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terça-feira, 12 de julho de 2011

O umbigo do mundo



Esta foto, feita no momento do vôo do Janjão, me valeu a seguinte reprimenda:
"- Mãe, você fotografou a lua sem mim?!?"

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Deus às vezes é pai

Anos atrás, num pleito em que concorriam ao governo do estado de São Paulo os candidatos Mário Covas e Paulo Maluf*, eu era a primeira de uma longa e empacada fila de eleitores numa seção eleitoral aqui de Barão Geraldo. Vindos do reservado da urna eletrônica ouviam-se uns “ai meu Deus, como é que é isso?, o que é que eu faço agora?”. Os mesários, do lado de fora, evidentemente, com a maior boa vontade tentavam orientar a eleitora dentro dos conformes da lei: “ a senhora precisa digitar o número do seu candidato... vão aparecer o nome e a fotografia dele... é ele mesmo?... se for a senhora confirma na tecla verde, senão a senhora cancela na tecla vermelha e começa tudo de novo... faz com calma que a gente não está com pressa”. Ao cabo de alguns minutos ouviu-se com alívio o sinal de votação encerrada, após o que a mulher aparece, em pânico, querendo por toda lei refazer o voto, porque tinha votado no candidato errado. “Mas minha senhora, isso não é possível, a senhora confirmou o voto, não dá para modificar agora”, dizia a presidenta da mesa. “Mas tem que ter como modificar, eu não queria de jeito nenhum votar no Covas e acabei votando justo nele”, implorava a mulher. E a mesária, para encerrar de vez o assunto: “minha senhora, nem que a gente quisesse, não é possível modificar voto confirmado. A senhora faz o seguinte: vai pra casa, toma uma água com açúcar, põe a sua cabeça tranqüila no travesseiro e entrega na mão de Deus, que Deus sabe o que faz.

* para quem não conhece, Paulo Maluf é um tradicionalíssimo político paulista que se vangloria de não se conseguir provar nenhum dos crimes de corrupção de que volta e meia é acusado.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

como quase matei um amigo engasgado de tanto rir

Não há nada mais engraçado do que uma piada involuntária. Há muitos e muitos anos, estava eu na fila de espera dos elevadores do edifício Jaime Canet, em Curitiba, onde então trabalhava, quando notei à minha frente uma colega de outro departamento, alguns andares acima do meu, com quem na verdade eu jamais tinha antes conversado. Mas eu sabia que ela voltava de uma licença maternidade e, depois do breve cumprimento de sempre, achei por bem fazer as perguntas de praxe: foi tudo bem?, como é que está o neném?, etc. e tal... Ela prontamente sacou da bolsa e me passou um álbum de fotos para que eu soubesse de tudo com meus próprios olhos. Alguns segundos depois o elevador chegou, entramos todos, e eu inadvertidamente comecei a folhear o álbum, sentindo vários pares de olhos por sobre o meu ombro, não sei se constrangidos como eu, ao ver a sucessão de fotos da moça nua, completamente pelada, com o filhinho mamando, o filhinho arrotando, o filhinho dormindo, etc. Eu achei a coisa de extremo mau gosto e fiquei aliviada quando o elevador parou no meu andar e me livrei daquilo. Fui correndo contar o episódio estúrdio ao meu bom, engraçado e espirituosíssimo amigo Sérgio Ijaile que – vim a descobrir depois – não ia nem um pouco com a cara dessa moça. Ao final do meu relato, que ouviu o tempo todo com um ligeiro ar de quem cheira peido, ele perguntou:
- e a bazófia dela, também aparecia na foto?
Eu, que até então nunca tinha ouvido essa palavra, bazófia, não tive entretanto qualquer dúvida quanto ao seu significado, e prontamente respondi:
- Não, também não chegou a tanto, o neném estava acomodado justamente em cima da “bazófia”.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Estranhamento poético (em série)

Há muitos anos já, saindo para levar dois de meus filhos ainda bem pequenos para a escola, fui surpreendida por um nevoeiro tão espesso que mal se podia perceber qualquer coisa poucos metros à frente do carro. A situação evocou-me a imagem de uma outra, vivida muito tempo antes, com tal força que eu falei aos meninos de repente, sem nenhum preâmbulo: “Uma vez, numa manhãzinha assim de muita névoa, num lugar chamado Balsa do Cantú, eu vi amamentarem dois filhotes órfãos: um bezerro e um cabritinho”. Após alguns segundos de silêncio cavernoso, o menino mais velho disse: “como era mesmo, mãe, o nome desse lugar?” E em seguida o menorzinho: “ah, mãe, confessa, isso não é verdade, é poesia!”

