras robustas de madeira nas nuvens, para que viajassem com comodidade até a eternidade.

Mas o povo sabia bem que nem os espíritos nem os anjos jamais tinham aparecido ao pobre pintor, e por isso não davam importância ao facto de ele não ter conseguido fazê-los divinamente belos. Mas as pinturas do pintor devem ter parecido a muitas pessoas mesmo maravilhosas, tendo causado muita santa emoção. Bem que teriam sido dignas de serem vistas pelos nossos olhos também.

Durante o ano em que os cavalheiros mandaram, o conde Dohna mandou pintar de branco toda a igreja. Assim, todas as pinturas foram destruídas. E também os santos de barro.

Ai, os santos de barro!

Melhor para mim seria qualquer outra miséria humana que aquela que senti por causa da perda dos santos. Nem a crueldade de homens uns contra os outros me poderia encher da mesma amargura que aquela que senti por causa dos santos de barro.

Imaginem só! Havia um santo Olavo com coroa no elmo, machado na mão e debaixo dos seus pés um gigante ajoelhado. No púlpito estava uma Judite, de camisola vermelha e saia azul, com uma espada numa mão e, na outra, uma ampulheta em vez da cabeça do general assírio. Havia uma rainha de Sabá de camisola azul, com pata de ganso numa das pernas e a mão cheia de livros sibilinos. Havia um São Jorge cinzento, deitado sozinho num banco de coro, porque tanto o cavalo como o dragão tinham sido esmagados. Havia um São Cristóvão com o bordão cheio de folhas e São Erik, com ceptro e machado, vestindo um hábito com flores douradas que descia até os calcanhares.

Muitos domingos estive eu sentada na igreja de Svartsjö, lamentando a perda das figuras e sentindo a sua falta. Para mim, não tinha qualquer importância faltarem-lhes narizes ou pés, ou os dourados perderam o brilho e as cores terem desbotado. Tê-los-ia, à mesma, visto rodeados do esplendor das lendas.

Parece que acontecia a estes santos perderem ceptros, orelhas ou mãos, precisando assim de conserto e polimento. Na congregação as pessoas ficaram fartas e desejaram ver-se livres deles. Mas os lavradores de Svartsjö não haviam de lhe ter feito qualquer dano, se não fosse o conde Henrik Dohna. Foi ele quem os mandou retirar de lá.

Tenho-o odiado por isso, como só uma criança pode odiar. Odiava-o como o mendigo esfomeado odeia a avarenta dona de casa que lhe nega o pão. Odiava-o como um pobre pescador odeia um rapaz travesso que lhe estraga as redes e faz um buraco no seu barco. E não passava eu fome e sede durante as longas missas? Não me tirou ele o pão de que minha alma podia viver? Não suspirava eu pelo infinito, pelo céu? Ele estragou o meu barco e rasgou a rede, com a qual eu podia ter apanhado visões sagradas.

No mundo dos adultos, não há lugar para o ódio verdadeiro. Como poderia eu hoje em dia odiar um ser tão lamentável como o conde Dohna, um louco como Sintram, ou uma depravada senhora da alta sociedade como a condessa Marta? Mas quando eu era criança! Ainda bem para eles já estarem mortos há muito tempo.

Bem podia o padre falar, do seu púlpito, em paz e reconciliação que, do nosso lugar na igreja, as suas palavras não podiam ser ouvidas. Oh, se eu os tivesse tido lá comigo, os velhos santos de barro! Eles poderiam ter pregado para mim, para eu ouvir e compreender.

Hoje em dia, lembro-me muitas vezes o que aconteceu quando os santos foram roubados e destruídos.

O facto de o conde Dohna ter mandado anular o seu casamento em vez de procurar a sua mulher e mandar legalizá-lo causou indignação a todos, porque todos sabiam que a sua mulher só tinha abandonado a casa para não ser atormentada até a morte. Parecia que, agora, ele queria tentar reconquistar a graça de Deus e a boa consideração do povo através de uma boa acção, mandando restaurar a igreja de Svartsjö. Fez caiar de branco toda a igreja e tirar as pinturas do tecto. Ele próprio e os seus criados levaram as imagens, num barco, e afundaram-nas nas profundezas do lago Löven.

Mas como ousava ele erguer a mão contra estas formidáveis imagens do Senhor?

Oh, como foi possível esse crime? A mão que cortou a cabeça a Holofernes não sabia mais servir-se da espada? A rainha de Sabá terá esquecido todos os conhecimentos secretos que ferem mais que uma flecha envenenada? Santo Olavo, Santo Olavo, o velho viking, São Jorge, o matador de dragões, o rumor das vossas façanhas terá morrido e a glória dos vossos milagres ter-se-á apagado?! Deve ter sido porque os santos não queriam empregar violência para com os seus destruidores.Foi porque os lavradores de Svartsjö já não queriam gastar tinta para os mantos, e folha dourada para as coroas, e deixaram que o conde Dohna tirasse os santos da igreja e os afundasse no lago Löven. Os santos já não queriam ficar e desfear a casa de Deus. Oh, santos desamparados, já não se lembram dos tempos em que orações e genuflexões vos foram oferecidas?

Penso no barco com a sua carga de santos, deslizando pela superfície do Löven, uma tranqüila tarde de Verão. O homem que o rema lentamente olha com timidez para os estranhos passageiros que se encontravam da proa à popa. Mas o conde Dohna, que também ali está, não tem medo.

Pegou, com as suas próprias mãos, nos santos, um a um, e atirou-os para a água. O seu semblante estava límpido, e respirou profundamente. Sentia-se como um defensor da pura doutrina evangélica. E não aconteceu nenhum milagre em honra dos velhos santos. Calados e desanimados afundaram-se no vazio.

Mas no dia seguinte a igreja de Svartsjö era deslumbrante na sua brancura. Não havia qualquer imagem que pudesse perturbar a tranqüilidade da contemplação íntima. Só com os olhos da alma os piedosos verão a glória do céu e o rosto dos santos. As orações dos homens chegarão pelas suas próprias fortes asas ao Ser Supremo. Nunca mais se vão agarrar à bainha da roupa dos santos.

Oh, verde é a terra, a querida habitação dos homens, azul é o céu, a meta do seu anseio. O mundo brilha de cores. Por que é branca a igreja? Branca como o Inverno, nua como a pobreza, pálida como a angústia! Não cintila de geada como uma floresta no Inverno. Não brilha com pérolas e rendas numa noiva branca. A igreja está coberta de cal branca, sem uma imagem, sem um quadro.

