Foi com enjôo e desgosto que o engenheiro oito interrompeu o que fazia e foi para a sala do engenheiro chefe. Não devia se tratar de assunto de trabalho: disso o chefe se desincumbia a toque de caixa, de passagem pela sala dos engenheiros, ou, se o caso exigisse, com a equipe reunida na enorme mesa da sala contígua. No gabinete da chefia a conversa costumava ser de outra natureza, em especial se precedida de chamado solene da secretária; ali, aquele homenzinho gostava de exercitar sua política de boas relações, que consistia em bajular o interlocutor e insinuar vagas maldades sobre a reputação e a competência dos outros, com muita sutileza, é claro, de modo que nenhum comentário seu pudesse ser reproduzido fora dali, indispondo-o com os outros engenheiros.
Indispor-se com qualquer dos engenheiros era coisa que o chefe evitava a todo custo, pois bastava uma ligeira turbulência na diretoria e todas as chefias abaixo dela rearranjavam-se conforme critérios insondáveis, de forma que quem num dia desfrutasse da privacidade do gabinete do chefe podia na manhã seguinte ocupar uma das inúmeras mesas da sala comum dos engenheiros ou ir desempenhar suas funções em outro departamento, ou no campo, ou alhures. E, como qualquer dos engenheiros estava apto a fazer o percurso inverso, tão importante quanto evitar que isso acontecesse era fazer com que cada um pensasse merecer sua amizade e especial consideração. Desnecessário dizer que o restante dos funcionários não tinha o mesmo tratamento; quanto mais baixa a posição hierárquica, menor a atenção dispensada pelo engenheiro chefe, de modo que quem ocupava as regiões mais sombrias do organograma, os pequenos funcionários da administração, os peões de obra, só podiam ouvir dele uma ordem ríspida ou uma descompostura grosseira, porque “essa gente, se você trata bem, não te respeita”. Isso excepcionalmente; de ordinário ele não lhes dirigia a palavra.
Pois lá estava o engenheiro oito, acomodado numa das poltronas que ficavam em frente à mesa do engenheiro chefe, esperando ouvir a arenga da vez com paciência estóica e redobrada atenção, porque o homem era especialmente hábil em colocar palavras na boca do interlocutor. Lá estava ele, meio nauseado, observando os olhos baços do chefe vagarem pelas linhas entre as paredes e o teto, pelas colunas das estantes, pelos objetos dispostos em rigorosa ordem sobre a mesa, como se procurassem as palavras precisas para dizer algo de extrema importância, e justo quando aquelas duas poças de água turva encontram o seu próprio olhar, e enfim a coisa começa, o engenheiro oito ouve abrir-se atrás de si a porta do gabinete, e uma voz de mulher que diz: “com licença, doutor...”. E ao ver o olhar do chefe voltar-se na direção da voz ele tem a súbita sensação de que algo estranho está acontecendo, e ele mesmo se volta e vê entrar a mulher vestida com o uniforme azul dos “Serviços Gerais”, acompanhada de uma outra mulher.
De fato era estranho, porque essa gente os “Serviços Gerais” não costumava pedir licença para entrar nos escritórios. Podiam chegar a qualquer hora do dia para executar um reparo, trocar uma lâmpada, servir o café, recolher o lixo,etc.. Era quase como se fizessem parte do mobiliário, do equipamento, e ninguém se incomodava com a presença deles, nem mesmo quando era preciso interromper uma discussão importante devido à barulheira que faziam com copos e xícaras, por exemplo. Tinham, em geral, mas as mulheres especialmente, os olhos postos no chão ou nalgum ponto fugidio, e de ordinário não falavam nada; quando falavam, era o essencial, algo como “café ou chá?”, açúcar?, “gelo?”.
Mas, por algum motivo indecifrável, naquele dia uma mulher de uniforme azul abriu a porta do gabinete da chefia, olhou nos olhos do chefe, e disse: “com licença, doutor, eu vim apresentar uma nova funcionária da limpeza, dona Rosália”. E isso era ainda mais estranho, pois ninguém jamais havia julgado necessário apresentar quem quer que fosse dos “Serviços Gerais”. Então o engenheiro oito começou a temer pela mulher de azul e pela outra, porque imaginou que o engenheiro chefe podia achar extremamente impertinente tal intromissão, e sobretudo porque aquela dona Rosália, funcionária nova, ainda sem o estigma do uniforme azul, era assim ainda mais lamentável, quase andrajosa, talvez um pouco descuidada do asseio de suas roupas puídas... Decerto aconteceu de a secretária ausentar-se no preciso momento em que as duas chegavam; do contrário ela teria percebido o incomum da situação e de alguma forma civilizada evitado que as pobres entrassem e se expusessem à grosseria, à crueldade de que o chefe era capaz com a gente humilde.
E porque a secretária não estava em seu posto naquele momento, como por um desses ínfimos acasos que precipitam os eventos do Universo a secretária se ausentasse naquele preciso momento, eis que agora a mulher de uniforme azul conduz uma andrajosa dona Rosália, funcionária nova da limpeza, ainda sem o uniforme azul a remediar-lhe a aparência lamentável, até o estupefato engenheiro chefe, sem suspeitar que a conduz e a si mesma para o desastre, a humilhação, como se já não lhes bastassem o desastre e a humilhação de existirem assim, de forma tão precária. E não há nada que o engenheiro oito possa fazer para salvá-las. De nada serve cerrar os dentes e contrair todos os músculos do corpo quando a mulher diz “este é doutor fulano, o engenheiro chefe”, e uma desavisada dona Rosália estende a mão maltratada para cumprimentá-lo, e inconcebível seria deixar escapar o grito que ecoa no cérebro: “não faça isso, dona Rosália, esse homem nunca vai lhe dar a mão!”. Que dona Rosália fique com a mão suspensa, humilhada, ainda não é nada; é certo que o chefe as escorrace do gabinete, primeiro por existirem em sua presença, depois por interromperem, sem qualquer motivo justificável, a conversa de dois engenheiros.
