quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Caim



Implico demais com uns maneirismos modernos, como não usar maiúsculas, não pontuar, pontuar de forma “inusitada”, e coisinhas do gênero. Penso que na literatura qualquer transgressão das regras formais que não tenha função muito objetiva é absolutamente dispensável. Por isso, da primeira vez que tentei ler Saramago, não me recordo o que era, joguei longe o livro logo nas primeiras páginas. Mas alguns meses atrás dei com esse “Caim” e fiquei francamente encorajada com sua primeira e evidente virtude: é curto. Ora, Caim é de saída e desde sempre grande personagem, provavelmente o mais emblemático da condição humana, distinguido pelo arbítrio divino com aquela marca que é ao mesmo tempo desonra e privilégio. Pois Saramago, distinguido ele próprio com a marca do humor e da inteligência (que na verdade são amantes inseparáveis), e inconformado com a “existência” do Deus arbitrário, vaidoso, cruel e caprichoso do Antigo Testamento, toma pela mão esse Caim abandonado a seu destino e o conduz de forma admirável a um surpreendente e catártico desfecho da “História”.
Preciso urgentemente ler Saramago, principalmente o “Evangelho segundo Jesus Cristo”. Mas que ele bem podia usar o ponto de interrogação, lá isso podia.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

mais da manhã



a Naná também é linda




Esta criaturinha tristonha chama-se Naná e é a última representante viva da linhagem da Olívia. Tem treze anos e já está com a saúde bastante prejudicada e ligeiramente gagá. Essa melancolia não sei a que se deve, mas pensamos que talvez seja por ter sido duas vezes doada quando filhote (tivemos muitas e numerosas ninhadas da Olívia e de suas descendentes, e costumávamos doar os filhotes, claro); nas duas vezes ela foi devolvida, porque se recusava a viver longe de nós. Quando jovem era valente e atrevida, mas agora passa quase todo o tempo descansando pelos cantos. Às vezes, num arroubo que lhe custa quase um desmaio, ela corre ao portão para latir uns desaforos a algum desafeto que passa.

quase um gato, eu diria





se não fosse o olhar apaixonado que ela tem para o poeta.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

almas gêmeas




O Munir, amigo do meu filho Pedro, acho que nem tem muita familiaridade com cachorros, mas a julgar pelo assédio e pelos ganidos de felicidade da princesa Karina desde a primeira vez em que o viu, imagino que devam se conhecer desde sempre.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Anthony Hopkins reads Dylan Thomas



Olha só que interpretação limpa! Sem nenhuma gordura, nenhum "resto de janta abaianada". Todo o trágico está nos olhos.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

"O Cemitério"*

[Imagem de "Markinho"]

"Era uma agradável tarde de Agosto, O Lago Löven parecia um espelho, as montanhas estavam como que envolvidas numa neblina de calor, e a frescura da noite estava a chegar.

Apareceu Beerencreutz, o coronel de bigode branco, baixo e forte como um urso, com o baralho de cartas no bolso de trás, dirigindo-se à margem do lago, onde tomou lugar num bote de fundo chato. Acompanhavam-no o major Anders Fuchs, o seu velho irmão de armas, e o pequeno Ruster, o flautista e tambor de regimento dos caçadores de Varmländ, que durante muitos anos o tinha acompanhado como amigo e criado.

Na outra margem do lago encontra-se o cemitério, o mal cuidado cemitério da freguesia de Svartsjö. Com poucas campas e cruzes de ferro que fazem ruído ao vento, está cheio de erva, como um campo nunca lavrado e coberto de junca e a erva crescia em variedade, a lembrar que nenhuma vida humana é totalmente igual à outra mas cada uma diferente como as folhas da erva. Aqui não há carreiros com areia nem árvores que oferecem sombra, além da grande tília na campa esquecida dum velho padre. O muro de pedra encerra, alto e carrancudo, o campo. O cemitério é pobre e desolador, feio como a cara dum avarento, murcho sob os lamentos das pessoas a quem ele roubou a felicidade. Mas mesmo assim os que lá repousam são felizes, porque foram enterrados em terra abençoada com hinos e orações. Acquilon, o jogador, que morreu no ano passado em Ekeby, teve de ser enterrado fora do muro. Esse homem, outrora tão orgulhoso e cavalheiresco; um valente guerreiro, destemido caçador e jogador sortudo, acabou por destruir a herança dos seus filhos, tudo o que tinha adquirido, tudo o que sua mulher tinha cuidado. Abandonara a mulher e os filhos para ir viver a vida de cavalheiro em Ekeby. Uma tarde, no Verão passado, jogou a quinta, que era o sustento da família. Em vez de pagar a sua dívida, pôs termo à sua própria vida com um tiro. E o corpo do suicida foi enterrado fora do muro com musgo do cemitério.