Nesse domingo, o conde Dohna estava sentado no coro numa poltrona enfeitada de flores, para ser visto e louvado por todos. Agora ia ser honrado como o homem que mandou reparar as velhas bancadas, destruiu as feias imagens, mandou pôr novos vidros em todas as janelas estragadas e mandou caiar toda a igreja. Certamente, ele tinha toda a liberdade para fazer tais coisas. Se desejava aplacar a ira do Todo-Poderoso, estava bem que enfeitasse o seu templo como bem entendia. Mas por que é que ele quis louvor por isso?

Ele, que na sua consciência trazia dureza não reconciliada, antes devia era ter ajoelhado no banco da vergonha e pedido a seus irmãos e irmãs, na igreja, para implorarem a Deus que o aceitasse no Seu templo. Seria melhor para ele estar aí como um pobre malfeitor do que estar sentado no coro, honrado e bendito e recebendo honras, por se ter querido reconciliar com Deus.

Oh, conde, com certeza Ele te esperava ver no banco da vergonha. Ele não se deixou enganar pelo facto de os homens não ousarem acusar-te. Ele ainda é o Deus zeloso que deixa falar as pedras, quando os homens ficam calados.

Quando a missa acabou e o último hino foi cantado, ninguém saiu da igreja, mas o padre subiu ao púlpito para fazer um discurso de agradecimento ao conde. Mas tal não aconteceu.

Porque as portas da igreja abriram-se, e lá aparecem de novo os santos na igreja, ensopados da água do Löven, sujos de lodo verde e lama castanha. Devem ter ouvido que ia ser louvado quem os tinha tentado aniquilar, quem os tinha expulsado da santa casa de Deus e afundado nas ondas frias. Os velhos santos gostariam de ter uma palavra neste assunto.

Eles não gostam do marulhar monótono das ondas. Estão acostumados a cantos, hinos e orações. Calaram-se e deixaram fazer o que se fazia, enquanto pensaram que tudo era em honra de Deus. Mas afinal não era. Pois ali está o conde Dohna sentado no coro, querendo ser adorado e louvado na casa de Deus. Tal coisa não podem aceitar. Por isso, levantaram-se do seu túmulo aquático e entraram na igreja, bem reconhecíveis para todas as pessoas. Aí vem o Santo Olaf com a coroa no elmo, e São mErik com as flores douradas no manto, e o cinzento São Jorgew e São Cristóvão. Mas só vieram estes. A rainha de Sabá e Judite não vieram.

Mas quando as pessoas se tinham refeito da surpresa, correu um murmúrio pela igreja:
“Os cavalheiros!”

Pois, são os cavalheiros. E eles vão directamente ao conde e sem dizer uma única palavra, põem a sua cadeira aos ombros e saem com ele da igreja para o pôr no chão.

Não dizem nada e não olham nem à direita nem à esquerda. Tiram simplesmente o conde Dohna da casa de Deus, e depois de o fazerem, vão-se embora, escolhendo o caminho mais curto que leva ao lago.

Eles não foram importunados e não perderam tempo em declarar a sua intenção. A intenção era bem clara. “Nós, os cavalheiros de Ekeby, temos a nossa opinião. O conde Dohna não é digno de ser louvado na casa de Deus. Por isso, tirámo-lo. Quem quiser que o volte a levar para dentro.”

Mas ninguém o levou para dentro. O discurso de louvor do padre não foi feito. As pessoas saíram da igreja. Não havia ninguém que pensasse que os cavalheiros não tivessem agido bem. Lembravam-se da jovem condessa, que fora tão cruelmente tratada em Borg. E lembravam-se dela que fora tão boa para com os pobres, que fora tão bela, que só de vê-la era uma consolação.

Era pecado vir à igreja com partidas loucas, mas tanto o padre como o povo sentiam que eles tinham estado à beira de fazer uma brincadeira ainda maior ao Omnisciente. E sentiram-se envergonhados perante os velhos loucos indisciplinados.
“Quandos homens se calam, as pedras têm de falar”, disseram.

Mas desde esse dia, o conde Henrik não se sentiu bem em Borg. Uma noite escura de Agosto, um coche coberto parou junto à escada grande. Todos os criados se puseram à volta do coche, e a condessa Marta saiu, envolta em xailes e um denso véu a tapar-lhe a cara. O Conde levou-a, e ela estremecia. Fora com a maior dificuldade que a tinham convencido a atravessar o vestíbulo e a varanda.

Entrou no coche, e o conde atrás dela, as portas fecharam-se com estrondo, e o cocheiro deixou os cavalos correrem desembestados. Quando as pegas acordaram no dia seguinte, ela não mais lá estava.

O conde passou a viver no Sul. Vendeu Borg, que depois mudou de dono muitas vezes. Todos amavam o lugar, mas poucos devem ter tido felicidade enquanto o possuíram."*

*Selma Lagerlöf, "in" A SAGA DE GÖSTA BERLING, Cavalo de Ferro Ed, Lisboa, 2007.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

"O Cemitério"*

[Imagem de "Markinho"]

"Era uma agradável tarde de Agosto, O Lago Löven parecia um espelho, as montanhas estavam como que envolvidas numa neblina de calor, e a frescura da noite estava a chegar.

Apareceu Beerencreutz, o coronel de bigode branco, baixo e forte como um urso, com o baralho de cartas no bolso de trás, dirigindo-se à margem do lago, onde tomou lugar num bote de fundo chato. Acompanhavam-no o major Anders Fuchs, o seu velho irmão de armas, e o pequeno Ruster, o flautista e tambor de regimento dos caçadores de Varmländ, que durante muitos anos o tinha acompanhado como amigo e criado.

