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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

"Balõezinhos [a propósito da necessidade de poesia]

Na feira livre do arrebaldezinho
Um homem loquaz apregoa balõezinhos de cor:
_ "O melhor divertimento para as crianças!"
Em redor dele há um ajuntamento de menininhos pobres,
Fitando com olhos muito redondos os grandes balõezinhos muito [redondos.

No entanto a feira burburinha.
Vão chegando as burguesinhas pobres,
E as criadas das burguesinhas ricas,
E mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza.

Nas bancas de peixe,
Nas barraquinhas de cereais,
Junto às cestas de hortaliças
O tostão é regateado com acrimônia.

Os meninos pobres não vêem as ervilhas tenras,
Os tomatinhos vermelhos,
Nem as frutas,
Nem nada.

Sente-se bem que para eles ali na feira os balõezinhos de
[cor são a única mercadoria útil e
verdadeiramente indispensável.

O vendedor infatigável apregoa:
_"O melhor divertimento para as crianças!"
E em torno do homem loquaz os menininhos pobres fazem
[um círculo inamovível de desejo e espanto."


Manuel Bandeira, In ESTRELA DA VIDA INTEIRA, Liv. José Olímpio Ed., Rio de Janeiro, 1980.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Das razões do nome deste blog 1

"Um dia, ao começar a escrever um livro didático sobre literatura, tive que dar uma definição da poesia e embatuquei.[...] No aperto me socorri de Schiller, em quem o crítico era tão grande quanto o poeta, e disse com ele: 'Poesia é a força que atua de maneira divina e inapreendida, além e acima da consciência'.

Sabeis o que é atuar de maneira divina? Confesso lisamente que não sei. Mas conheço da poesia, por experiência própria, essa maneira inapreendida de ação: nunca pude explicar, em muitos casos, a emoção que me assaltava ao ouvir ou ao ler certos versos, certas combinações de palavras. A propósito, vou contar-vos uma anedota. Havia na Avenida Marechal Floriano um hotel que se chamava Hotel Península Fernandes. Toda vez que eu passava por ali e via na tabuleta aquele nome Hotel Península Fernandes, sentia não sei que pequenino alvoroço, - alvoroço em suma de qualidade poética. E ficava intrigadíssimo. Por que aquele hotel se chamava Península Fernandes? Uma tarde meu primo Antônio Bandeira, igualmente invocado pelo estranho nome, não se conteve, subiu as escadas e foi falar ao proprietário, que era um português terra-a-terra e sem nenhuma fumaça de literatura.

- O sr. me desculpe a curiosidade, mas por que é que o seu hotel se chama Península Fernandes?

- Muito simples, respondeu o homem. F'rnandes porque é o meu nome, e P'nínsula porque é bonito!

O nome estava realmente explicado, mas a emoção poética não: atuava de maneira inapreendida.
É assim que muitos fatos de rua atuam sobre a nossa sensibilidade. Dois automóveis colidem, ou uma senhora desmaia, ou um homem é assassinado, ou uma estrangeira em trânsito para Buenos Aires desembarca na Praça Mauá em trajes pouco mais que menores: forma-se logo um ajuntamento e os que vão chegando e aderindo ao grupo e os que olham de longe não sabem ainda o que se passou. Paira no ar um certo tumulto emocional, criando uma como que atmosfera de poesia. Pois bem, o poeta suscita a mesma coisa, só que mediante apenas uma colisão de palavras.

Manuel Bandeira, In "DE POETAS E DE POESIA", Edições de Ouro Culturais, Rio de Janeiro, 1967.