Ocorre que há dias em que tudo de estranho acontece. É com espanto que o engenheiro oito vê o chefe, talvez pego de surpresa, tocar frouxamente a mão grossa e curtida de dona Rosália, não sem que hesitasse, lhe parece. Aliviado, ligeiramente arfante da tensão do minuto anterior, quase chega a inclinar-se adiante para que quando ouça a mulher dizer “e este é doutor sicrano, o engenheiro oito”, ele prontamente aperte a mão escalavrada de dona Rosália, sem nenhuma hesitação, sem sombra de repugnância.
Mas a mulher de azul julga que já está bem cumprida a formalidade, e diz: “era isto, doutor, com licença”. E saem as duas, sem mais delongas, sob o olhar ainda estupefato do chefe, que enfim se refaz e passa da porta que se fecha às costas das mulheres para as linhas entre as paredes e o teto, daí às colunas das estantes, e se demora nos objetos dispostos em rigorosa ordem sobre a mesa, como a procurar a palavra justa que diga uma coisa extremamente importante.
aveloh
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Penélope
Minha irmã foi noiva longamente
que hoje borda e fia na janela,
penélope de próprio labirinto.
Eu mesmo na janela não diviso
senão a vaga espera, em gesto aéreo,
tecida apenas do desejo aflito
com que bordo seu noivo nos atrasos.
Não cabem nossos olhos nesta sala
tão grande, de paredes recuadas;
pois que se cruzem, se amem, se maltratem
com entender de si seus tempos vários.
Apanho teu novelo descuidado,
componho-o de novo, ao revés;
alcança-o teu colo, no bordado
de onde partiu e chega, já sem cor.
Teu noivo, nessa espera, longamente
não vem; o que te posso responder
(como profeta que olha à ré do corpo)
é que já não virá, em seu destino
entregue à solidão dos esperados.
E nós, nosso retrato se colore
daquele azul das horas cumuladas
com que à distância vemos, no bordado,
fio e agulha em linho descansando.
Teu corpo no caminho da janela
eternamente indo, e eu ficando.
Alcides Villaça, In Viagem de Trem, Ed. Duas Cidades, São Paulo, 1988
que hoje borda e fia na janela,
penélope de próprio labirinto.
Eu mesmo na janela não diviso
senão a vaga espera, em gesto aéreo,
tecida apenas do desejo aflito
com que bordo seu noivo nos atrasos.
Não cabem nossos olhos nesta sala
tão grande, de paredes recuadas;
pois que se cruzem, se amem, se maltratem
com entender de si seus tempos vários.
Apanho teu novelo descuidado,
componho-o de novo, ao revés;
alcança-o teu colo, no bordado
de onde partiu e chega, já sem cor.
Teu noivo, nessa espera, longamente
não vem; o que te posso responder
(como profeta que olha à ré do corpo)
é que já não virá, em seu destino
entregue à solidão dos esperados.
E nós, nosso retrato se colore
daquele azul das horas cumuladas
com que à distância vemos, no bordado,
fio e agulha em linho descansando.
Teu corpo no caminho da janela
eternamente indo, e eu ficando.
Alcides Villaça, In Viagem de Trem, Ed. Duas Cidades, São Paulo, 1988
domingo, 1 de novembro de 2009
Dia sem Deus
O menino devia ter uns sete, oito anos. Ficava num ponto estratégico do calçadão, entre um banco e uma pastelaria, de modo que passava o dia a recolher as sobras da clientela farta: uns trocados aqui, um finzinho de pastel já sem recheio ali, assim ia vivendo. Não vivia só de sobras, é preciso que se diga: tinhas as suas muitas vezes de pastel inteiro, quando um freguês se incomodava com o olhar de cãozinho e dizia ao pasteleiro que lhe desse um por sua conta. E também, em certas tardes, fechado o banco, contada e recontada a féria do dia, subtraída a importância razoável de se apresentar quando voltasse à noite para onde voltava, o menino decidia que era ocasião de banquete: entrava na pastelaria com passo firme e voz de quem paga: “um especial, um de banana com açúcar e canela por cima, bem quentinho, e uma coca-cola”.
E havia as brincadeiras, que ninguém é de ferro. É bem verdade que pouco se podia brincar ali: rodopiar no poste, catar coisinhas perdidas pelo chão, chutar tampinhas... bom mesmo era quando aparecia por lá o irmão mais velho, que tinha ponto ainda melhor, e podia se dar ao luxo de umas gazetas de vez em quando. Aí ficavam os dois um tempão no passatempo predileto: escolhiam entre as passantes a madame mais cheirosa, a de nariz mais empinado, e a acompanhavam, um de cada lado, iam reclamando com insistência os seus trocados. Em geral não se enganavam quanto à disposição da madame: gostavam de ouvi-la repetir “não tenho, não tenho”, enquanto apertava a bolsa e o passo, medrosa de que tivessem um canivete ou de que a tocassem com as mãos sujas. Ao fim de um quarteirão davam-se por satisfeitos, deixavam que se fosse a vítima lívida com os trocados intactos. Riam a valer, e de novo se punham a escolher a mais cheirosa, a mais empinada.
