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sexta-feira, 6 de março de 2020

Tia Eunice

Estava ouvindo a Ruth Rocha contar que sua entrada para a literatura infantil (ou literatura para crianças, como ela prefere dizer) se deu por acaso, mas que ela sempre teve certa naturalidade no trato com crianças e que a isto talvez se deva seu sucesso.
Lembrei-me que eu tive a felicidade de conhecer uma dessas pessoas com "naturalidade no trato com crianças": Eunice, essa ainda muito moça da foto, que veio a ser minha tia por consórcio com meu doce tio Darci, o moço ao seu lado, irmão de minha mãe. É impossível descrever a sensação de acolhimento e conforto que experimentava ao estar ao pé dela, eu por volta dos dez anos de idade, ouvindo as estórias e anedotas que contava com uma graça especial enquanto lidava com sua trabalheira sem fim. Com frequência, íamos eu e uma prima passar alguns dias em sua casa, em companhia das primas suas filhas. Dávamos depois um trabalho danado a nossos pais para nos tirar de lá. Penso que ela também por acaso poderia ter enveredado pela literatura para crianças. Pena que não aconteceu. Note-se a doçura dela na foto: não era pose para a posteridade; ela era assim mesmo.

sábado, 8 de setembro de 2012

versos perdidos

Quando minha irmã morreu, lá se vão 37 anos, suas meninas não encontraram uma única linha das muitas que sabiam que ela escrevia. Imaginaram e lamentaram que a mãe, pressentindo o fim, tivesse escolhido não deixar vestígios da intimidade de seu espírito. Para mim também estava claro que ela escrevesse, porque uma vez me contou, a propósito de nosso aluamento comum, que encontrara entre suas coisas uns versos escritos com sua caligrafia, e ficara sem saber se eram dela ou se os copiara de algum livro. Por alguma razão ela me disse os versos e eu os retive na memória, sem nunca tê-los lido ou transcrito da fala de minha irmã. São estes:

"Essa que te segue calma
 pela areia deslizando
não é tua sombra, é minh'alma
que teus rastros vai beijando".

A irmã de que falo é essa polaquinha em primeiro plano, a segunda menina da esquerda para a direita.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

da impertinência de certas manifestações de fé

Em seguida à  espetacular vitória do nosso volei feminino nas olimpíadas, as atletas e a comissão técnica ajoelharam-se em círculo para uma ostensiva oração de graças. Não sendo eu mesma religiosa, ainda assim posso entender - por experiência própria - o quanto é instintivo o impulso de gratidão,  nos momentos críticos de nossas vidas, ao acaso ou a uma instância maior qualquer que precisamente ali nos tenha favorecido. Deduzo, no caso das meninas do volei, que essa "instância maior" seja o deus cristão, pois rezavam o Pai Nosso, e esta é a oração cristã por excelência, dado que ensinada pelo próprio Cristo. Se fosse comigo essa situação de vitória sobre o adversário, e se me fosse dado acreditar num deus e especialmente no deus cristão, que pelo que andei lendo é para ser um pai amoroso, imparcial e justo, e pai de todos, de todas as bandeiras, penso que se eu tivesse mesmo fé, eu refrearia o impulso de dar graças ao meu deus pela vitória, pois em princípio não me pareceria razoável que meu deus tivesse me favorecido em detrimento de minha irmã do outro lado da rede. E ainda que eu pudesse, por tais e quais motivos, me convencer que o meu deus  seria capaz de me favorecer em detrimento de minha irmã, ainda assim eu refrearia meu impulso de ostensivamente dar graças ao meu deus, pois isto significaria sujeitar minha irmã, já em desvantagem pela derrota no jogo, à humilhação pública pela explicitação de seu desmerecimento do favor divino, e isto, convenhamos, nada tem a ver com compaixão. E a compaixão, no meu entendimento, é o centro da idéia do Cristo, ou seja, a experiência da dor dor outro como se fosse a nossa. Mas, como eu não tenho o dom da crença, quem sabe me escapa algo que me impediria de ver aquela "manifestação de fé cristã" como uma imperdoável grosseria com nossas irmãs do outro lado da rede. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

eu, o homem do facão

Meu pai, que me achava uma pessoa extremamente dura - e com razão, ao contrário do que muita gente pensa - costumava me dizer: "você é ruim como meu tio Rafael". Desse tio, ele contava que sempre que alguém lhe agradecia por qualquer coisa com o costumeiro "Deus o abençôe", ele invariavelmente retrucava: "não precisa".