Na outra margem do lago encontra-se o cemitério, o mal cuidado cemitério da freguesia de Svartsjö. Com poucas campas e cruzes de ferro que fazem ruído ao vento, está cheio de erva, como um campo nunca lavrado e coberto de junca e a erva crescia em variedade, a lembrar que nenhuma vida humana é totalmente igual à outra mas cada uma diferente como as folhas da erva. Aqui não há carreiros com areia nem árvores que oferecem sombra, além da grande tília na campa esquecida dum velho padre. O muro de pedra encerra, alto e carrancudo, o campo. O cemitério é pobre e desolador, feio como a cara dum avarento, murcho sob os lamentos das pessoas a quem ele roubou a felicidade. Mas mesmo assim os que lá repousam são felizes, porque foram enterrados em terra abençoada com hinos e orações. Acquilon, o jogador, que morreu no ano passado em Ekeby, teve de ser enterrado fora do muro. Esse homem, outrora tão orgulhoso e cavalheiresco; um valente guerreiro, destemido caçador e jogador sortudo, acabou por destruir a herança dos seus filhos, tudo o que tinha adquirido, tudo o que sua mulher tinha cuidado. Abandonara a mulher e os filhos para ir viver a vida de cavalheiro em Ekeby. Uma tarde, no Verão passado, jogou a quinta, que era o sustento da família. Em vez de pagar a sua dívida, pôs termo à sua própria vida com um tiro. E o corpo do suicida foi enterrado fora do muro com musgo do cemitério.

Desde a morte dele os cavalheiros eram só doze. Desde aquela morte, ninguém viera para tomar o lugar do décimo terceiro cavalheiro, a não ser o Diabo, que apareceu na Noite Santa, saindo do alto-forno.

Os cavalheiros acharam o seu destino mais amargo que o dos seus antecessores. Bem sabiam que um deles tinha de morrer todos os anos. E que mal tinha isso? Os cavalheiros não devem ser velhos. Quando os seus olhos cegos não mais conseguem distinguir as cartas de jogo nem as suas mãos trémulas levantar o copo, que interesse tem a vida e o que são eles para a vida? Mas repousar como um cão junto ao muro do cemitério, onde a terra que os cobre não pode repousar em paz, sendo pisada por carneiros que pastam, ou ferida por pás e arados, onde o caminhante passa sem abrandar o seu passo, e as crianças brincam sem moderar as gargalhadas – mas repousar, ali, onde o muro de pedras impede que se ouça a trombeta do anjo que acordará os mortos do Dia de Juízo Final! Não, esse não é um bom lugar para repousar. Oh, que bom seria poder repousar lá dentro!

Agora Beerencreutz atravessa o lago Löven no seu bote. Passa esta tarde pelo lago dos meus sonhos, à volta de cujas margens vi deuses passearem e vi meu castelo mágico surgir da profundidade. Ele passa pelas lagunas da ilha Lag, onde os abetos surgem direitinhos da água, crescendo em bancos de areia baixos e circulares, e onde as ruínas do castelo do pirata ainda se vêem no pico íngreme da ilha. Passa debaixo do parque de abetos no promontório de Borg, onde o velho pinheiro com raízes grossas ainda pende sobre o barranco, onde uma vez apanharam um enorme urso, e onde os velhos montes de pedra e túmulos demonstram a idade do lugar.

Contorna o promontório, sai do barco junto ao cemitério e passa por campos ceifados, que pertencem ao conde de Borg, até chegar à campa de Acquilon.

Uma vez lá chegado, abaixa-se e dá uma palmadinha na relva da mesma maneira que afagamos o cobertor que tapa um amigo doente. Em seguida, tira do bolso o baralho de Kille e senta-se junto à campa.

“Ele está muito só aqui, o nosso Johan Fredrik. Deve ter saudades de uma partida.”

“É uma vergonha que um homem como ele tenha de ficar cá fora”, diz o grande caçador de ursos Anders Fuchs, e senta-se ao seu lado.

Mas o pequeno Ruster, o flautista, fala de voz comovida, enquanto as lágrimas correm dos seus pequenos olhos injectados de sangue.

“A seguir ao senhor coronel, ele era o homem mais elegante que alguma vez conheci.”

Este três distintos homens estão, agora, sentados à volta da campa, e dão as cartas com seriedade e zelo.

Olhando para o mundo, vejo muitas campas. Acolá repousa um homem poderoso, coberto de mármore. A marcha fúnebre retumba sobre ele. Bandeiras são baixadas sobre a campa. Vejo campas de pessoas muito amadas. Flores, regadas com lágrimas, afagadas de beijos, repousam levemente nos verdes relvados. Vejo campas esquecidas, campas presunçosas, lugares de repouso que mentem e outros que não dizem nada. Mas nunca antes vi um valete vestido de xadrez branco e preto, e um Jocker, com um guizo no gorro, a serem oferecidos ao habitante de uma campa para o seu prazer.

“Foi Johan Fredrik quem ganhou”, diz o coronel com orgulho. “Bem sabia! Eu ensinei-lhe o jogo. Pois, agora estamos todos mortos, nós três, e só ele está vivo.”

Recolhe as cartas, levanta-se e volta com os outros para Ekeby.

Suponho que o morto deve ter sabido, e sentido, que nem ele nem a sua campa estavam esquecidos por todos. Os corações indisciplinados prestam homenagem estranha àqueles que amam, mas os que estão fora do muro, aqueles cujos restos mortais não podem repousar em terra santa, bem que podem ficar felizes porque nem todos os rejeitam.

Amigos, quando morrer repousarei, com certeza, no centro do cemitério, no jazigo dos meus antepassados. É verdade que não tirei o sustento à minha família, nem atentei contra a minha própria vida, mas também é certo que não mereci, nem ganhei, nem conquistei um tal amor. E, também, estou segura, ninguém fará tanto por mim como os cavalheiros fizeram por este criminoso. Com certeza ninguém chegará, ao pôr do Sol, quando o território dos mortos fica solitário e triste, para colocar cartas garridas entre os meus esqueléticos dedos.

Também não virão, o que mais apreciaria, já que as cartas exercem pouca atracção sobre mim, com violino e arco até à minha campa, para que a minha alma, que divaga à volta dos restos mortais, possa flutuar na corrente dos tons, como um cisne em ondas cintilantes.”

