Fiódor Dostoiévski, in "Memórias da casa dos mortos"
segunda-feira, 30 de março de 2026
lições da casa dos mortos
quarta-feira, 28 de agosto de 2024
quinta-feira, 8 de agosto de 2024
terça-feira, 23 de julho de 2024
domingo, 21 de julho de 2024
domingo, 23 de junho de 2024
terça-feira, 11 de junho de 2024
do meu anedotário de maluca
Quando idealizei a miniatura do armazém que minha mãe teve durante algum tempo, há mais de sessenta anos, "no mato" do interior do Paraná, quis que ela fosse a mais fiel possível, tanto por dentro quanto por fora, ainda que, depois de acabada, não se possa mais ver seu interior, exceto pelo que aparecerá pelas vidraças e vãos das portas. O que se vê no canto em primeiro plano desta foto é um trecho do balcão com tampa de vidro (acrílico na miniatura), onde ficavam bijuterias, fitas, botões e outras peças de armarinho; no momento de fixá-lo ao chão e ao restante do balcão achei conveniente reforçá-lo com essas laterais triangulares que não havia no original. Depois disso pronto passei a ficar terrivelmente incomodada com a ideia de que minha mãe, ao acessar essa parte do balcão, ficasse obrigada a transpor a lateral e eventualmente tropeçasse nela. Fui dormir pensando que no dia seguinte trataria de serrá-la, com muito cuidado para não estragar o que já tinha me dado tanto trabalho. No dia seguinte, a sensação de desconforto tinha desaparecido por completo e passei a achar a solução das laterais não só funcional, mas também estética. Gosto de pensar que minha mãe me visitou durante o sono para dizer que assim estava bom, que não me preocupasse, que ela tomaria bastante cuidado.
segunda-feira, 10 de junho de 2024
quarta-feira, 22 de maio de 2024
sábado, 2 de março de 2024
Joseph Roth
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024
segunda-feira, 25 de dezembro de 2023
domingo, 29 de outubro de 2023
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023
das pequenas coincidências e dos finais felizes
No dia em que completava dezoito anos, ao abrir a geladeira da adega aonde fora apanhar mais bebida para a festa que rolava no andar superior, uma pequena corrente elétrica coincidiu com uma pequena e até então desconhecida disfunção de seu músculo cardíaco. Quando a encontraram, desfalecida, o tio, que coincidentemente era médico e lá estava justo para a comemoração do aniversário, empenhou toda a sua ciência e sua ternura para reanimá-la. Mas, era já tarde demais e o vasto porvir congelou-se para ela em estado de infinitas possibilidades, restando o coração impoluto, todas as ilusões preservadas.
sábado, 28 de janeiro de 2023
uma irmã
Laços de sangue não garantem parentesco espiritual, é sabido; irmãos podem ser e frequentemente são tão diferentes entre si quanto são de completos estranhos, ainda que a ascendência comum e a convivência na infância e juventude determinem relações de grande afeto. Dos meus quatro irmãos (um irmão e três irmãs) posso dizer que fosse mais aparentada de uma das irmãs, morta há muito tempo, ela então com 34 anos e eu com 20, de modo que não tivemos muita oportunidade de desfrutar da proximidade de nossos pontos de observação do mundo, mesmo porque ela já tinha aprendido quase tudo e comido o pão que o diabo amassou, enquanto eu era ainda uma completa idiota.
Por outro lado, é fascinante que se possa conhecer na literatura gente - real ou ficcional - tão parecida com a gente mesma. Minha primeira experiência desse tipo deu-se quando conheci Paulo Honório, o coronel assassino personagem do romance São Bernardo; identifiquei-me de cara com essa criatura e desenvolvi por ela o que por mim mesma era uma mistura de nojo e forte comiseração. Mais tarde, quando li Infância e Memórias do Cárcere, concluí que eu e Paulo Honório tínhamos um terceiro irmão bastante afinado, o criador mesmo, Graciliano.
Das minhas experiências de conhecer irmãos pela literatura, nada se comparou até agora à que tive quando li, muito recentemente, "As pequenas virtudes" da Natália Ginzburg: deu-me vontade de sair mostrando às pessoas na rua: "olha só, podia ser minha avó, viveu e morreu do outro lado do mundo, mas é minha irmã, verdadeiramente minha irmã, e de algum ponto do universo segue falando comigo".
quarta-feira, 25 de janeiro de 2023
sábado, 5 de novembro de 2022
domingo, 30 de outubro de 2022
"Amar"
"Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?,
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita."
Carlos Drummond de Andrade
sábado, 14 de maio de 2022
"a guerra não tem rosto de mulher"
"Antes, achava que sobreviver ao sofrimento deixava uma pessoa mais livre, que ela pertencia então apenas a si mesma. Que sua própria memória a defendia. Naquele momento estava descobrindo que não, nem sempre. Muitas vezes esse conhecimento, e até um conhecimento superior (que não acontece na vida costumeira), existe separadamente, como uma reserva intangível ou como poeira de ouro em uma mina de várias camadas. É preciso passar muito tempo limpando uma rocha vazia, revirar juntos o vazio do cotidiano, para enfim uma coisa brilhar! Oferecer-nos um presente!"
Svetlana Aleksiévitch, (tradução do russo por Cecília Rosas) em "a guerra não tem rosto de mulher" (pg. 120)







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