segunda-feira, 5 de março de 2012

minha mãe


Esta foto de minha mãe foi feita com câmera bem ruim e iluminação totalmente inadequada. O resultado - do ponto de vista técnico - é sofrível como se vê, mas assim que a revelei soube que era uma foto definitiva; é um desses raros casos de arranjo do caos numa singularidade de límpida expressão: o aventalzinho xadrez, a posição de repouso em sua cadeira preferida de minha casa, a bruma em torno, tudo se compõe com a melancolia, a resignação e talvez a vaga ternura com que ela me olha, já então do fundo do tempo.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Por que as mulheres comem restos


(imagem de Petr David Josek)
Depois que meus filhos nasceram há coisas que eu só como se sobrarem: a última porção que ficou na travessa depois que todos já se empanturraram, ou, o que é mais comum (sob engulhos e vaias da platéia indignada), as aparas, os restos rejeitados do prato de cada um. Meu marido atribui esse hábito feio a um abominável franciscanismo de que gosta de me acusar; no fundo ele sabe que não se trata disso, pois já me contou que sua primeira mulher fazia coisa parecida. Ora, eu não conheço mulher “normal” que não o faça. Que me atire a primeira pedra a mãe – mãe normal - que consiga abrir e comer sem culpa um danoninho inteiro, limpinho e só dela, ainda que a geladeira esteja abarrotada de danoninhos.
Eu já contei aqui que tivemos uma cadela, criatura elegante e de espírito refinado, chamada Olívia. A Olívia, quando tinha filhotes já taludos, em idade de consumir comida sólida, era incapaz de se servir de qualquer bocado que já não estivesse bem roído, babado, revirado, triturado em mil pedacinhos e disperso pelo quintal pela criançada. Se a separávamos dos filhotes bem saciados e insistíamos que aceitasse de nossa mão um belo pedaço de carne, por exemplo, ela educadamente o abocanhava e ficava por ali disfarçando, até que finalmente conseguisse entregar a guloseima aos miúdos. Se daí sobrasse alguma coisa, ela comia.
Pois as mulheres, como as fêmeas de qualquer espécie, têm impulsos atávicos que os homens são incapazes de compreender.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

os homens e as mulheres*


*a propósito da coluna da Nina Horta no Jornal Folha de São Paulo, neste 06/01/2011


Já eu era meio mulher disfarçada de homem. Sem ser propriamente feia, reconheço agora, andava curvada sob o peso de minha feiúra. Se os homens me olhavam, e olhavam muito, eu considerava que isto se devesse a alguma tara muito excêntrica, ou, no mais das vezes, ao brilho da minha inteligência. Cresci com a convicção inabalável de que era muito feia e muito inteligente.
Fui engenheira, ainda no tempo em que essa palavra nem existia; as engenheiras éramos todas “engenheiros”, até que, lá pelo final dos anos 80, decretaram que a palavra “engenheira” passasse a existir, e me convocaram ao CREA para alterar gratuitamente a designação na carteira profissional. Não fui: sou oficialmente “engenheiro” até hoje.
Pois fui engenheira, civil, não dessas de bota e capacete (só muito raramente), que não fazem muito o meu gênero: sempre tive medo de altura, de escorregar, de cair, de me machucar. Vivi grande parte de minha juventude às voltas com papelada e providências sem a menor graça. Gostava é de que me mandassem lá de cima a ordem: “considere tal hipótese”. Então eu, desde sempre um tantinho autista e inclinada ao devaneio, era capaz de passar semanas a fio esquecida de tudo, esquecida de mim, imune ao frio, ao calor, à chuva, aos apelos todos da vida sensível, semanas a fio mergulhada em especulações que ia tecendo na língua de Newton e Leibnitz, como que encantada, não tanto pelo que me diziam, mas sobretudo pelo adorável desenho que faziam em metros e metros de papel contínuo. Era bom.
Um dia tive um filho, e isso mudou completamente o foco de minhas incertezas. Passei a enxergar tudo através do filtro desse acontecimento. Acabei por ir-me embora com o poeta pai do meu filho, e de quebra tive outros dois. Brinquei de engenheira por uns bons anos ainda, mas agora não mais: há tempos vivo do suor diário do pai de meus filhos. Nunca me deixei analisar por causa disso, ainda que por isso e por muitas outras coisas eu seja ligeiramente louca. Eu não ligo: meu poeta diz que tem uma certa queda pelas loucas.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