*SELMA LAGERLÖF, In A Saga de Gösta Berling, Cavalo de Ferro Editores, Lisboa, 2007

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A Saga de Gösta Berling


Dos romances de Selma Lagerlöf conheço dois: “O Imperador de Portugal” e este “A Saga de Gosta Berling”, que acabei de ler por estes dias. O primeiro (o mais tardio dos dois), bem menor, me pareceu – como romance - mais bem realizado, mais submetido à mão firme da escritora. Se o “A Saga de Gosta Berling” tivesse recebido outro título, algo como “aquele ano na província de Värmland”, por exemplo, talvez eu não tivesse ficado com a impressão de que o personagem do título, Gösta Berling, funciona apenas como o fio condutor de várias histórias contíguas (à maneira do condutor do trem no Dodeskaden de Kurosawa, ou do corvo, no Kaos dos irmãos Taviani). É uma falsa impressão, reconheço, mas ocorre que as outras personagens, as histórias das outras personagens, e principalmente o tratamento que a escritora dá às histórias das outras personagens são tão fortes, que o drama central, o do padre exonerado e proscrito, parece diluir-se. O que acontece na verdade é que vários capítulos desse romance têm a força de contos, e contos extraordinários, com vida quase independente. Assim é com “A morte libertadora”, “O patrão Julius”, “O cemitério” e “Os santos de barro”, de que me lembro de imediato. Em “Os santos de barro” estão reunidas em grande estilo as características que mais admiro na escritora: o ritmo perfeito, as imagens poderosas - aqui, na prosa, essas qualidade tão caras à poesia – a facilidade com que ela faz transitar suas personagens entre a aspiração ao sublime e a subjugação à realidade patética, entre o grotesco e de novo o sublime. Esse capítulo é de fato tão belo que é possível que eu o transcreva aqui, por esses dias.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Selma Lagerlöf


Conheci Selma Lagerlöf (1858-1940)por acaso, via dois contos magníficos da coleção “Mar de Histórias – antologia do conto mundial” (organizada por Aurélio Buarque e Paulo Rónai e editada pela Nova Fronteira), reproduzidos neste blog em postagens antigas, “O ninho das alvéloas” e “Os dois irmãos”. Nunca antes tinha sequer ouvido falar o nome dessa escritora, que chegou a ganhar o Nobel de literatura em 1909; ninguém das minhas relações, entre as quais inúmeros leitores profissionais, a conhecia; nas livrarias, se havia alguma referência, tratava-se de obra esgotada, ou no original sueco, ou em tradução para outra língua estrangeira. Consegui, por sorte, um exemplar virgem de “O Imperador de Portugal”. Achei também e ganhei algumas obras de sebos: “O livro das lendas”, “A lenda de uma quinta senhorial” e “A viagem maravilhosa de Nils Holgersson através da Suécia"; todos em tradução de Portugal; daqui absolutamente nada, além dos dois contos já mencionados. Recentemente uma amiga muito atenta a tudo de que gosto surpreendeu-me com um exemplar virgem de “A saga de Gosta Berling”, da editora portuguesa Cavalo de Ferro; estou a um terço do final desse romance, que fica a cada página mais saboroso.
Selma Lagerlöf é uma exímia contadora de histórias, desse tipo que imagino ter existido em tempos antigos, uma figura quase sagrada, em torno da qual todo mundo se reunia com solenidade de ritual. Tem uma compaixão genuinamente cristã por seus personagens mais patéticos – os solitários, os loucos, os visionários, os devorados pela paixão, os miseráveis, os proscritos, os pactuários – e suas histórias são com freqüência terríveis, mas o sentido delas é em geral depurador, sem ser edificante (o que seria uma lástima).