A boa samaritana, que por ali sempre passava, vinha já com as moedas separadas para o menino, ao que ele agradecia com uma piscadela e o polegar direito para cima; economizava-lhe assim a ladainha pedinte e os “Deus que ajude que nunca lhe falte” para os rabugentos . Se entrava na pastelaria, lá vinha o moleque saltitante e de cara limpa: “paga um pra mim, tia!”; pura formalidade, pois ela sempre se adiantava e já fazia seu pedido dobrado, coisa que incomodava demais o pasteleiro: “só hoje é o terceiro que ele come”. Se o surpreendia entretido em assustar as madames, aplicava-lhe na cabeça uns tapinhas, meio corretivos, meio cúmplices, e ele gargalhava de prazer menino.
Sucedeu que ela passasse por ali numa tarde de domingo, os pedestres rarefeitos, o calçadão assombrado de ecos, e visse de longe que o menino chorava. Por que havia de chorar esse menino? Não estaria doente ou machucado, que não era o choro da dor, que de dor choram igual todos os meninos. Contrariedade por estarem banco e pastelaria fechados? Ora, se essa gente, de pequena ainda, conhece tão bem os hábitos da cidade... Implicância da polícia, de outros meninos, do juizado de menores? Isso não. Do contrário, pernas para que te quero; esperto que era, ele não teria se abandonado a chorar ali, na soleira do banco, tão desprotegido e visível contra o imenso portal de madeira escura. Ofenderam-no, quem sabe? Mas a boa samaritana tinha para si que esse menino não se ofendia, e se às vezes o via fazer caretas de deboche e gestos obscenos aos que imprecavam contra a mendicância e a sujidade, sempre lhe pareceu que fosse por simples molecagem, nunca por indignação. Nem seria possível que chorasse de fome, porque esses meninos o primeiro que aprendem é como não se passa fome. E mesmo numa tarde esvaziada de domingo sempre haveria entre os que passavam quem lhe desse um resto de doce, uns trocados para um pão, por caridade ou desfastio, a ele que sabia olhares de cãozinho, e era miúdo e franzino, e que sabia todas as lamúrias de apiedar e aborrecer, pai morto, pai desempregado, pai sumido no mundo, mãe entrevada, mãe morta, irmãozinhos famintos, doentes, com frio... Mas ele nem se dava conta de quem passava. Deixava-se estar sentado na soleira do banco, quase ao rés do chão, as pernas meio dobradas contra o peito, e os braços que enlaçavam frouxamente as pernas...
Por que é que chorava esse menino? Que imprecasse, que mentisse, que roubasse, que tivesse um canivete, estava certo e justo, mas se esse menino chorava, assim, como esses meninos não choram, então se desmanchava a ordem precária do mundo, e o mundo era só uma rua de portas fechadas e um menino que se senta numa soleira, e se encolhe, e pousa o rosto nos joelhos, e soluça...
- Que foi?
E como ela o tocasse, e ele a olhasse e dissesse: “foi nada”, e se esquivasse, e ainda mais se encolhesse, ela o deixou, lívida, e desapareceu no domingo entre os demais que passavam.
aveloh
E havia as brincadeiras, que ninguém é de ferro. É bem verdade que pouco se podia brincar ali: rodopiar no poste, catar coisinhas perdidas pelo chão, chutar tampinhas... bom mesmo era quando aparecia por lá o irmão mais velho, que tinha ponto ainda melhor, e podia se dar ao luxo de umas gazetas de vez em quando. Aí ficavam os dois um tempão no passatempo predileto: escolhiam entre as passantes a madame mais cheirosa, a de nariz mais empinado, e a acompanhavam, um de cada lado, iam reclamando com insistência os seus trocados. Em geral não se enganavam quanto à disposição da madame: gostavam de ouvi-la repetir “não tenho, não tenho”, enquanto apertava a bolsa e o passo, medrosa de que tivessem um canivete ou de que a tocassem com as mãos sujas. Ao fim de um quarteirão davam-se por satisfeitos, deixavam que se fosse a vítima lívida com os trocados intactos. Riam a valer, e de novo se punham a escolher a mais cheirosa, a mais empinada.
A boa samaritana, que por ali sempre passava, vinha já com as moedas separadas para o menino, ao que ele agradecia com uma piscadela e o polegar direito para cima; economizava-lhe assim a ladainha pedinte e os “Deus que ajude que nunca lhe falte” para os rabugentos . Se entrava na pastelaria, lá vinha o moleque saltitante e de cara limpa: “paga um pra mim, tia!”; pura formalidade, pois ela sempre se adiantava e já fazia seu pedido dobrado, coisa que incomodava demais o pasteleiro: “só hoje é o terceiro que ele come”. Se o surpreendia entretido em assustar as madames, aplicava-lhe na cabeça uns tapinhas, meio corretivos, meio cúmplices, e ele gargalhava de prazer menino.