da inutilidade dos conselhos paternos

Quem tem filhos crescidos mas ainda não propriamente abalroados pela experiência sabe o quanto são inúteis os conselhos, as advertências sobre as dificuldades da vida em geral e dos casamentos em particular, principalmente quando há crianças envolvidas. Os jovens nossos filhos, assim como nós quando jovens, e antes disso, nossos pais, jovens, pensam que as canseiras e tribulações em que os adultos insistem tanto em repisar só se deram por ingenuidade, por falta de descortino, por estreiteza de capacidade de análise, estando eles, portanto, os moços da vez, sensatos e perspicazes como ninguém nunca dantes, livres de tais perigos. Pois o jovem em geral pensa que antes de sua própria geração o mundo vivia ainda meio nas trevas, e por isso não é de espantar que se periclitasse tanto.
Minha tese sobre essa impossibilidade de transmitir aos moços a sabedoria de nossa experiência é de que isto se dá por um dos tantos ardis da natureza para assegurar a perpetuação das formas vivas, da nossa, em particular. Se os jovens fossem capazes de se impressionar com o relato das vicissitudes que já vivemos, das armadilhas em que nos deixamos pegar ou simplesmente do prosaísmo do corriqueiro da vida, creio que a humanidade correria algum perigo de se extinguir; mas a natureza garante contra isso que as palavras dos mais velhos entrem por um e saiam por outro dos ouvidos dos moços. E assim, a cada geração as mesmas trapalhadas sucedem.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

"O Tirpe", ou "história com final feliz"




Meu irmão seguiu à risca a orientação de nosso pobre pai, para navegar pela vida sem fome e sem muito percalço: entrou logo para o Banco do Brasil, fez carreira com jeito e gosto, até que, nauseado com o “os novos conceitos admnistrativo-empresariais”, as técnicas ultra-modernas de competição - rasteira e golpe baixo - aposentou-se assim que deu. Mas antes de aposentar-se morou em várias paragens e numa delas teria ficado até o final dos tempos, se a família não reclamasse a volta para o interior do Paraná: nas Alagoas descobriu o cenário que queria para a vida e sua vocação de audaz navegante e pescador.
Agora, já distante daqueles dias de jangada e mar azul, ele descobre nova paragem às margens do rio Paraná e novo amor: um barquinho batizado com o apelido de nossa mãe, Lali, uma homenagem, claro, mas decerto também um pedido para que ela o proteja dos perigos do rio-mar. Que assim seja!

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

a propósito de sonhos


Já contei aqui que passei pouco mais de três anos da minha infância numa vila de serraria, há muito varrida do mapa, num lugar chamado Saudade. Pois nesse lugar às vezes era ocasião de festa, não sei dizer a troco de quê nem em que época do ano, mas certamente festa religosa, com a presença do turco dono da serraria, Elias Abrahão Maia (seu Didi), que não era turco mas sírio, sua mulher, dona Yolanda, às vezes mais gente de sua numerosa família, e, glória suprema, um padre que ia dizer missa de verdade, todos hospedados em minha casa, que era também o quartel general da serraria e tinha até rádio amador. Tenho vagas e esparsas lembranças dessas ocasiões, mas o de que mais me lembro, além da festa, é claro, com missa, procissão, e muito churrasco, pepino azedo e tal, é que minha mãe fazia macarrão para servir aos hóspedes em casa, primeiro umas placas grandes que ela secava na chapa do fogão a lenha antes de cortá-las em fitas. Eu sempre ganhava uma placa daquelas, deixada mais tempo na chapa para ficar tostadinha, mas seu Didi, que era um gordo muito guloso, sempre a roubava de mim, dizendo: “vai pedir outra para sua mãe”.
A foto acima foi tirada em 1959, eu imagino, durante um churrasco numa dessas festas. O homem de chapéu à direita é meu pai; ao seu lado está Seu Wile, sub-gerente da serraria que morava numa casa exatamente igual e simétrica à minha, do outro lado da rua. A polaquinha atracada com um sonho de goiabada sou eu, ao lado de minha mãe (os sonhos estavam nessa lata grande no chão, lembro como se fosse hoje).
Das outras pessoas na foto reconheço só a parte de cima da cabeça de uma de minhas irmãs, professora muito brava da escolinha da vila, oculta pelo rapaz em primeiro plano. Essa minha irmã, a mais parecida comigo, tinha um amor exacerbado por nosso pai. Lembro dela dizendo que queria muito morrer antes dele, porque não suportaria vê-lo morto. De fato ela o precedeu, ainda bem jovem, com uns trinta e poucos anos. Estava sozinha com ela quando isso aconteceu e segurei sua mão enquanto ela morria, razão pela qual espero que ela venha me receber quando for a minha vez. Certamente teremos muito que conversar.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Deus às vezes é pai