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

"Os dois irmãos

Fazem dó e compaixão os mortos que hão de ser enterrados nos cemitérios das cidades. Quando postos no carro fúnebre e conduzidos através das ruas, é como se resmungassem e gemessem lá dentro do caixão. Alguns há que lastimam não haja penachos em seus coches mortuários. Outros se põem a contar as coroas, e não ficam satisfeitos e contentes. E há também os que, seguidos apenas de uma, duas, três carruagens, se sentem humilhados.
De tais cousas jamais precisam tomar conhecimento os mortos. Mas a gente das cidades não sabe de forma alguma como prestar homenagem àquele que vai dormir, lá dos sete palmos, o sono eterno. Compreendem-no um tanto melhor, porém, nos distritos rurais, e nenhures tão bem quanto na paróquia de Svartsjö, no Värmland.
Se morres na paróquia de Svartsjö, fica logo sabendo que ganharás um caixão em tudo igual ao que cabe aos demais – um caixão decente, forrado de preto, da mesma classe que os caixões em que o juiz distrital e o delegado de polícia baixaram à sepultura o ano passado. Isto porque o mesmo marceneiro faz todos os caixões, e só dispõe de um único modelo: nenhum há de sair melhor ou pior do que o outro. E fica sabendo também, pois tantas vezes o tem visto, que serás transportado até a igreja numa carroça de trabalho, adrede pintada de preto para o ato. Não deves de modo algum preocupar-te com penachos, cousas que todos desconhecem na paróquia. E fica sabendo, ainda, que os cavalos levarão xairéis, presos aos arções das selas, e hás de ser conduzido tão amorosamente, e de modo tão solene, quanto um simples campônio.
Mas não te alarmes, caso não tenhas tido coroas em número suficiente: não haverá uma só flor no féretro. Exige a praxe que o esquife seja forrado de preto, e rebrilhante, e nada impeça de vê-lo bem. Não tens de preocupar-te se terás um cortejo bastante numeroso, porquanto as pessoas que moram na tua aldeia sem dúvida te acompanharão todas juntas. Não procures saber se há quem chore ou soluce em torno do teu ataúde. Nunca se choram os mortos quando estes já se encontram no alto do outeiro, diante da igreja de Svartsjö.
Não se choram mais lágrimas por um rapaz novo, cheio de vida, que baqueou justamente quando começava a ser o arrimo dos seus pobres e velhos pais, do que por ti. Colocar-te-ão sobre dois cavaletes de cor preta, ante a porta do paço paroquial, e toda uma multidão, a lanço e lanço, se irá ajuntando em derredor de ti. As mulheres todas levarão os lenços nas mãos. Mas ninguém há de chorar: todos os lenços estarão bem dobrados, e nenhum deles há de procurar os olhos... Não receies que se derramem por ti tantas lágrimas quantas pelos demais defuntos. Haveriam de chorar se fosse o caso, mas tal não acontece.
Podes compreender agora que, se houvesse pesar em demasia sobre uma campa, quão triste não haveria de sentir-se aquele que ninguém pranteia! Eles sabem o que fazem, lá em Svartsjö. Eles se portam como é de uso e costume ali há muitas centenas de anos.
Mas, enquanto permaneces no outeiro da igreja, tu és um ser poderoso e magnífico, posto não hajas recebido flores nem lágrimas. Ninguém vai à igreja para saber quem és. E assim, em silêncio, aproximar-se-ão do ataúde e de pé o contemplarão. A ninguém ocorre ofender o defunto compadecendo-se dele. Ninguém manifesta outra opinião senão a de que foi bom que chegasse a sua hora.
De maneira alguma sucederá como na cidade, onde serias sepultado num dia qualquer da semana. Em Svartsjö, terás sepultura num domingo, de modo que em torno de ti esteja reunida a comunidade inteira. Lá verá, ao lado do teu féretro, tanto a jovem com quem dançaste na última noite de São João como o homem com quem fizeste troca de cavalos na última feira. Terás o mestre-escola que te ensinava a ler quando eras menino, e que de ti se esqueceu, embora ainda te lembre tanto dele; e terá também o velho parlamentar que nunca dantes te havia cumprimentado. Não, não é como na cidade: lá os homens mal se virariam para ver-te à tua passagem.
Quando chegam as compridas correias e as põem debaixo do caixão, não há ninguém que não acompanhe com interesse todos os movimentos.
Não imaginas que espécie de zelador tem a igreja de Svartsjö. É um velho soldado, com uns ares de marechal-de-campo. Traz os cabelos cortados à escovinha, retorcidos os bigodes, e usa cavanhaque; é esbelto e alto, sempre empertigado, passo leve e firme. Aos domingos veste uma sobrecasaca bem escovada, de bom tecido. Na verdade, é o mais belo ancião que se poderia arranjar. É ele quem vai na frente, à testa do cortejo. Depois dele vem o porta-maça.
Escusado dizer que o porta-maça faz pobre figura em comparação com o zelador da igreja. Pode-se dar que o chapéu lhe fique demasiado grande, ou fora de moda. Nota-se que está bastante constrangido ali, mas desde quando não se sente contrafeito um porta-maça?
Assim chegas, tu mesmo, no teu féretro, com os seis carregadores, e vêm-se aproximando também o pastor e o sacristão, os moradores da aldeia, e a paróquia em peso. Todos os fiéis te acompanham ao campo-santo: disto podes estar certo.
Mas agora prestarás bem atenção a uma cousa: vê como parecem humildes e pobres esses que te acompanham. Não há entre eles pessoas enfatuadas como as da cidade; só a gente simples e modesta de Svartsjö. Apenas se encontra ali alguém que é deveras grande e digno de reverência, e esse alguém és tu, que morto estás. Os outros, coitados, terão de se levantar no dia seguinte para recomeçarem as suas duras e árduas fainas; sentar-se-ão em suas velhas e míseras choupanas, e tornarão a vestir as suas velhas roupas esfarrapadas. Os outros, coitados, hão de continuar sempre atribulados, atormentados, torturados, oprimidos, humilhados pela miséria.
Se um forasteiro marchasse a teu lado até à cova, ficaria mais comovido ao ver as pessoas que tomam parte no cortejo fúnebre do que ao pensar em ti, que morto estás. Não precisas nunca mais examinar a gola de veludo da casaca, a ver se a orla se lhe começa a desbotar pelos rebordos; já não é mister dobrares cuidadosamente o lenço a fim de lhe esconderes o rasgão. Nunca dos nuncas necessitarás pedir aos mercadores da aldeia que te vendam fiado; e não sentirás jamais como te vai fugindo a energia para o trabalho, e assim não estarás à espera do dia em que te convertas num pesado fardo para a comunidade.
Enquanto te acompanham ao túmulo, não há um só dentre eles que não imagine que é preferível morrer, que é melhor ir para o Céu, em meio às brancas nuvens da manhã, do que sofrer sempre esta vida cheia de tantas vicissitudes.
Quando se chega ao muro do cemitério, onde a cova está aberta, substituem-se as correias por grossas cordas, e os que te conduzem o féretro sobem para os montes de terra solta e te fazem baixar à tumba.
Concluído isto, o sacristão se aproxima da beira do sepulcro e põe-se a cantar: - “Eu vou para a morte...”
Ele canta o salmo sozinho: nem o pastor nem ninguém da congregação o ajuda. Mas o sacristão tem de cantar; e, por mais rijo que sopre o vento norte, por mais abrasador que lhe bata o sol no rosto, ele canta.
O sacristão já é muito velho, e não lhe resta muita voz para cantar. Sabe que esta já não soa tão melodiosa agora, ao cantar para o morto no fundo da sepultura, como o era nos dias da sua mocidade, mas cantará, porque este é o seu dever.
Pois, fica sabendo, no dia em que lhe faltasse de todo a voz, de modo que não pudesse cantar, ver-se-ia obrigado a pedir demissão do cargo, e seria o mesmo que lançar-se na mais negra miséria.
Por isso, toda a congregação se toma de ansiedade sempre que o velho sacristão principia a cantar: todos perguntam a si mesmos se essa voz se agüentará firme através de todos os versículos. Mas ninguém o acompanha, nem um só dos fiéis presentes, porque não é possível tal cousa, não é de uso. Jamais se canta à beira do túmulo em Svartsjö. Na igreja só se canta o primeiro salmo, nas matinas de Natal.
Contudo, se alguém prestasse bem ouvidos, haveria de observar que o sacristão não está cantando sozinho. Em verdade, outra voz o acompanha, mas o tom lhe é tão precisamente igual que as duas vozes se misturam, como se fossem uma só.
Essa outra voz, que canta em acompanhamento, pertence a um velhinho que traja uma comprida vestidura de burel pardo. É mais idoso que o sacristão, mas solta tudo quanto tem de voz para ajudá-lo.
E essa voz, como foi dito, é absolutamente do mesmo timbre que a do sacristão, e tão semelhantes são as duas que não se pode deixar de ficar maravilhado.
Mas repara-se de mais perto, e vê-se que o velhinho do burel pardo é, deveras, muito parecido com o sacristão: o mesmo nariz, a mesma barba, a mesmíssima boca, somente um tanto mais velho e mais maltratado pela vida. Compreende-se logo que o pobrezinho é irmão do sacristão, e fica-se sabendo, por igual, o motivo que o fez acudir em auxílio deste.
Imagina só: jamais ao velhinho lhe correram bem as cousas neste baixo mundo, sempre perseguido da má sorte, e de uma feita abriu falência, arrastando o sacristão na sua desgraça. Ele sabe que, por culpa sua, o irmão tem de lutar com sérias dificuldades.
O sacristão tentou endireitar-lhe a vida e os negócios, mas sem resultado, porque o velhinho não é daqueles a quem se possa dar a mão: ele sempre carregou consigo o infortúnio, e nunca teve a necessária força para vencer.
Ao invés, o sacristão tem sido a luz refulgente da família, enquanto o outro não tem feito senão receber e receber sempre, sem nada restituir.
Oh! Falar em restituir, santo Deus! Ele que é tão pobre! Devíeis, Senhor Deus, ir ver a choça em que mora, lá no bosque!
Bem sabe o velhinho que tem sido um fardo pesado, a tristeza e o tormento, sim, um suplício, para o irmão e para todos os seres humanos.
Mas considera: nos últimos tempos tornou-se importante, e presentemente correm-lhe os negócios à feição. Já agora, pode restituir alguma cousa. E é o que está fazendo. Ajuda o irmão, o sacristão, que tem sido o seu farol, a animação e alegria em todos os dias da sua vida. Ajuda-o neste instante a cantar, a fim de que possa manter-se no emprego.
O velhinho não vai à igreja, por lhe parecer que todos reparam em sua pessoa, pois não tem roupas pretas domingueiras. Mas sobe a encosta da igreja aos domingos, a ver se lá em cima há algum caixão por sobre os cavaletes pretos, diante do paço paroquial. Se encontra algum, acompanha-o até o cemitério, e faz o sacrifício de apresentar-se com a sua velha estamenta parda, e ajuda o irmão com a sua desafinada voz.
Ele ouve perfeitamente quão mal lhe sai o canto, e, assim, coloca-se por detrás de todos, e não ousa acercar-se do túmulo. Mas canta, ah! isto ele o faz. E não seria muito perigoso se a voz do sacristão falhasse numa que outra nota, porque “ele” ali está para garanti-lo...
No cemitério ninguém se ri do canto. Mas, de regresso aos lares, e desfeita a recolhida unção, falam do que passou na igreja, e riem do canto do sacristão – riem tanto dele como do irmão. Não se zanga o sacristão com tal cousa, pois não é do seu temperamento, mas o velhinho sofre com isto e preocupa-se. A semana inteira treme ao só pensamento do domingo, mas, chegado este, e apesar de tudo, ei-lo a subir pontualmente ao cemitério e cumprir o seu dever.
Tu, porém, lá do fundo do caixão, tu não pensas tão mal assim de tais cânticos. Achas até que é boa música. Não é verdade que gostarias de ser enterrado em Svartsjö só por causa desses cantos?
Diz o salmo que tudo é um eterno caminhar para a morte, e, quando os dois velhos cantam, esses dois que passaram a vida inteira pelejando um pelo outro, sente-se quão dura e amarga é a vida, e fica-se muito contente de estar morto.
E assim acaba o canto: o pastor lança alguns punhados de cinza sobre o ataúde e reza uma oração por ti.
Ao depois, põem-se de novo a cantar as duas velhas vozes: - “Eu vou para o Céu...”
E não cantam agora estes versos melhor do que antes. As duas vozes se lhes tornam mais fracas e mais lamentosas à medida que cantam.
Mas para ti se abre o espaço, vasto e infinito, e lá vais subindo com ansioso júbilo, flutuando, e tudo o que é da Terra vai sumindo, esfumando-se, empalidecendo.
Mas as derradeiras notas que da Terra ouves são, todavia, como um hino de Fidelidade e Amor. Em meio ao teu vôo indeciso, há de o pobre canto despertar em ti saudade de tudo quanto aqui na Terra encontraste, levando-te para o Alto. E ele far-te-á transfulgir ainda como uma luz esplendorosa e far-te-á belo como um anjo do Senhor..."

