quarta-feira, 10 de novembro de 2010

"O Tirpe", ou "história com final feliz"




Meu irmão seguiu à risca a orientação de nosso pobre pai, para navegar pela vida sem fome e sem muito percalço: entrou logo para o Banco do Brasil, fez carreira com jeito e gosto, até que, nauseado com o “os novos conceitos admnistrativo-empresariais”, as técnicas ultra-modernas de competição - rasteira e golpe baixo - aposentou-se assim que deu. Mas antes de aposentar-se morou em várias paragens e numa delas teria ficado até o final dos tempos, se a família não reclamasse a volta para o interior do Paraná: nas Alagoas descobriu o cenário que queria para a vida e sua vocação de audaz navegante e pescador.
Agora, já distante daqueles dias de jangada e mar azul, ele descobre nova paragem às margens do rio Paraná e novo amor: um barquinho batizado com o apelido de nossa mãe, Lali, uma homenagem, claro, mas decerto também um pedido para que ela o proteja dos perigos do rio-mar. Que assim seja!

terça-feira, 9 de novembro de 2010

sábado, 6 de novembro de 2010

quero mais!



um bom torresmo



Meu marido diz, e eu sou obrigada a concordar, que não há em cozinha nenhuma, nem nas mineiras que ele conhece, um torresmo tão bom quanto o que eu faço. Torresmo é a minha “mistura” predileta para o meu predileto feijão com arroz, e posso dizer que passei boa parte de minha vida de cozinheira amadora aperfeiçoando o preparo do dito cujo. Acho que alcancei a perfeição ou algo muito próximo dela.
O toucinho para um bom torresmo, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, não deve ter carne ou ter pouquíssima, pois os pontos de fritura da carne e da pele com a gordura são bem diferentes. Se a carne ficar no ponto a pele não vai ficar pururuca e a gordura ficará molenga, repugnante; se a pele ficar pururuca e a gordura completamente derretida e crocante, a carne ficará tão torrada que será impossível mastigá-la sem o perigo de quebrar os dentes.
O toucinho deve ser lavado e cortado em pedaços regulares, de aproximadamente 3 a 4 cm de comprimento com não mais que 1,5 cm de largura, para que fritem de forma homogênea. Para o tempero eu costumo usar, além do sal, um tanto de alho esmagado, para quebrar o cheiro de “chiqueiro” que a carne de porco costuma ter; para os que a toleram, pimenta do reino também vai bem.
Temperado o toucinho, basta colocá-lo em panela bem grande com um tantinho de óleo e levá-lo ao fogo brando, mexendo sempre com uma colher de pau, para que não grude no fundo. Este é um processo relativamente demorado (e mais demorado quanto maior for a quantidade de toucinho) e perigoso, pois quando a pele começa a fritar é comum espirrar a gordura quente.
A primeira etapa da fritura estará completa quando toda a gordura estiver derretida, de modo que os torresmos sobrenadem, com uma aparência já pururuca. Nesse ponto apaga-se o fogo e retiram-se os pedaços de torresmo com uma escumadeira para outro recipiente, onde deverão esfriar. A gordura que resultou da fritura, a banha de porco em si, eu costumo reservar na geladeira para eventual utilização em outras receitas.
Mas o torresmo mesmo, embora já bem frito e podendo ser consumido, ainda não está pronto; é preciso que esfrie completamente e de preferência descanse por várias horas antes da finalização. Descansados assim os torresmos ou retirados da geladeira, se foram preparados anteriormente, basta refritá-los rapidamente ( muito rapidamente mesmo) em óleo bem quente, até que terminem de pururucar. É preciso cuidado nessa etapa para que não passem do ponto; do contrário ficarão amargos.
Como eu tenho uma boa dose de sangue alemão, o meu torresmo preferido é o feito com toucinho defumado, de preferência que eu mesma defumei, mas, na falta deste, com “bacon” mesmo. No caso de usar o “bacon”, costumo escolher uma peça sem carne ou retirar a carne, evidentemente guardando-a para outra receita. Corto o “bacon” da mesma maneira que o toucinho fresco, coloco-o de molho em água fervente por cerca de meia hora (fora do fogo), após o que descarto a água e coloco em panela grande para derreter (fritar). Daí em diante o processo é exatamente igual ao do toucinho fresco, inclusive com a segunda fritura.
Os da foto acima foram feitos com "bacon"; daí ficarem assim bem moreninhos.