Anos atrás, num pleito em que concorriam ao governo do estado de São Paulo os candidatos Mário Covas e Paulo Maluf*, eu era a primeira de uma longa e empacada fila de eleitores numa seção eleitoral aqui de Barão Geraldo. Vindos do reservado da urna eletrônica ouviam-se uns “ai meu Deus, como é que é isso?, o que é que eu faço agora?”. Os mesários, do lado de fora, evidentemente, com a maior boa vontade tentavam orientar a eleitora dentro dos conformes da lei: “ a senhora precisa digitar o número do seu candidato... vão aparecer o nome e a fotografia dele... é ele mesmo?... se for a senhora confirma na tecla verde, senão a senhora cancela na tecla vermelha e começa tudo de novo... faz com calma que a gente não está com pressa”. Ao cabo de alguns minutos ouviu-se com alívio o sinal de votação encerrada, após o que a mulher aparece, em pânico, querendo por toda lei refazer o voto, porque tinha votado no candidato errado. “Mas minha senhora, isso não é possível, a senhora confirmou o voto, não dá para modificar agora”, dizia a presidenta da mesa. “Mas tem que ter como modificar, eu não queria de jeito nenhum votar no Covas e acabei votando justo nele”, implorava a mulher. E a mesária, para encerrar de vez o assunto: “minha senhora, nem que a gente quisesse, não é possível modificar voto confirmado. A senhora faz o seguinte: vai pra casa, toma uma água com açúcar, põe a sua cabeça tranqüila no travesseiro e entrega na mão de Deus, que Deus sabe o que faz.

* para quem não conhece, Paulo Maluf é um tradicionalíssimo político paulista que se vangloria de não se conseguir provar nenhum dos crimes de corrupção de que volta e meia é acusado.

sábado, 16 de outubro de 2010

amor implacável



"Eu também tive nos meus belos dias” a mania dos versos. No comecinho da década de 80 cheguei a inscrever um livro de poemas num concurso literário, Cruz e Souza, com sincera esperança de que enfim reconhecessem meu valor. Anos depois meu marido deu com os originais desse livro, um tal “Álbum de retratos”, por “João Abóbora”. Ele, crítico honesto diante de coisa quase nada, não teve dúvida: delicadamente desceu-lhe o sarrafo, como se diz lá na minha terra, e de quebra, como nossa intimidade permitisse, pinçou dali um verso que é um primor, quase uma caricatura de imagem comum, para volta e meia usá-lo em nossas conversas, quando quer que sua fala tenha um efeito, digamos, expressionista.
Porém, como as folhas apenas grampeadas do “Álbum” já então ameaçassem se desfazer de tanto rolar pelas gavetas da indiferença, da “nem sequer menção honrosa”, ele amorosamente redatilografou-o, isso mesmo, datilografou-o, página por página, arranjou-lhe capa, deu-lhe enfim encadernação modesta mas segura. É este o volume que guardo em minha coleção de cacarecos, junto com o álbum de poesias de minha infância, o da foto; o original, grampeei-o de volta e dei para uma irmã que tinha por ele grande apreço.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