Sucedeu que ela passasse por ali numa tarde de domingo, os pedestres rarefeitos, o calçadão assombrado de ecos, e visse de longe que o menino chorava. Por que havia de chorar esse menino? Não estaria doente ou machucado, que não era o choro da dor, que de dor choram igual todos os meninos. Contrariedade por estarem banco e pastelaria fechados? Ora, se essa gente, de pequena ainda, conhece tão bem os hábitos da cidade... Implicância da polícia, de outros meninos, do juizado de menores? Isso não. Do contrário, pernas para que te quero; esperto que era, ele não teria se abandonado a chorar ali, na soleira do banco, tão desprotegido e visível contra o imenso portal de madeira escura. Ofenderam-no, quem sabe? Mas a boa samaritana tinha para si que esse menino não se ofendia, e se às vezes o via fazer caretas de deboche e gestos obscenos aos que imprecavam contra a mendicância e a sujidade, sempre lhe pareceu que fosse por simples molecagem, nunca por indignação. Nem seria possível que chorasse de fome, porque esses meninos o primeiro que aprendem é como não se passa fome. E mesmo numa tarde esvaziada de domingo sempre haveria entre os que passavam quem lhe desse um resto de doce, uns trocados para um pão, por caridade ou desfastio, a ele que sabia olhares de cãozinho, e era miúdo e franzino, e que sabia todas as lamúrias de apiedar e aborrecer, pai morto, pai desempregado, pai sumido no mundo, mãe entrevada, mãe morta, irmãozinhos famintos, doentes, com frio... Mas ele nem se dava conta de quem passava. Deixava-se estar sentado na soleira do banco, quase ao rés do chão, as pernas meio dobradas contra o peito, e os braços que enlaçavam frouxamente as pernas...
Por que é que chorava esse menino? Que imprecasse, que mentisse, que roubasse, que tivesse um canivete, estava certo e justo, mas se esse menino chorava, assim, como esses meninos não choram, então se desmanchava a ordem precária do mundo, e o mundo era só uma rua de portas fechadas e um menino que se senta numa soleira, e se encolhe, e pousa o rosto nos joelhos, e soluça...
- Que foi?
E como ela o tocasse, e ele a olhasse e dissesse: “foi nada”, e se esquivasse, e ainda mais se encolhesse, ela o deixou, lívida, e desapareceu no domingo entre os demais que passavam.
aveloh
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Um vaso

Nasci igual a centenas de outros, em fôrma comum e de louça ordinária. Estamparam-me umas flores e uns frisos meio borrados, e lá estava eu, no depósito, pronto para o destino que me coubesse.
Lembro-me de passar depois muito tempo entre outras quinquilharias simplórias, na seção “variedades” de um supermercado de subúrbio. Senhoras e mocinhas igualmente simplórias às vezes nos cobiçavam: tomavam-nos com mil cuidados, acariciavam-nos, consideravam longamente o preço na etiqueta, acariciavam-nos... Cheguei mesmo a ver um ou outro de meus pares ir-se embora ao fim desse ritual.
Mas eis que é hora do meu próprio destino,e o estranho portador do meu destino é um moço que chega afobado, olha-nos com ar contrafeito, consulta o relógio e, impetuoso, coloca-me no carrinho de compras, entre queijos, vinhos e outras guloseimas. Leva-me sem carícias nem ponderações preliminares.
A casa do moço era um apartamento claro, quase nu, só com os móveis indispensáveis. Enfeite nenhum, silêncio absoluto. Senti-me sozinho e deslocado naquela sala sem mais frivolidades, enquanto o moço acomodava as guloseimas na cozinha. Quando ele sai de lá, traz até mim um enorme maço de flores. Flores como eu jamais tinha visto, em nada parecidas com as que ficavam em pacotes na prateleira vizinha, e às vezes se arranjavam em um de nós, de amostra, no supermercado. Estas estavam vivas, frescas, e eram tão belas, e tantas, que mal pude acomodá-las. Fiquei lisonjeado. O moço arranja-as em mim com gestos nervosos e sai por longo tempo. Quando volta está diferente, calmo, um tanto entorpecido, eu diria, e... não vem só.
A moça nota as flores assim que a porta se abre; vem até elas, toca-as, admira-lhes a profusão, o perfume, a beleza, enquanto o moço se desculpa por minha feiúra indiscreta. Confessa que só lembrou do vaso em cima da hora, e aí teve que se arrumar com o que havia no supermercado próximo, etc., etc.. Ela parece concordar que eu não seja mesmo grande coisa, mas ama as flores, a gentileza, e sobretudo ama muito – posso ver – o moço. Passam-se então dois dias inteiros sem que ele faça outra coisa senão estar perto dela.
Quando ela se vai e as flores murcham, quase não o vejo e a mais ninguém. Sucedem-se longos dias de silêncio e brancura; o moço nem está agitado, como quando o conheci, nem calmo, como o vi depois: está distraído, compenetrado, absorto, talvez, no corriqueiro da vida. Numa certa manhã, algo na casa está mudado: algo impreciso, indefinível, um alvoroço no ar, digamos. À noite o moço se agita, sai, volta com flores. Quando a noite vem, vem com a moça.
Foi assim, tantas vezes que eu não saberia contar. Chegava numa sexta-feira e partia no domingo. Às vezes acontecia de ficar um dia mais, e então, no domingo, ela dizia: “que bom que hoje é sábado”, e o moço sorria, comovido. Ia-se a moça, murchavam as flores, longos dias iguais, alvoroço no ar, flores, moça chegando, moça partindo, flores murchando...
E, de repente, a mudança: embalam-se livros, roupas, utensílios, desmontam-se os móveis. Caminhão. Estrada. Casa nova. Chega de outro lugar mais um caminhão: são coisas da moça. Móveis do moço e da moça compõem-se em nova ordem, selecionam-se os utensílios, distribuem-se as coisas em armários e gavetas conforme utilidade e importância. A mim e a outros trastes coube-nos um compartimento da despensa, espécie de tumba onde a moça encerrou o que julgava sem utilidade ou indigno de estar à vista. É escuro este lugar, e nunca se abre, a não ser quando chega um novo velho traste.