Selma Lagerlöf In “Mar de histórias: antologia do conto mundial, VI: caminhos cruzados/ [organizadores e tradutores] Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai. -4.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Das razões do nome deste blog 2 ou "O ninho das alvéloas"


Tal "colisão de palavras" não é de minha autoria. Está num conto magnífico de Selma Lagerlöf (que adiante vai transcrito), escritora sueca que conheci há pouco tempo e de quem não se acha nada no Brasil, a não ser em sebos.

"O ninho das alvéloas


Hatto, o eremita, orava a Deus no deserto. Era dia de tempestade: a barba comprida e os cabelos desgrenhados esvoaçavam-lhe em trono do rosto como tufos de grama no cimo de uma velha ruína. Porém Hatto não fazia um movimento para afastar os cabelos dos olhos nem prender a barba à cinta, pois tinha os braços erguidos para o céu. Desde o amanhecer mantinha levantados os braços nodosos e peludos, tão incansavelmente como uma árvore estende os seus ramos; e contava permanecer assim até o cair da tarde.
Era um homem que aprendera a conhecer a maldade dos homens. Ele mesmo perseguira e atormentara, mas os tormentos e as perseguições que sofrera excediam o limite que seu coração podia suportar. Por isso, retirara-se para a vasta charneca; cavara nas areias da ribanceira uma espécie de caverna, e lá se tornara um santo, cujas preces subiam ao trono de Deus.
Hatto, o eremita, rezava, diante da sua caverna, a grande prece da sua vida. Rogava a Deus que fizesse raiar o dia do Juízo Final sobre esta Terra maldita. Invocava os anjos, cujas trombetas ressoantes anunciarão o fim deste reino de pecado. Invocava as ondas de sangue que afogarão as iniqüidades do mundo. Invocava a peste que encherá os cemitérios.
À volta dele estendia-se a charneca, deserta e nua. E o furacão silvava como prodigiosa ameaça sobre a terra pelada. No entanto, um pouco mais acima crescia um salgueiro de tronco enfezado e curto que formava na extremidade um grosso nó de onde rebentavam molhos de ramos tenros. Pelo outono, os habitantes da planície o despojavam de sua fresca ramagem. Pela primavera, a árvore brotava novos e flexíveis rebentos que, nos dias de vento forte, se agitavam como os cabelos e a barba de Hatto, o eremita.