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Beijo no asfalto

Ontem, parada no semáforo de uma avenida movimentada aqui em Campinas, presenciei uma cena incomum e delicada: quando o sinal fechava, um pobre-diabo postava-se na frente dos carros fazendo uns malabarismos bem mambembes; ao fim da exibição, demasiadamente rápida - penso que mais pela imperícia do artista do que pela iminência de abertura do semáforo - ele tirava da cabeça um gorro surrado de papai Noel e ia até os carros ver se descolava algum agrado pela performance. Em meu carro, no banco do passageiro, eu, muito generosa, aguardava minha vez de colaborar já com umas moedas na mão, observando o homem dirigir-se ao motorista do carro parado à minha frente na pista da direita; depois de trocarem rápidas palavras, vi que ele se inclinou até a altura da janela, enquanto o motorista, na verdade uma motorista, muito jovem e louçã, espichou-se um pouco para fora e delicadamente beijou-o no rosto, após o que ele voltou-se e veio em minha direção. Pensei, apreensiva, que aquilo fizesse parte de uma performance interativa, tão comum nos dias de hoje, e que também eu teria que beijá-lo. Enganei-me: o homem, com ar de quem levita, aceitou distraidamente minhas moedas, enquanto me confidenciava, entre surpreso e maroto: -“ganhei um beijo!”

domingo, 27 de dezembro de 2009

Testemunhas de Jeová

Aqui no meu bairro aparece com certa freqüência um pessoal das Testemunhas de Jeová, firmemente imbuído da missão de “explicar” as palavras do livro sagrado aos infiéis de todos os credos e ateus como eu. Em geral uso de um expediente bastante eficaz para me livrar dessas conversas: se desconfio que é alguém deles no portão, apareço meio esbaforida, com um avental muito surrado, um pano branco na cabeça à maneira das polacas da minha terra em outros tempos e outro pano nas mãos, como se as limpasse (na verdade estou sempre meio assim); se a conversa ameaça ir longe vou logo me desculpando, “que estou com as panelas no fogo”. Há dias porém em que amanheço enternecida com todas as criaturas do mundo, ou, como é mais comum, sentindo-me extremamente culpada pelo que fiz, pelo que não fiz, pelo que ainda vou e não vou fazer, de modo que me submeto ao trololó, ou como exercício de boa vontade, ou como penitência pelo meu interminável cordão de pecados.
Estava eu num desses dias de excepcional paciência ouvindo uma conversa comprida no portão, enquanto à minha volta brincava pulandinho o meu pagãozinho mais novo, à época com uns cinco anos de idade e que até então não tinha o menor conhecimento das coisas de religião. De repente o homem inventa de se dirigir ao menino: “Joãozinho, você já reparou quanta flor bonita tem no seu jardim, e de que cores tão variadas? Você sabe me dizer quem foi que fez tudo isso, Joãozinho? Esse meu filho, que desde neném é bastante retórico e aprecia muito uma “cena”, faz uma carinha de quem perscruta os céus e responde: “Bem... seriam... os deuses?”. O homem, que afinal de contas era até boa gente, replica: “ O maior de todos, Joãozinho, você sabe me dizer qual é o maior de todos?” E o menino, saltitante, com o indicador para cima, impaciente para responder: “ Sei, sei, eu sei, é Zeus!

domingo, 6 de dezembro de 2009

Absolutamente correto

Imagino que eu jamais vá conhecer outro caso tão exemplar de "não racismo" como o de meu filho mais velho. Em criança, quando por algum motivo queria se referir a um negro entre vários brancos, ele dizia, por exemplo, "aquele de roupa assim, boné de tal jeito, fazendo tal gesto, conversando com o fulano, etc.", quando seria mais certeiro se dissesse simplesmente "o negro". Era evidente que não se tratava nem de malícia de má consciência nem de receio do patrulhamento do chatíssimo politicamente correto dos dias de hoje, pois ele era ainda muito pequeno para tais coisas. Aprendi logo que a cor da pele era irrelevante para ele, mais que isso, algo que era absolutamente incapaz de notar. É claro que esse estado de pureza não podia durar para sempre, e, embora ele tenha permanecido sem nenhum preconceito, com o tempo foi aprendendo a perceber a diferença de cor, pelo menos quando não está distraído. Pois um dia eu estava assistindo a um filme, não me lembro qual, em que um ator negro, indiscutivelmente negro, fazia um papel qualquer, quando esse meu filho, praticamente adulto, chegou na sala. Depois de um bom tempo observando pensativo a cena, ele me sai com a seguinte pergunta: "Vem cá, esse ator aí não é o mesmo que "faz um negro" naquele filme ... Amistad"?

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Imaginação infantil


Meu filho do meio, ainda bem pequeno, entretinha-se desenhando os bichinhos que eu lhe sugeria: "desenhe uma vaquinha", e ele fazia um rabisco parecido com a ilustração ao lado. "Agora desenhe uma lagarto", e ele prontamente fazia um rabisco quase igual ao primeiro. "Agora uma galinha", e lá vinha o mesmo rabisco. Ficamos um bom tempo nisso, eu a sugerir os bichos e ele a desenhar e a me mostrar com uma carinha triunfante o rabisco igual a todos os outros. Lá pelas tantas, eu lhe pedi que fizesse um coelhinho, ao que prontamente ele respondeu:
- Aah...coelhinho eu não sei fazer!