Tudo que posso perceber daqui são vozes. Já há, por esse tempo, sempre junto às de moço e moça, voz pequenina e clara. Surge mais tarde uma outra, vagido apenas, que aos poucos vai se transformando em balbucio, sílabas, palavras inteiras. Gargalhadas, correria n o quintal, gritos de “mãos ao alto”, “um, dois, nove, cinco, dezessete, lá vou eu”. À noite – sei que é noite porque se calam as vozes pequeninas e as dos pássaros- moço e moça conversam longamente, e eu fico nostálgico de luz e de outros tempos.
Um dia ouço alguém dizer à moça que em tal lugar se prepara um evento beneficente. Será que ela não teria, para doar, algum objeto ainda em bom estado? Os objetos doados seriam vendidos numa grande feira, para ajudar na arrecadação de fundos. Silêncio. Abre-se a porta da tumba, e vejo de novo a luz, enquanto a moça pergunta: “serve?”. Sirvo. A estranha, que já me segura, agradece muito, convida para ir à festa, “vai ser no domingo, não deixe de ir”. “Sim, vou, sim”, responde a moça, entediada, querendo ficar logo sozinha. Quando enfim saímos, ela nos acompanha e me olha com estranhamento, como se visse em mim algo que nunca vira antes. Demora-se a fechar a porta.
Cá estou eu de novo à venda, entre muitos outros trastes inúteis, tirados de não sei que tumbas. Muitas pessoas passam por aqui com vagar e tédio; algumas compram, para colaborar, coisinha qualquer. De repente eu vejo chegar, aflita, aflita, a moça. Olha à volta, procura não sei quê, tem muita urgência, vê-se. E é a mim que procura. Corre quando me vê, segura-me por alguns segundos contra o peito, aliviada, como se me salvasse de grande perigo. “Vou levar isto”, diz, passando o dinheiro.
Volto à casa das vozes, mas nunca mais ao cubículo dos inúteis. Colocam-me no alto de um armário, que é para onde vão as coisas que se quer bem longe das mãozinhas buliçosas. E é aqui que passo agora a maior parte do tempo. Alguma vez o moço traz flores, e então a moça me deixa por dois ou três dias sobre um móvel mais baixo, repleto de efêmera majestade. Quando as flores murcham, ela as deita fora e amorosamente me lava; examina-me, compungida, as rachaduras de sempre, seca-me, e me repõe a salvo no alto do armário. E se é dia de limpeza na casa, ou se alguém vem procurar alguma coisa aqui em cima, ela aponta para mim e diz: “cuidado com aquele vaso”.
aveloh
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Imaginação infantil

Meu filho do meio, ainda bem pequeno, entretinha-se desenhando os bichinhos que eu lhe sugeria: "desenhe uma vaquinha", e ele fazia um rabisco parecido com a ilustração ao lado. "Agora desenhe uma lagarto", e ele prontamente fazia um rabisco quase igual ao primeiro. "Agora uma galinha", e lá vinha o mesmo rabisco. Ficamos um bom tempo nisso, eu a sugerir os bichos e ele a desenhar e a me mostrar com uma carinha triunfante o rabisco igual a todos os outros. Lá pelas tantas, eu lhe pedi que fizesse um coelhinho, ao que prontamente ele respondeu:
- Aah...coelhinho eu não sei fazer!
Nat King Cole
Três coisas me fazem às vezes suspeitar que Deus existe: as melancias, os cachorros e a voz desse anjo; clique no endereço para ouvir www.youtube.com/watch?v=9IDUxk9sSXI
A fazenda africana

Karen Blixen (1885-1962), escritora dinamarquesa, manteve por uns quinze anos uma fazenda de café no Quênia, nas proximidades de Nairóbi. Vendida a fazenda por motivo de falência iminente, ela se retira para sempre da África, experiência bastante dolorosa que ela relata em seu livro autobiográfico "A Fazenda Africana". Hollywood adaptou livremente essa história para um filme, "Entre dois amores", que, visto depois de se conhecer a poderosa narrativa da escritora, parece bem chulé.
A propósito da natureza das relações de amizade entre mulheres, transcrevo abaixo uma página belíssima e imperdível desse romance, em que ela narra a visita de uma amiga, por ocasião de sua derrocada como fazendeira.
"Foi nessa época – embora antes de eu me desfazer dos cavalos – que Ingrid Lindstrom deixou sua fazenda para passar um tempo comigo. Este foi um grande gesto de amizade da parte dela, pois relutava ao máximo em se afastar da fazenda. [...] No fundo de seu coração, Ingrid entendia e percebia, com toda a intensidade, com algo da força dos próprios elementos, o que de fato significava para uma mulher fazendeira ter de desistir de sua terra e abandoná-la.
Enquanto Ingrid ficou ao meu lado, não falamos do passado nem do futuro, e tampouco mencionamos o nome de qualquer amigo ou conhecido. Em vez disso, concentramos nossos espíritos no desastre que se abatera sobre mim. Caminhamos juntas de um lado para o outro da fazenda, nomeando todas as coisas à medida que as víamos, uma após a outra, como se estivéssemos elaborando mentalmente um relatório da minha perda, ou como se Ingrid estivesse, em meu nome, reunindo material para um livro de reclamações a ser apresentado ao destino. Por sua própria experiência, Ingrid sabia muito bem que não existe nenhum livro como este, mas mesmo assim a ideia de algo parecido é inseparável de nossa existência como mulheres.