na manhã enferruscada




sexta-feira, 5 de novembro de 2010

momento delicado



Não tenho uma foto melhor porque não quero estressar os bichinhos ainda mais do que a circunstância da vida deles já faz, mas no momento mesmo desta postagem estão em aula de vôo.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

a propósito de sonhos


Já contei aqui que passei pouco mais de três anos da minha infância numa vila de serraria, há muito varrida do mapa, num lugar chamado Saudade. Pois nesse lugar às vezes era ocasião de festa, não sei dizer a troco de quê nem em que época do ano, mas certamente festa religosa, com a presença do turco dono da serraria, Elias Abrahão Maia (seu Didi), que não era turco mas sírio, sua mulher, dona Yolanda, às vezes mais gente de sua numerosa família, e, glória suprema, um padre que ia dizer missa de verdade, todos hospedados em minha casa, que era também o quartel general da serraria e tinha até rádio amador. Tenho vagas e esparsas lembranças dessas ocasiões, mas o de que mais me lembro, além da festa, é claro, com missa, procissão, e muito churrasco, pepino azedo e tal, é que minha mãe fazia macarrão para servir aos hóspedes em casa, primeiro umas placas grandes que ela secava na chapa do fogão a lenha antes de cortá-las em fitas. Eu sempre ganhava uma placa daquelas, deixada mais tempo na chapa para ficar tostadinha, mas seu Didi, que era um gordo muito guloso, sempre a roubava de mim, dizendo: “vai pedir outra para sua mãe”.
A foto acima foi tirada em 1959, eu imagino, durante um churrasco numa dessas festas. O homem de chapéu à direita é meu pai; ao seu lado está Seu Wile, sub-gerente da serraria que morava numa casa exatamente igual e simétrica à minha, do outro lado da rua. A polaquinha atracada com um sonho de goiabada sou eu, ao lado de minha mãe (os sonhos estavam nessa lata grande no chão, lembro como se fosse hoje).
Das outras pessoas na foto reconheço só a parte de cima da cabeça de uma de minhas irmãs, professora muito brava da escolinha da vila, oculta pelo rapaz em primeiro plano. Essa minha irmã, a mais parecida comigo, tinha um amor exacerbado por nosso pai. Lembro dela dizendo que queria muito morrer antes dele, porque não suportaria vê-lo morto. De fato ela o precedeu, ainda bem jovem, com uns trinta e poucos anos. Estava sozinha com ela quando isso aconteceu e segurei sua mão enquanto ela morria, razão pela qual espero que ela venha me receber quando for a minha vez. Certamente teremos muito que conversar.

Receita de sonho


Casa em Santa Felicidade, Curitiba, Pr, Br Foto de Washington Takeuchi

A pedido de meu "webamigo" Washington Takeuchi" que me alimenta sempre com belíssimas fotos de Curitiba e arredores, transcrevo aqui minha receita de sonhos, cuja massa é uma adaptação da massa de pão de minha mãe.

Ingredientes para a massa:

2 ovos inteiros
2 gemas
2 colheres (sopa) de açúcar
1 colher (café) de sal
1 xic. de leite
50 g de manteiga ou margarina
1 colher (sopa) de rum ou conhaque
1 tablete de fermento biológico
½ kg de farinha de trigo
1 pitada de noz-moscada

Ingredientes para o recheio

goiabada em cubinhos de mais ou menos 1cm
creme de leite fresco
2 claras de ovo
4 colheres de açúcar

Modo de fazer:
- dissolva o fermento e o açúcar no leite, acrescente um punhado da farinha de trigo para fazer uma esponja, deixe crescer.
- crescida a esponja, acrescente os dois ovos, as duas gemas, a manteiga, o sal e o rum, a noz-moscada e por fim o restante da farinha. Amasse muito bem e deixe crescer coberta com um pano, longe de correntes de ar.
- quando a massa tiver dobrado de tamanho, separe-a em duas partes (isto não será necessário se você quiser fazer só um tipo de sonho).
- com uma das partes faça bolinhas de cerca de 2 cm de diâmetro; com cada bolinha na palma da mão faça com o polegar uma pequena depressão n o centro, coloque aí um cubinho de goiabada, feche muito bem a bolinha, enrolando-a de volta; coloque numa superfície lisa para crescer;
- com a outra metade da massa modele bisnaguinhas (a partir de bolinhas de uns 2 ou 3cm de diâmetro); deixe sem recheio nenhum, coloque para crescer como no passo anterior.
- cubra tudo com um pano e deixe crescer; quando dobrarem de tamanho os sonhos estão prontos para fritar;
- frite os sonhos em panela não muito grande (uns vinte cm de diâmetro), mas com uma boa profundidade de óleo, para que os sonhos fiquem longe do fundo da panela, até que fiquem bem morenos, virando-os sempre com uma escumadeira (se deixar para virá-los quando uma das metades estiver morena, isto será bastante difícil);
- quando estiverem fritos retire do óleo e coloque em uma forma ou coisa parecida bem forrada com papel absorvente e “role-os” aí para que fiquem bem sequinhos; em seguida (em seguida mesmo, não se pode deixar que esfriem) role-os num recipiente com açúcar.