O casal de alvéloas que ali costumava fazer o seu ninho queria, naquele dia precisamente, começar a construí-lo. Mas entre os galhos que os fustigavam não acharam nenhuma segurança. Chegavam com folhas secas de caniço, fibras de raízes e junco do verão anterior, e várias vezes tiveram de voltar sem nada conseguir. Foi quando avistaram o velho Hatto, que rogava a Deus que a tempestade aumentasse e varresse tanto os ninhos dos pequeninos pássaros como os das águias.
Certo, as pessoas de hoje dificilmente imaginam quanto pode ser nodoso, musgoso e negro, e como se assemelhava pouco a um homem, um velho eremita daquele tempo. A pele distendida na fronte e nas faces dava-lhe o aspecto de uma caveira, onde, no fundo das órbitas, apenas dois pequenos clarões eram resquícios de vida. Os músculos ressequidos tiravam-lhe aos membros qualquer sombra de redondeza; e os braços não passavam de longos ossos recobertos de uma crosta de carne rude e rugosa. Vestia uma velha batina preta, muito justa. Estava tostado pelo sol e enegrecido de lama. Claros, nele, somente os cabelos e a barba. Dera-lhes o sol e a chuva os mesmos tons verdes e cinzentos que ao reverso das folhas do salgueiro.
Os pássaros que procuravam lugar para seus ninhos tomaram Hatto, o eremita, por um salgueiro, tão velho quanto o outro, e que uma machadada detivera também no seu impulso para o céu. Voavam, iam-se embora, voltavam, bordejavam, giravam em torno de Hatto, tomavam pontos de referência. Calcularam a situação dele em relação às aves de rapina e às tempestades. Acharam-no pouco propício; mas a vizinhança do rio e dos caniços, seu depósito de provisões e sua oficina, decidiram-nos. Uma das alvéloas atirou-se feito uma flecha na mão erguida de Hatto e nela depositou sua fibra de raiz.
A tempestade soprava: a fibrazinha voou. Porém as alvéloas retornaram e tentaram inserir as fiadas do seu ninho entre os dedos calosos do velho ermitão. Súbito, um grosso e rude polegar calcou os pedacinhos de erva para os reter, e quatro dedos, dobrando-se por sobre aquela mão, formaram como que um tranqüilo nicho onde os pássaros poderiam construir. E Hatto continuava as suas preces: __ “Senhor, onde estão as tuas nuvens de fogo que destruíram Sodoma? Quando abrirás as cataratas celestes que levantaram a arca de Noé até o cimo do Arará?”
E no cérebro febril do solitário surgiram as visões do Juízo Final. Tremia o solo; o firmamento avermelhava-se. Mas, enquanto essas fúnebres visões lhe fascinavam a alma, seus olhos entraram a acompanhar o vôo das alvéloas, que reapareciam sem interrupção e, de cada vez, com um gritinho de contentamento, consolidavam o seu ninho com um novo pedaço de erva.
O velho não se mexia, pois, para obrigar o Senhor a escutar-lhe a prece, fizera o voto de orar imóvel do amanhecer ao pôr-do-sol. E, à medida que aumentava o cansaço, mais vivos se lhe tornavam os sonhos de visionário. Ouviu o estrondo das casas a desabar e das paredes a se desmoronarem. Passavam-lhe ante os olhos multidões aterradas e vociferantes, expulsas, acossadas pelos anjos da destruição, anjos de semblante terrivelmente belo, encouraçados de prata e de ouro, galopando em cavalos pretos, com látegos de relâmpagos.
Entretanto as alveloazinhas construíram sem tréguas. Na charneca, onde cresciam tufos mirrados, e perto do rio orlado de juncos e caniços, não faltavam materiais. Não gozaram sequer o repouso do meio-dia, e antes de baixar a noite já chegavam à cumeeira da sua construção. Antes, porém, que a noite baixasse, Hatto, cujos olhos as tinham seguido demoradamente, interessava-se pelo trabalho delas. Censurava-lhes a lentidão; indignava-se com as rajadas de vento que lhes retardavam a execução da tarefa, e decerto não suportaria que elas descansassem. E o Sol se pôs. E os pássaros volveram aos caniços do rio.