como quase matei um amigo engasgado de tanto rir

Não há nada mais engraçado do que uma piada involuntária. Há muitos e muitos anos, estava eu na fila de espera dos elevadores do edifício Jaime Canet, em Curitiba, onde então trabalhava, quando notei à minha frente uma colega de outro departamento, alguns andares acima do meu, com quem na verdade eu jamais tinha antes conversado. Mas eu sabia que ela voltava de uma licença maternidade e, depois do breve cumprimento de sempre, achei por bem fazer as perguntas de praxe: foi tudo bem?, como é que está o neném?, etc. e tal... Ela prontamente sacou da bolsa e me passou um álbum de fotos para que eu soubesse de tudo com meus próprios olhos. Alguns segundos depois o elevador chegou, entramos todos, e eu inadvertidamente comecei a folhear o álbum, sentindo vários pares de olhos por sobre o meu ombro, não sei se constrangidos como eu, ao ver a sucessão de fotos da moça nua, completamente pelada, com o filhinho mamando, o filhinho arrotando, o filhinho dormindo, etc. Eu achei a coisa de extremo mau gosto e fiquei aliviada quando o elevador parou no meu andar e me livrei daquilo. Fui correndo contar o episódio estúrdio ao meu bom, engraçado e espirituosíssimo amigo Sérgio Ijaile que – vim a descobrir depois – não ia nem um pouco com a cara dessa moça. Ao final do meu relato, que ouviu o tempo todo com um ligeiro ar de quem cheira peido, ele perguntou:
- e a bazófia dela, também aparecia na foto?
Eu, que até então nunca tinha ouvido essa palavra, bazófia, não tive entretanto qualquer dúvida quanto ao seu significado, e prontamente respondi:
- Não, também não chegou a tanto, o neném estava acomodado justamente em cima da “bazófia”.

terça-feira, 8 de junho de 2010

outros tempos


Faz já uns trezentos anos eu trabalhei na fiscalização dos serviços de hidrometria que a SUREHMA fazia (não sei se ainda faz) para a COPEL. Era um trabalho para lá de chato, que consistia basicamente em receber os dados de campo, prepará-los para digitação, corrigir os que voltavam da digitação, alimentar com eles os programas que geravam os dados secundários, desenhar uma infinidade de curvas, verificar as inconsistências, encher o saco do pessoal da SUREHMA por causa das inconsistências, enfim ... Periodicamente ia-se a campo, eu e meus colegas, para fiscalizar a condição dos postos de observação ao longo dos rios: de ordinário era só verificar a condição dos pluviômetros, o nivelamento das réguas e a presteza dos observadores recrutados entre os ribeirinhos. Mas, às vezes, era preciso entrar no rio para fazer uma medição direta, e isto só era possível junto com uma das equipes de hidrometristas, não só porque eles é que tinham o barco e o equipamento de medição, mas principalmente porque eles é que sabiam enfrentar o rio. O trabalho de um hidrometrista é mal pago, pesado e penoso, exige que se viva a maior parte do tempo em trânsito, praticamente o mês todo longe de casa, acampado na barranca dos rios, com frio, com calor, abaixo de chuva, e com frequência em condições muito perigosas, na época das cheias. Não é de se admirar que grande parte dos hidrometristas com quem convivi naquele tempo tivesse problemas de alcoolismo. A SUREHMA contornava essa questão “temperando” as duplas de técnicos que saiam a campo, de modo que um deles fosse sempre muito sóbrio e careta, mesmo que apenas medianamente competente, e de preferência com ascendência moral sobre o companheiro, o “problemático”, mas de cuja competência não se podia prescindir. Dos “problemáticos” eu me lembro especialmente de um, uma figura engraçada e já folclórica entre nós da hidrologia, de quem se dizia ser a pessoa mais confiável para se ter ao lado no barco, se o rio não estivesse para peixe. Esse camarada, acaso o encontrasse nas reuniões esporádicas em nossas sedes em Curitiba, bem composto e escanhoado, parecendo sempre um pouco desconfortável, tratava-me com uma cerimônia fora de propósito, só se dirigindo a mim em último caso, sem nunca me olhar nos olhos e me tratando por “senhora”. Já se o encontrasse no campo, ele, ainda cerimonioso, mas agora de modo franco e natural, sempre ligeiramente “alegre”, tratava-me por “neguinha”.
Na foto, à direita, numa balsa de travessia do rio Ivaí, em Tereza Cristina, meu colega Ruy Dikran Stephen; à esquerda um hidrometrista da SUREHMA (não o desta crônica), de quem só me ficou o apelido (Beto) e a lembrança de que passava dias a fio se alimentando de bolacha de mel, por nojo de comer nas espeluncas em que a gente comia ao longo do trajeto.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Introdução às "notas de uma cozinheira para um filósofo glutão e preguiçoso"