Desde a morte dele os cavalheiros eram só doze. Desde aquela morte, ninguém viera para tomar o lugar do décimo terceiro cavalheiro, a não ser o Diabo, que apareceu na Noite Santa, saindo do alto-forno.

Os cavalheiros acharam o seu destino mais amargo que o dos seus antecessores. Bem sabiam que um deles tinha de morrer todos os anos. E que mal tinha isso? Os cavalheiros não devem ser velhos. Quando os seus olhos cegos não mais conseguem distinguir as cartas de jogo nem as suas mãos trémulas levantar o copo, que interesse tem a vida e o que são eles para a vida? Mas repousar como um cão junto ao muro do cemitério, onde a terra que os cobre não pode repousar em paz, sendo pisada por carneiros que pastam, ou ferida por pás e arados, onde o caminhante passa sem abrandar o seu passo, e as crianças brincam sem moderar as gargalhadas – mas repousar, ali, onde o muro de pedras impede que se ouça a trombeta do anjo que acordará os mortos do Dia de Juízo Final! Não, esse não é um bom lugar para repousar. Oh, que bom seria poder repousar lá dentro!

Agora Beerencreutz atravessa o lago Löven no seu bote. Passa esta tarde pelo lago dos meus sonhos, à volta de cujas margens vi deuses passearem e vi meu castelo mágico surgir da profundidade. Ele passa pelas lagunas da ilha Lag, onde os abetos surgem direitinhos da água, crescendo em bancos de areia baixos e circulares, e onde as ruínas do castelo do pirata ainda se vêem no pico íngreme da ilha. Passa debaixo do parque de abetos no promontório de Borg, onde o velho pinheiro com raízes grossas ainda pende sobre o barranco, onde uma vez apanharam um enorme urso, e onde os velhos montes de pedra e túmulos demonstram a idade do lugar.

Contorna o promontório, sai do barco junto ao cemitério e passa por campos ceifados, que pertencem ao conde de Borg, até chegar à campa de Acquilon.

Uma vez lá chegado, abaixa-se e dá uma palmadinha na relva da mesma maneira que afagamos o cobertor que tapa um amigo doente. Em seguida, tira do bolso o baralho de Kille e senta-se junto à campa.

“Ele está muito só aqui, o nosso Johan Fredrik. Deve ter saudades de uma partida.”

“É uma vergonha que um homem como ele tenha de ficar cá fora”, diz o grande caçador de ursos Anders Fuchs, e senta-se ao seu lado.

Mas o pequeno Ruster, o flautista, fala de voz comovida, enquanto as lágrimas correm dos seus pequenos olhos injectados de sangue.

“A seguir ao senhor coronel, ele era o homem mais elegante que alguma vez conheci.”

Este três distintos homens estão, agora, sentados à volta da campa, e dão as cartas com seriedade e zelo.

Olhando para o mundo, vejo muitas campas. Acolá repousa um homem poderoso, coberto de mármore. A marcha fúnebre retumba sobre ele. Bandeiras são baixadas sobre a campa. Vejo campas de pessoas muito amadas. Flores, regadas com lágrimas, afagadas de beijos, repousam levemente nos verdes relvados. Vejo campas esquecidas, campas presunçosas, lugares de repouso que mentem e outros que não dizem nada. Mas nunca antes vi um valete vestido de xadrez branco e preto, e um Jocker, com um guizo no gorro, a serem oferecidos ao habitante de uma campa para o seu prazer.