Fomos até a boma do gado, e ali sentamos na cerca, contando os bois à medida que passavam. Sem nada dizer, eu os apontava para Ingrid: “Esses bois”, e, igualmente muda, ela respondia: ”Sim, esses bois”, e os registrava em seu livro. Em seguida, seguimos para o estábulo, a fim de dar açúcar para os cavalos e, quando haviam terminado, eu esticava minhas mãos pegajosas e lambidas, e os apresentava a Ingrid e chorava: “Esses cavalos”. Ela suspirava longamente de volta: “Sim, esses cavalos”, e também os incluía no livro. Na horta à beira do rio, foi difícil para ela aceitar a ideia de que eu deixaria as plantas que trouxera da Europa, e retorcia as mãos sobre os canteiros de hortelã, sálvia e lavanda, e até mesmo voltou a falar delas mais tarde, como se estivesse elaborando algum plano que me permitisse levá-las comigo.
Passamos a tarde contemplando meu pequeno rebanho de vacas nativas que pastavam no gramado. Repassei suas idades, características e capacidade de produzir leite, enquanto Ingrid gemia e se lamentava, como se estivesse sofrendo em sua própria carne. Examinou cada um dos animais com toda a atenção, não por vislumbrar a perspectiva de ficar com eles, pois todas as minhas vacas já haviam sido prometidas para os criados, mas a fim de avaliar e pesar as minhas perdas. E se apegou sobretudo aos dóceis e cheirosos bezerros; ela própria, após muitas dificuldades, conseguira colocar algumas vacas com bezerros em sua fazenda e, sem qualquer motivo, contra sua própria vontade, lançou-me olhares profundos e furiosos que me culpavam por abandonar meus bezerros.
Creio que, ao lado de um amigo que tivesse sofrido uma grande perda, um homem que ficasse repetindo para si mesmo a frase “ainda bem que isso não aconteceu comigo” acabaria sentindo-se mal com isso e tentaria suprimir tal sentimento. Mas as coisas se passam de outro modo quando duas mulheres são amigas, e uma delas manifesta sua profunda simpatia pelo infortúnio da outra. É evidente que, também neste caso, a amiga mais afortunada ficará o tempo todo repetindo que “graças a Deus, isto não aconteceu comigo”. Tal ideia não provoca nenhum sentimento ruim entre as amigas, mas é algo que as aproxima e introduz na situação um elemento pessoal. Na minha opinião, os homens não são capazes de admitir, de maneira fácil ou harmoniosa, sua inveja ou seu triunfo uns sobre os outros. Mas é óbvio que a noiva triunfa sobre suas damas de honra, e que as visitantes invejam uma mulher que acabou de dar à luz – mas ninguém se sente mal por causa disso. Uma mulher que perdeu o filho pode muito bem mostrar as roupas deste a uma amiga, com plena consciência de que esta provavelmente está dizendo para si mesma “graças a Deus não foi comigo” – e para ambas aquilo seria natural e adequado. E foi bem isto que ocorreu entre mim e Ingrid. Enquanto percorríamos a fazenda, eu sabia que ela estava pensando em suas próprias terras, exultando com a própria sorte de ainda ser uma proprietária, e agarrando-se a isto com todas as suas forças – e isto não afetava em nada nossa amizade. A despeito de nossas gastas calças e blusas de brim, nós éramos na verdade uma dupla de mulheres míticas, envoltas respectivamente em panos brancos e negros, indissoluvelmente unidas como os gênios da vida dos fazendeiros na África."
Enquanto Ingrid ficou ao meu lado, não falamos do passado nem do futuro, e tampouco mencionamos o nome de qualquer amigo ou conhecido. Em vez disso, concentramos nossos espíritos no desastre que se abatera sobre mim. Caminhamos juntas de um lado para o outro da fazenda, nomeando todas as coisas à medida que as víamos, uma após a outra, como se estivéssemos elaborando mentalmente um relatório da minha perda, ou como se Ingrid estivesse, em meu nome, reunindo material para um livro de reclamações a ser apresentado ao destino. Por sua própria experiência, Ingrid sabia muito bem que não existe nenhum livro como este, mas mesmo assim a ideia de algo parecido é inseparável de nossa existência como mulheres.
Fomos até a boma do gado, e ali sentamos na cerca, contando os bois à medida que passavam. Sem nada dizer, eu os apontava para Ingrid: “Esses bois”, e, igualmente muda, ela respondia: ”Sim, esses bois”, e os registrava em seu livro. Em seguida, seguimos para o estábulo, a fim de dar açúcar para os cavalos e, quando haviam terminado, eu esticava minhas mãos pegajosas e lambidas, e os apresentava a Ingrid e chorava: “Esses cavalos”. Ela suspirava longamente de volta: “Sim, esses cavalos”, e também os incluía no livro. Na horta à beira do rio, foi difícil para ela aceitar a ideia de que eu deixaria as plantas que trouxera da Europa, e retorcia as mãos sobre os canteiros de hortelã, sálvia e lavanda, e até mesmo voltou a falar delas mais tarde, como se estivesse elaborando algum plano que me permitisse levá-las comigo.