De minha avó paterna sei apenas que era uma caboclinha de uns Lopes lá de Ipiranga; que morreu devido ao desabamento de um paiol durante um temporal, três dias após o casamento de meus pais; que foi dela que minha prima Têca herdou os modos de princesa. Teria gostado de mim, essa avó? A outra, que felizmente conheci, com quem convivi até a idade adulta, não gostava. Mas essa, quem sabe? Às vezes imagino que a visito na casa que não conheci, mas havia de ser parecida com a de minha tia Helena, sua filha, mãe da princesa Têca. Sento-me no caixote de lenha ao lado do fogão, e enquanto ela cozinha e se move e anda com gestos extremamente delicados, vou perguntando coisas de seu tempo de menina, das gentes que vieram antes de nós, de seu casamento com o espanhol meu avô, de meu pai e tios quando pequenos. Ela a tudo me responde, lá do seu tempo, assim como eu aqui do meu tempo converso com os que ainda virão de mim, e que porventura precisem que lhes diga qualquer coisa. Eu entretanto não a ouço, porque tudo que sei dessa avó é a vaga notícia de sua delicadeza, impressa nos genes de minha prima. Bem que eu podia ter perguntado mais dela no tempo em que os que a conheceram ainda viviam, mas quando se é jovem a vida é eterna e são eternos os que nos rodeiam; de repente nos damos conta de que “estão todos dormindo/ estão todos deitados/dormindo profundamente”, e então a vida daqueles sobre os quais nada ou pouco nos contaram fecha-se em irremediável esquecimento. Assim também acontece com as receitas cujos segredos em tempo não perscrutamos; perdem-se para sempre, como a da broa de centeio de minha tia Helena. É por isso, para contar algo de mim e de meu tempo, a pretexto de ensinar minhas receitas, ou o contrário, que vou fazendo estas notas. Se me dirijo explicitamente ao filósofo, é porque dos três porquinhos é o que mais gosta da minha comida; mas é claro que tudo aqui é igualmente para os três.

domingo, 23 de maio de 2010

o retrato de minha tia, por van Gogh


A natureza extremamente compassiva de van Gogh levou-o a fazer inúmeros retratos de trabalhadores do campo, por cujos gestos - o de arar, o de semear, principalmente - parece que ele tinha certa obsessão. Compreendia ele muito bem que a lida da gente que mói no aspro não tem nada de idílica; é penosa e desgastante, aviltante muitas vezes, e é assim que em geral a retratava.
Essa “cabeça de camponesa com touca esverdeada” que aí está comove-me por dois motivos: primeiro porque a dor dessa mulher quase se pode tocar; segundo, porque ela me lembra muito uma tia querida, também camponesa, também devastada pela dura vida do campo com que tirou seu sustento.
Minha tia Helena era a irmã mais velha de meu pai, o caçula de vários irmãos. Sobreviveu vários anos a ele. Quando ele morreu, lá se vão 29 anos, e eu cheguei de longe para vê-lo morto, ela me recebeu como um animal ferido e se agarrou desesperadamente em mim como se eu tivesse o poder de trazê-lo de volta.
De quando eu era muito criança e morávamos todos na serraria da Saudade, eu me lembro que ela fazia uns biscoitos de polvilho diferentes de todos que há por aí, muito grandes, redondos e altos, assados em forno de barro. Guardava-os num enorme saco de pano branco que, aberto, exalava o cheiro inesquecível da delícia que ela me oferecia quando a visitava.
Bem mais tarde, quando meus pais e meus tios moravam já em Guarapuava, ela fazia quase toda semana uma broa de centeio que ninguém mais, nem mesmo suas filhas com a mesma receita, foi capaz de reproduzir depois que ela se foi. Também era assada em forno de barro, numa forma grande; ficava enorme e esparramada, em formato oval, com casca muito preta e rija e o interior rendado e consistente como o do pão italiano, só que preto, evidentemente. Meu pai, que a visitava regularmente, a cada fornada dessas ganhava uma broa. Quando eu ou um de meus irmãos “loucos por broa da tia” estávamos em casa, e calhava de ele ter ganhado uma dessas, ele por brincadeira chegava da visita à irmã com a broa sem nenhum embrulho bem acomodada no sovaco, que era, conforme dizia, para não repartir com ninguém.

domingo, 18 de abril de 2010

virado viajado (a pedido da Zazá)