“Foi Johan Fredrik quem ganhou”, diz o coronel com orgulho. “Bem sabia! Eu ensinei-lhe o jogo. Pois, agora estamos todos mortos, nós três, e só ele está vivo.”

Recolhe as cartas, levanta-se e volta com os outros para Ekeby.

Suponho que o morto deve ter sabido, e sentido, que nem ele nem a sua campa estavam esquecidos por todos. Os corações indisciplinados prestam homenagem estranha àqueles que amam, mas os que estão fora do muro, aqueles cujos restos mortais não podem repousar em terra santa, bem que podem ficar felizes porque nem todos os rejeitam.

Amigos, quando morrer repousarei, com certeza, no centro do cemitério, no jazigo dos meus antepassados. É verdade que não tirei o sustento à minha família, nem atentei contra a minha própria vida, mas também é certo que não mereci, nem ganhei, nem conquistei um tal amor. E, também, estou segura, ninguém fará tanto por mim como os cavalheiros fizeram por este criminoso. Com certeza ninguém chegará, ao pôr do Sol, quando o território dos mortos fica solitário e triste, para colocar cartas garridas entre os meus esqueléticos dedos.

Também não virão, o que mais apreciaria, já que as cartas exercem pouca atracção sobre mim, com violino e arco até à minha campa, para que a minha alma, que divaga à volta dos restos mortais, possa flutuar na corrente dos tons, como um cisne em ondas cintilantes.”

*SELMA LAGERLÖF, In A Saga de Gösta Berling, Cavalo de Ferro Editores, Lisboa, 2007

Che puro ciel! [da ópera Orfeu e Eurídice, de Gluck]

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

as que já foram


"A mulher e seu passado"*


"Ela conta a história de uma freira que a atormentava no internato, em seu tempo de menina; de um homem que a fez viver longamente entre o desespero e o tédio, a revolta e a humilhação. E fica meio magoada porque a tudo eu sorrio, porque eu não pareço participar do sentimento com que ela fala contra essa gente que passou. Afinal ela também sorri: “Você é meu amigo ou amigo da onça?”

Sou seu amigo. Mas rico ri à toa, e eu me sinto vertiginosamente rico porque essas histórias, alegres ou tristes, ela me conta de mãos dadas, junto de mim. Digo-lhe isso; mas não confesso que aprovo e abençôo todas as coisas e pessoas que povoaram seu passado, e tenho vontade de dizer:

“Benditos teu pai e tua mãe; benditos os que te amaram e os que te maltrataram; bendito o artista que te adorou e te possuiu, e o pintor que te pintou nua, e o bêbedo de rua que te assustou, e o mendigo que te disse uma palavra obscena; bendita a amiga que te salvou e bendita a amiga que te traiu; e o amigo de teu pai que te fitava com concupiscência quando ainda eras menina; e a corrente do mar que te ia arrastando; e o cão que uivava a noite inteira e não te deixou dormir; e o pássaro que amanheceu cantando em tua janela; e a insensata atriz inglesa que de repente te beijou na boca; e o desconhecido que passou em um trem e te acenou adeus; e teu medo e teu remorso a primeira vez que traíste alguém; e a volúpia com que o fizeste; e a firme determinação, e o cinismo tranqüilo, e o tédio; e a mulher anônima que te vociferou insultos pelo telefone; e a conquista de ti por ti mesma; e os intrigantes do bairro que tentaram te envolver em suas teias escuras; e a porta que se abriu de repente sobre o mar; e a velhinha de preto que ao te ver passar disse: “moça linda...”; bendita a chuva que tombou de súbito em teu caminho, e bendito o raio que fez saltar teu cavalo, e o mormaço que te fez inquieta e aborrecida, e a lua que te surpreendeu nos braços de um homem escuro entre as grandes árvores azuis. Bendito seja todo o teu passado, porque ele te fez como tu és e te trouxe até mim. Bendita sejas tu.”

*Rubem Brada, In 200 Crônicas Escolhidas, Record, Rio de Janeiro, 1978