Ao despontar do dia, as alvéloas cuidaram, a princípio, que os acontecimentos da véspera não passavam de um suave sonho. Inutilmente se regulavam pelos seus pontos de referência, debalde voavam em todas as direções, subiam direito ao céu e sondavam com o olhar a imensidão da charneca: o ninho e a árvore tinham desaparecido. Pousaram sobre duas pedras que emergiam das águas e puseram-se a discutir o caso, agitando a cabecinha e meneando a longa cauda. Mas, ainda o Sol não se erguera meio palmo acima da outra margem, a sua árvore veio colocar-se no mesmo lugar da véspera. Era ela, sem dúvida, sempre tão nodosa e tão negra, e com o ninho delas sobre aquela espécie de ramo rude e truncado. E as alvéloas retomaram o seu trabalho, sem mais se deterem na consideração das maravilhas de que é tão rica a Natureza.
Hatto, o eremita, que expulsava da caverna as criancinhas, gritando-lhes que melhor seria não terem nascido, aquele Hatto cujo olho mau os pastores temiam, empenhava-se em não fazer nada que pudesse assustar ou molestar as alveloazinhas. Sabia que em relação às coisas que Deus permite na Natureza sucede o mesmo que com todas as sílabas dos Livros Sagrados: cada uma delas tem o seu sentido misterioso e místico. E descobrira o que significava aquele ninho começado entre os seus dedos. Era evidentemente a promessa de Deus de que, se ele permanecesse a orar, com os braços erguidos, até que os pássaros houvessem chocado os filhinhos, a sua prece seria escutada e o mundo destruído.
Nesse dia foi ele menos perseguido por visões lúgubres. Mal afastava os olhos do trabalho dos pássaros. Via o ninho concluir-se, os pequenos arquitetos experimentarem-no e, como reboco e pintura, colocarem-lhe na parte externa alguns liquens colhidos no verdadeiro salgueiro. Quando tiveram de mobiliá-lo e habitá-lo, procuraram as lanugens das plantas mais sedosas, e mamãe alvéloa foi a ponto de arrancar algumas das próprias penas para melhor estofar o interior da sua casa.
Os camponeses, que receavam o funesto poder das orações do eremita, tratavam de lhe aplacar a cólera levando-lhe pão e leite. Encontraram-no de pé, com as mão erguidas e o ninho na mão. - “Vejam - diziam eles - como aquele santo homem gosta dos passarinhos!” E não mais o temeram, chegaram-lhe à boca a vasilha de leite e puseram-lhe entre os lábios pedaços de pão. Depois de haver comido e bebido, Hatto repeliu os homens com palavras ásperas; porém às maldições do eremita eles só responderam com bons sorrisos.
Já desde muito o seu corpo era o escravo da sua vontade. A poder de açoites e jejuns, genuflexões de um dia inteiro e insônias de uma semana a fio, havia-o reduzido à obediência. Seus músculos de ferro mantiveram-lhe rígidos os braços dias e dias; e, quando a alvéloa, chocando seus ovos, não mais deixou o ninho, nem o cair da noite o fez voltar à sua caverna para deitar-se: dormiu sentado, com os braços estendidos para o céu. Mais de um cenobita no deserto fizera coisas ainda mais duras!
Habituara-se àqueles dois olhinhos irrequietos que o fitavam da entrada do ninho. Protegia-os contra a chuva e o granizo.
Ora, um belo dia a alvéloa se levantou e saltitou sobre a frágil fortaleza, logo seguida pelo macho, que tremia de contente. Ambos estudavam providências e mostravam-se alegres, embora o ninho estivesse cheio de um pipilar desesperado. Um instante depois, atiraram-se a uma desenfreada caça de moscas e mosquitos. E, à proporção que as moscas e mosquitos apanhados eram conduzidos ao ninho, os pipios aumentavam, a ponto de turbar as preces do piedoso eremita. Então, lento e lento, num esforço das articulações, que haviam quase desaprendido a faculdade de funcionar, os seus braços desceram; e os seus olhos de brasa mergulharam no ninho tumultuoso. Não, jamais vira ele nada tão lamentavelmente feio e miserável: corpinhos nus, sem olhos, sem asas, e seis grandes bicos escancarados. Singularmente impressionado, sentiu invadi-lo uma ternura pelos bichinhos. Daí por diante, quando suplicava a Deus que salvasse o mundo pela destruição, fazia tácita reserva para aqueles pequeninos seres indefesos. E, ao receber alimento das mãos dos camponeses, não mais lhes agradeceu desejando-lhes a morte. Alegrava-o que não o deixassem morrer de fome, porquanto sua vida era necessária à ninhada que lhe pipilava na mão.

Dentro em breve seis cabeças redondas se estenderam todo o dia às bordas do ninho. E cada vez com maior freqüência o braço do velho Hatto baixava até os olhos. Via as penas que furavam a pele vermelha, os olhos que se abriam, e a forma do corpo que principiava a se arredondar. E de seus lábios subia a prece, mais e mais hesitante. Deus lhe prometera - disso estava certo - que a destruição irromperia logo que as alveloazinhas soubessem voar. E agora ele quase buscava subterfúgios, pois lhe parecia impossível imolar aqueles pequeninos seres cujo nascimento ele ajudara. Até então, nunca tivera nada que dependesse dele; e o amor dos fracos e dos humildes, insinuando-se-lhe no coração, tornava-o incerto. Às vezes passava-lhe pela cabeça lançar ao rio a ninhada inteira. Que felicidade maior que a de morrer sem ter conhecido a dor e o pecado? Salvaria, assim, aquelas pobres criaturas das aves de rapina, da fome, do frio, das provações da vida. Estava a pensar nessas coisas, quando um gavião investiu sobre as alvéloas, e Hatto mal teve tempo de o agarrar com a mão esquerda e arremessa-lo para o lado do rio.

Chegou, por fim, o dia em que os pequeninos tiveram de ensaiar as asas. Dentro do ninho, uma das alvéloas diligenciava impeli-los até à entrada, enquanto a outra esvoaçava em derredor para lhes mostrar como era fácil, que lhes bastava tentar. Mas os bichinhos tinham medo e recusavam-se à experiência. Então os pais exibiam aos olhos dos filhos todos os recursos de sua arte. Giravam e voltavam num movimento repentino das asas, ou, como as cotovias, subiam direito ao céu e mantinham-se imóveis no ar, com as asas a tremer violentamente. Os pequeninos recalcitravam. E Hatto, o eremita, não resistiu ao desejo de intervir. Deu-lhes um leve piparote, e tudo se resolveu. Fora do ninho, açoitando o ar ao jeito dos morcegos, voam canhestramente, dão cambalhotas, caem, levantam-se, e valem-se dos primeiros conhecimentos para retornarem a casa o mas rápido possível. Os pais chegam orgulhosos e alegres, e o velho Hatto sorri da alegria deles: de alguma coisa valera a sua interferência!
Sorriu e perguntou a si mesmo, seriamente, se Deus não tinha outra saída senão violar a promessa feita... Quem sabe? Talvez Deus, o Pai, sustentasse a Terra em sua mão direita como um grande ninho de pássaros, e houvesse terminado afeiçoando-se àqueles que nela vivem. E, no momento de os aniquilar, talvez houvesse sentido por eles a mesma piedade que o solitário da charneca pelos passarinhos. Seguramente os pássaros valiam mais do que os homens. Porém Hatto compreendia, também, que Deus pudesse compadecer-se da espécie humana.

No dia seguinte o ninho estava deserto, e a amargura da solidão encheu-lhe a alma. Caiu-lhe o braço, lento lento, ao longo do corpo; parecia-lhe que toda a Natureza continha a respiração na expectativa das trombetas do Juízo Final. Nesse instante, porém, as alvéloas voltaram familiarmente a pousar-lhe na cabeça e nos ombros. E um clarão iluminou o conturbado cérebro do velho ermitão. Ele, que prometera permanecer imóvel, baixara o braço! Como é que não pensara nisso? Cada dia baixara o braço para olhar o ninho. E, de pé, enquanto os seis pequeninos adejavam e brincavam em torno dele, abanou a cabeça, dirigindo-se a um ser invisível:
- Estás desobrigado de cumprir a tua promessa. Estás desobrigado! Eu não mantive a minha palavra; tu não precisas de manter a tua!
E afigurou-se-lhe que as montanhas cessavam de tremer e que o rio se espraiava no seu leito sereno, com uma segurança imensa."



Selma Lagerlöf In “Mar de histórias: antologia do conto mundial, VI: caminhos cruzados/ [organizadores e tradutores] Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai. -4.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999