Passamos a tarde contemplando meu pequeno rebanho de vacas nativas que pastavam no gramado. Repassei suas idades, características e capacidade de produzir leite, enquanto Ingrid gemia e se lamentava, como se estivesse sofrendo em sua própria carne. Examinou cada um dos animais com toda a atenção, não por vislumbrar a perspectiva de ficar com eles, pois todas as minhas vacas já haviam sido prometidas para os criados, mas a fim de avaliar e pesar as minhas perdas. E se apegou sobretudo aos dóceis e cheirosos bezerros; ela própria, após muitas dificuldades, conseguira colocar algumas vacas com bezerros em sua fazenda e, sem qualquer motivo, contra sua própria vontade, lançou-me olhares profundos e furiosos que me culpavam por abandonar meus bezerros.
Creio que, ao lado de um amigo que tivesse sofrido uma grande perda, um homem que ficasse repetindo para si mesmo a frase “ainda bem que isso não aconteceu comigo” acabaria sentindo-se mal com isso e tentaria suprimir tal sentimento. Mas as coisas se passam de outro modo quando duas mulheres são amigas, e uma delas manifesta sua profunda simpatia pelo infortúnio da outra. É evidente que, também neste caso, a amiga mais afortunada ficará o tempo todo repetindo que “graças a Deus, isto não aconteceu comigo”. Tal ideia não provoca nenhum sentimento ruim entre as amigas, mas é algo que as aproxima e introduz na situação um elemento pessoal. Na minha opinião, os homens não são capazes de admitir, de maneira fácil ou harmoniosa, sua inveja ou seu triunfo uns sobre os outros. Mas é óbvio que a noiva triunfa sobre suas damas de honra, e que as visitantes invejam uma mulher que acabou de dar à luz – mas ninguém se sente mal por causa disso. Uma mulher que perdeu o filho pode muito bem mostrar as roupas deste a uma amiga, com plena consciência de que esta provavelmente está dizendo para si mesma “graças a Deus não foi comigo” – e para ambas aquilo seria natural e adequado. E foi bem isto que ocorreu entre mim e Ingrid. Enquanto percorríamos a fazenda, eu sabia que ela estava pensando em suas próprias terras, exultando com a própria sorte de ainda ser uma proprietária, e agarrando-se a isto com todas as suas forças – e isto não afetava em nada nossa amizade. A despeito de nossas gastas calças e blusas de brim, nós éramos na verdade uma dupla de mulheres míticas, envoltas respectivamente em panos brancos e negros, indissoluvelmente unidas como os gênios da vida dos fazendeiros na África."
Karen Blixen, In A fazenda africana, Ed. Cosac Naify, 2005, pg 414-417
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Dioloro

Minha tia-avó Deocleciana foi menina há muito, muito tempo. Casou-se no tempo de casar e teve muitos filhos, como convinha em seu tempo. Viveu decerto algumas alegrias e uns tantos desgostos, como todo mundo; de umas e de outros eu nada sei, e nem ela, que já não se lembra.
Tudo cumprido, o que restou de minha tia é quase só o que posso ver: o corpo diminuído e trêmulo, um barco à deriva na sala antiga em que a visitamos, meus pais e eu, numa tarde qualquer.
-Mãe, veja só quem está aqui: Fulana e Sicrano, e a filha mais nova deles. Lembra, mãe, sua sobrinha, filha de sua irmã Waldemira.
Anos atrás minha tia talvez ficasse constrangida por não reconhecer quem deveria. Agora, nem isto. Tudo passou, nunca foi, ou foi em demasia. Pai, mãe, irmãos, irmãs, marido, filhos e filhas, netos, os vários tons de sépia que se perfilam na parede sépia, são todos estranhos, vozes que chegam sem voz, da outra margem.
- Não sei de Waldemira.
As velhas histórias da família, casos d’antanho, aquela vez no Bom-Jardim, as mesmas visitas repetidas vezes apresentadas (“quem é mesmo essa gente?”), tudo é novo, e em seguida é nada: dissolve-se na névoa do tempo excessivo, na alvura desta mesa em que vários tempos comungam e se esvaem.
- Come um bolinho, mãe, é daqueles que a senhora gosta.
- ...
- Pedacinho só, mãe, comeu quase nada hoje. Come, antes que Dioloro chegue.
- Dioloro vem?
- Vem, mãe, acho que vem.
Ninguém sabe. Ninguém viu. Dioloro é só nome de quem foi, abracadabra que se pronuncia para que ela se lave e coma um tantinho, fogo de artifício, chuva de estrelas ... Dioloro ... O que seriam estas cintilações na sala? Vagalumes nos olhos de minha tia? Ouso perguntar?
- Tia, me conte, quem é Dioloro, tia?
É outro tempo, e primavera. Deocleciana, menina, mãozinha apertada no peito, inclina-se para a menina que a visita muitos anos depois, e lhe concede a jóia mais rara, relíquia guardada em fenda de pedra:
- É meu amor, meu amor, meu amor...
aveloh
terça-feira, 27 de outubro de 2009
"Farewell, sayonara"...

A menina da esquerda é uma das imagens mais comoventes que já vi em fotografia. Vale um ensaio sobre a vulnerabilidade humana. Repare: a postura, a posição das mãozinhas, os óculos, o estrabismo, a confiança - ainda que melancólica - com que se deixa fotografar, todo detalhe remete ao inevitável desencanto, à iminência da queda. Das duas meninas, foi a que sobreviveu; a outra, voluntariosa, muito cedo decidiu que era hora de apear do mundo e apeou. Saudade dela...
