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domingo, 15 de dezembro de 2013

"Momento num café

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta."

BANDEIRA,Manuel, Poesia completa e prosa [do livro Estrela da Manhã], Ed. Nova Aguilar S.A.,Rio de Janeiro, 1985

Os dois últimos versos deste belo poema são para mim um "ovo de Colombo". À matéria não é dado morrer, como se sabe; o que morre de fato é a alma, esse lugar de toda tribulação.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

e mais Bandeira

A VIRGEM MARIA

O Oficial do registro civil, o coletor de impostos, o mordomo da Santa Casa e o administrador do cemitério de São João Batista
Cavaram com enxadas
Com pás
Com as unhas
Com os dentes
Cavaram uma cova mais funda que o meu suspiro de renúncia
Depois me botaram lá dentro
E puseram por cima
As Tábuas da Lei

Mas de lá de dentro do fundo da treva do chão da cova
Eu ouvia a vozinha da Virgem Maria
Dizer que fazia sol lá fora
Dizer insistentemente
Que fazia sol lá fora.

Manuel Bandeira "In" POESIA COMPLETA E PROSA, Ed. Nova Aguilar, S.A., Rio, 1985.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Mais Bandeira


EPÍGRAFE [do livro CARNAVAL]

Ela entrou com embaraço, tentou sorrir, e perguntou tristemente
- se eu a reconhecia?

O aspecto carnavalesco lhe vinha menos do frangalho de fantasia que do seu ar de extrema penúria. Fez por parecer alegre. Mas o sorriso se lhe transmudou em ricto amargo. E os olhos ficaram baços, como duas poças de água suja... Então, para cortar o soluço que adivinhei subindo de sua garganta, puxei-a para ao pé de mim e, com doçura:

- Tu és a minha esperança de felicidade e cada dia que passa eu te quero mais, com perdida volúpia, com desesperação e angústia...


Manuel Bandeira "In" POESIA COMPLETA E PROSA, Ed. Nova Aguilar S.A., Rio, 1985

terça-feira, 30 de novembro de 2010

E tem sempre o enorme e aristocrático Manuel Bandeira


POEMA PARA SANTA ROSA

Pousa na minha a tua mão, protonotária.
O alexandrino, ainda que sem a cesura mediana, aborrece-me.
Depois, eu mesmo já escrevi: Pousa a mão na minha testa,
e Raimundo Correia: "Pousa aqui, etc."
É pouso demais. Basta Pouso Alto
Tão distante e tão presente. Como uma reminiscência da infância.

Pousa na minha a tua mão, protonotária.
Gosto de "protonotária".
Me lembra meu pai.
E pinta bem a quem eu quero.
Sei que ela vai perguntar: - O que é protonotária?
Responderei:
- Protonotário é o dignitário da Cúria Romana que expede, nas grandes causas, os atos que os simples notários apostólicos expedem nas pequenas.
E ela: - Será o Benedito?
- Meu bem, minha ternura é um fato, mas não gosta de se mostrar:
É dentuça e dissimulada.
Santa Rosa me compreende.

Pousa na minha a tua mão, protonotária.


MANUEL BANDEIRA, "In" POESIA COMPLETA E PROSA, Ed. Nova Aguilas S.A., RJ, 1985