
Implico demais com uns maneirismos modernos, como não usar maiúsculas, não pontuar, pontuar de forma “inusitada”, e coisinhas do gênero. Penso que na literatura qualquer transgressão das regras formais que não tenha função muito objetiva é absolutamente dispensável. Por isso, da primeira vez que tentei ler Saramago, não me recordo o que era, joguei longe o livro logo nas primeiras páginas. Mas alguns meses atrás dei com esse “Caim” e fiquei francamente encorajada com sua primeira e evidente virtude: é curto. Ora, Caim é de saída e desde sempre grande personagem, provavelmente o mais emblemático da condição humana, distinguido pelo arbítrio divino com aquela marca que é ao mesmo tempo desonra e privilégio. Pois Saramago, distinguido ele próprio com a marca do humor e da inteligência (que na verdade são amantes inseparáveis), e inconformado com a “existência” do Deus arbitrário, vaidoso, cruel e caprichoso do Antigo Testamento, toma pela mão esse Caim abandonado a seu destino e o conduz de forma admirável a um surpreendente e catártico desfecho da “História”.
Preciso urgentemente ler Saramago, principalmente o “Evangelho segundo Jesus Cristo”. Mas que ele bem podia usar o ponto de interrogação, lá isso podia.