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Campo de Agrião

À tardinha a mãe mandou que ele fosse pela última vez colher o agrião. Que amanhã isto já não seria possível, nem depois de amanhã, nem depois de depois de amanhã, nem nunca. Que amanhã muito cedo chegariam homens e madeira para levantar o armazém, e ainda que algumas touceiras resistissem ao pisoteio da construção, o que era quase impossível, e ele depois pudesse ir até o lugar delas pelo alto vão que ia ficar entre chão e assoalho, isto de nada adiantaria, pois que lá estariam longe do sol, e longe do sol nem mesmo uma verdura valente como o agrião do seco é capaz de viver. Que amanhã, pois, quando o apito da serraria anunciasse a hora de sempre o pai chegar e ele fosse colher o agrião fresco para o almoço, o canteiro de agrião já não existiria.
Então ele tomou a tijelinha das mãos da mãe, desceu os três degraus da varanda e ficou a contemplar a vastidão do terreiro, que ele sempre imaginara coberto de pés de mexerica e de melancias. Porém ali, onde antes houve pinheiros como havia ainda em toda volta da vila, ali era terra nua, nada havia, a não ser, justo no lugar em que se construiria o armazém, aquelas touceiras de agrião do seco, a que ninguém, exceto ele e o pai, dava muito valor. Amanhã nem isto haveria. Morreria o agrião para que em seu lugar se fizesse o armazém de três portas com muito comprido balcão, e por trás da parede de prateleiras o depósito de mercadorias, lugar de nichos e penumbras, bom para as brincadeiras de esconder. Sim, havia de ser bom, mas seria outra coisa, não esta que vinha desde sempre e de repente se acaba. Pois isso de as coisas se acabarem era mesmo possível, e todas as folhas que sobrassem da última colheita, até as mais tenras, acabadas de brotar, amanhã deixariam de existir. Restariam esmagadas sob os pés dos carpinteiros, sob as tábuas de pinho que aqui e ali se empilhariam à espera de se armar em construção idêntica à de todas as casas da vila, da escola, da igrejinha, do escritório, da serraria mesma, e afinal pintarem-se as paredes de idêntico amarelo e as portas e janelas do mesmo verde do mar de pinheiros.
E quando o menino acordou no dia seguinte, tudo já começava a consumar-se.
Muito tempo se passou desde então. As margens do pinheiral foram aos poucos se afastando na direção do horizonte, e tanto se afastaram que decerto despencaram pelas bordas do mundo, pois nem mesmo ao longe se via mais o contorno das araucárias. Daí que acabou por se esvaziar o pátio de toras, acalmaram-se os vapores da serraria, e tudo ficou muito quieto. Depois, uma a uma, milhares de tábuas se despregaram e foram apodrecer, ou existir, talvez, ainda, em lugar insabido; desmontaram-se as máquinas, arrasaram-se os últimos vestígios de que algo ali tenha acontecido, e por cima de tudo semeou-se um campo de soja. Por fim, mãe e pai desapareceram, o menino mesmo desapareceu, de modo que é impossível saber agora onde houve o canteiro de agrião.
aveloh
"Inquebrantada linhagem
Por onde vou, no jardim,
cato gravetos.
Antigo destino me leva a escolher
entre verdes
aquilo que está seco, ossos mortos
sem seiva
que a árvore abandona.
Nenhuma panela espera a magra chama
nenhum frio me obriga a essa colheita.
Vou de cabeça baixa
garimpando
e faço feixes que levarei às costas
ou nos braços
até lugar nenhum
apenas para juntar-me à fila interminável,
inquebrantada linhagem de fêmeas que
como formigas colhem
e levam
e colhem e levam
e colhem
porque esse é o seu lote."
Marina Colasanti, In "Fino Sangue", Ed. Record, Rio de Janeiro, 2005
cato gravetos.
Antigo destino me leva a escolher
entre verdes
aquilo que está seco, ossos mortos
sem seiva
que a árvore abandona.
Nenhuma panela espera a magra chama
nenhum frio me obriga a essa colheita.
Vou de cabeça baixa
garimpando
e faço feixes que levarei às costas
ou nos braços
até lugar nenhum
apenas para juntar-me à fila interminável,
inquebrantada linhagem de fêmeas que
como formigas colhem
e levam
e colhem e levam
e colhem
porque esse é o seu lote."
Marina Colasanti, In "Fino Sangue", Ed. Record, Rio de Janeiro, 2005
domingo, 25 de outubro de 2009
Send in the clowns
Interpretações dessa música tão belas quanto esta, só mesmo outras da mesma Judi Dench
Das razões do nome deste blog 3
Ditas as duas outras razões, posso agora falar de uma terceira, que é a minha relação com a poesia. Nada em minha vida pode ser prosaico, o prosaismo me devasta. Minha necessidade de poesia é tanta, e eu tanto fiz que consegui até me casar com um poeta. Não sei dos outros poetas, mas do meu posso dizer que tem o olhar sempre um pouco desviado para as esferas - as celestes e aquelas dos canais SPORTV - o que o distrai bastante de mim. Tal distração não é de todo ruim, pois foi o que permitiu, lá no começo dos tempos, que ele não notasse que eu era ligeiramente torta, em mais de um sentido, e se deixasse fisgar. Hoje já não é mais possivel ignorar que eu seja torta, mas ele ainda não reparou que ultimamente dei também para ter bigodes. Meu poeta é também um ninho de alvéloas, pois à força de sustentá-lo em minha mão direita com o braço estendido para o alto, enquanto aguardo as trombetas do Juízo, meu olhar acabou por escapar de minha sombra soturna e ir a outras paragens, para além da "charneca deserta e nua".
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
"Cave Canem"
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Assinar:
Postagens (Atom)