Em outros tempos, quando o mundo era bem maior, tinha muito menos gente, os veículos eram outros e as estradas às vezes nem existiam, era impensável sair em viagem qualquer sem levar um farnel farto, planejado para durar um bom tempo além do normal previsto para o percurso. Foi assim, por exemplo, que vim a conhecer o pão sírio, que os turcos donos da serraria na Saudade (na verdade eram sírios mesmo) levavam de São Paulo, cheio de quibe frito ou assado; na viagem de volta eles iam com o pão caseiro e o virado de galinha de minha mãe, pelo qual eram capazes de se bater em duelo.
Bem antes disso, no tempo de minha mãe e meus tios meninos, meu avô tinha “negócio”, como se chamavam os armazéns antigos, num lugarzinho de nada chamado Bom Jardim, no interior do Paraná. Era uma propriedadezinha considerável, a julgar pelo croquis que dois de meus tios, já velhos, reconstituíram de memória para mim, com casa espaçosa conjugada ao negócio, instalações da padaria, horta e pomar, galinheiro, chiqueiro e uma boa área para os cavalos. Acontecia às vezes de meu avô desejar um virado de galinha, mas virado viajado, e em lombo de cavalo, em cujo suor, segundo ele, acabava de se temperar o dito cujo. Minha avó então se programava para no dia seguinte cedinho estar com a iguaria pronta para a viajem, acondicionada num saco de pano muito branco; mas, não sendo o caso de viagem nenhuma, encilhava-se um cavalo e mandava-se que meu tio Darci, o menino mais velho, ficasse a cavalgar pelo potreiro até que desse a hora do almoço, quando então deveria “chegar” com o virado bem sacolejado na anca do animal, para alegria de todos.
Dia desses dou a receita.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

o virado de meu pai


Meu pai fazia um virado de feijão diferente de todos os outros que já comi. Lembrava, pela consistência, um cuscuz paulista: quando já frio, e principalmente amanhecido, podia ser cortado em pedaços ou quebrado em bolotas para se comer com as mãos; isto pela manhã, com café preto, é uma iguaria para deixar um autêntico caipira do Paraná de joelhos. No Paraná usa-se de preferência o feijão preto, ou usava-se naquele tampo, e em minha casa era mais comum a farinha de milho branca do que a de mandioca, embora esta possa ser usada aqui com vantagem, desde que em flocos. O preparo do virado não tem dificuldade nenhuma: refoga-se numa frigideira (daquelas pretas antigas de preferência) muita cebola; adiciona-se o feijão já cozido e temperado que sobrou do almoço, que deve estar com bastante caldo, deixa-se ferver bem, corrige-se o sal, acrescenta-se pimenta do reino e por último a farinha, em quantidade suficiente para fazer uma coisa bem mais espessa que um tutu, mas não solta como o virado à paulista. No fim, com o fogo desligado (ou com a frigideira puxada para o lado mais frio da chapa, se o fogão é a lenha, como era em minha casa), o segredo do meu pai: abafa-se o virado com um pano de prato bem usado, já úmido e sujinho, por alguns minutos. Se abafar com tampa ou pano limpo não fica a mesma coisa.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Para o Tirpe


Entre meus quatro e sete anos de idade vivi na vila de uma serraria muito grande no interior do Paraná, num distrito chamado Saudade, à época pertencente ao município de Guarapuava, hoje ao de Turvo. Lá eu aprendi a ler, a dor, a finitude, a morte, e ainda lá comecei a desconfiar de que “um anjo torto, desses que vivem na sombra”, havia presidido meu nascimento. Nunca pertenci a nenhum outro lugar mais do que àquele e quando o deixei foi como se fosse para o exílio. Não é possível voltar para lá, pois há muito tempo, quando eu ainda era criança, tudo que havia ali foi como que varrido da face da Terra. Gosto de pensar que se me fosse dado escolher uma alucinação para a hora da morte, eu escolheria estar outra vez na cozinha espaçosa, olhando as vidraças embaçadas pelo ar quente, enquanto chiam os pinhões na chapa do fogão vermelho, ou na varanda, num sábado de aleluia, olhando a noite muito escura e constelada, sonhando com a surpresa da manhã de páscoa, ou ainda num dia qualquer de verão, simplesmente fruindo o frescor da casa grande e a doçura da madeira clara de que tudo ali era feito. É provável que eu volte a falar muito desse lugar e que venha a reconstruí-lo em desenhos, certamente alterado de sua realidade pela perspectiva de minha memória infantil. Hoje, porém, conto uma anedota simples daqueles tempos, atendendo um pedido de meu irmão numa postagem mais antiga.
Minha mãe tocava lá na Saudade um armazém bem típico do interiorzão, guarnecido de tudo um pouco do que os viventes daquele fim de mundo pudessem precisar, incluindo aí sua sabedoria de primeiros socorros. Além da numerosa gente da serraria vinham ali se abastecer todos os sitiantes do entorno. Entre os sitiantes havia uma família muito esquisita, de quem se dizia ser, todos, inclusive crianças e cavalos, bêbados irrecuperáveis. Eu os achava uma gente deplorável, suja e desgrenhada, e ficava francamente assustada quando dava com a carroça de Tirpe e Glória, era assim que se chamava o casal, atrelada na frente do armazém. Meu irmão, incapaz de perder uma oportunidade de me atormentar, não tardou a perceber minha repugnância e passou a me chamar desde então de Glória, depois “Grória”, forma que rendia um chilique maior da minha parte. O que mais me indignava era que se eu o chamasse de Tirpe, para retribuir a ofensa, isso não produzia efeito esperado, e mais ele ria e se comprazia em me chamar de “Grória”, como chama até hoje. Aliás, passados quase cinqüenta anos disso, quase não me lembro de tê-lo ouvido me chamar por meu nome verdadeiro.
Na foto acima, O Tirpe e a Glória, ele com cinco, eu com um ano de idade.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Notas de uma cozinheira para um filósofo glutão e preguiçoso 4


Quando o filósofo esteve pela primeira vez em Minas Gerais, por conta de uma excursão da escola às cidades históricas, voltou com a seguinte sentença: “lá em Minas, qualquer boteco furrepa de beira de estrada faz uma comida igual à sua”. Isto era para ser um desaforo, mas os amantes da comida caipira (quase todo mundo, imagino), hão de concordar comigo que eu não poderia ter recebido elogio maior. Não existe comida - no mundo, arrisco dizer - mais gostosa do que a mineira, mineira de verdade, feita em Minas por mineiros, não a que se diz mineira por conta de uns tutus, leitões e farofas. Só os mineiros têm o segredo e arrancar um segredo de um mineiro está fora de questão, como todo mundo sabe. Um mineiro é capaz de desconversar mesmo quando você lhe faz a mais inocente das perguntas, tal como “quer o seu café com açúcar ou adoçante?”; imagine se você lhe pede uma receita! Em meus muitos momentos de delírio até já planejei me infiltrar em Minas como empregada doméstica, ou, melhor, como ajudante de cozinha numa pensãozinha barata, a ver se flagro a alquimia deles; seu eu fosse muitos anos mais jovem e com a cabeça que a maturidade me deu, era bem capaz de eu fazer isso mesmo. Felizmente tenho uma mente investigativa e já tive umas ajudantes mineiras que em momentos de distração acabaram por deixar escapar algumas dicas, que eu, que não sou mineira e acho que quanto mais gente feliz no mundo melhor, conto para quem quiser saber. Lá vai a primeira, e quiçá a mais importante:

Um bom feijão (de preferência o mulatinho ou o rosinha, mas pode ser o carioquinha ou qualquer outro) tempera-se só com alho e sal; a cebola, que vai bem nos tutus, eu não recomendo. A gordura ideal para se refogar o tempero é mesmo a banha de porco (não precisa ser muita), mas, para quem não a tolera ou está por algum motivo impedido de consumi-la, o óleo de soja vai bem. Um cozinheiro de verdade não usa panela de pressão, mas, se não puder ser de outra forma, é preciso bastante cuidado para não acontecer de o feijão ficar partido e molengo. Estando cozido quase no ponto o feijão, procede-se da seguinte forma: soca-se o alho (mais ou menos 4 dentes dos grandes para cada meio quilo de feijão) com o sal; numa frigideira, leva-se a banha ou o óleo a esquentar bem, e refoga-se aí a paçoca de alho e sal. Ao deitar-se o tempero na gordura, esta deve chiar; isto faz uma enorme diferença. Cuide que não queime. Quando o alho estiver bem dourado, deite sobre ele uma concha de feijão com bastante caldo e misture bem, deixando ferver um pouquinho; se quiser, nessa etapa esmague os grãos que estão na frigideira para engrossar o caldo ( eu prefiro não fazer isso). Devolva tudo à panela de feijão e deixe cozinhar por mais uns dez minutos sem a tampa, para encorpar o caldo. Corrige-se o sal e acrescenta-se pimenta do reino, se necessário.

Em tempo: aquele avermelhadinho dos feijões mineiros, quando não é da própria qualidade do feijão,´consegue-se com extrato de tomate, um pouco só, coisa de uma colher de sopa, na etapa de cozimento dos grãos. Além de deixar a cor bonita, também encorpa o caldo e ajuda no tempero. Só não se pode abusar.