Os sonhos recheados com goiabada estão prontos já nessa fase. As bisnaguinhas, depois de frias, devem ser cortadas longitudinalmente ao meio e recheadas com chantili. Para o Takeuchi, que mora em Curitiba, será fácil encontrar um bom chantili fresco em confeitarias e padarias. Aqui em Barão Geraldo e alhures isso não existe e, como não suporto o chantili industrializado, preparo eu mesma, da seguinte forma:

- numa batedeira de bolo bato ½ litro de creme de leite fresco bem gelado (se colocar o creme de leite cerca de uns vinte minutos no congelador antes, esta operação será mais fácil, com o creme espirrando menos), até que fique firme, sem que – muito cuidado aqui – vire manteiga. Preparo então, com as duas claras que restaram e as quatro colheres de açúcar, um merengue bem firme. Misturo o merengue ao creme já batido no ponto, MUITO DELICADAMENTE, para que não desande. Recheie as bisnaguinhas.

Agora é só comer, e pode comer à vontade porque depois dessa trabalheira toda você vai precisar repor as energias, e mesmo que não precise vai levar um bom tempo para que se anime a fazer outra vez.
“Voilá”

terça-feira, 2 de novembro de 2010

a mão de um mestre


O conto chama-se “luas-de-mel” e está no livro “Primeiras Estórias”. Passa-se ao longo de três dias da vida de Joaquim Norberto, remediado senhor da fazenda Santa-Cruz-da-Onça, homem “quase de paz”, meio velhusco e enfastiado, já “declinando para nãoezas”. Eis que num depois de almoço de sábado lhe interrompem a sesta para dar conta da chegada na fazenda de um emissário, um tal “Baldualdo”, famoso guerreiro e matador, com a mensagem do pedido respeitoso, mas incisivo: “Estimado meu amigo e compadre...[...] “Para um moço e uma moça, lhe peço forte resguardo. O mais se verá, mais tarde.” Quem pede é um “Seo Seotaziano”, “chefe demais” de tempos antigos, a quem o protagonista permanece leal como um cão. Trata-se de um jovem casal em fuga por conta de rivalidade entre famílias, e o que o velho chefe quer é um porto seguro para a realização do casamento. A partir daí a fazenda é só providências: homens experientes da guerra chamados daqui e dali das fazendas vizinhas, tocaias pelos caminhos, sentinelas, a arrumação dos quartos, “toalhas, bem-estar, flores em vaso”. À meia noite chegam os noivos, “amor muito”, “ainda não um casal”, ainda desconhecidos: “Eu não queria saber, que senão pelo precatar: podendo ser filha de conhecido, parente meu ou amigo. Nem adiantava. Nessa hora, sendo fiel, eu era Seo Seotaziano.” O domingo todo passa-se nos preparativos para o casamento e a guerra, se esta viesse. Mas a guerra não vem e tudo se dá a contento: na segunda feiraa “casação” se realiza com padre e festa, e se consuma; na terça chega um emissário, irmão da noiva, para abençoar a união selar a paz. Os noivos partem tranqüilos para continuar a lua de mel.
Mas note-se que o nome dessa “estória” é “luas-de-mel”: e de fato, com toda a fazenda tomada pela atmosfera das núpcias e da iminência da guerra, o velho Joaquim Norberto sente avivarem-se antigas chamas, e tem ele também um intercurso amoroso com sua velha mulher. Isto fica claro, mas sempre muito sutilmente: “Peguei na mão dela, meio afetuoso. Repensei em todas as minhas armas. Ai, ai, a longe mocidade.” “Eu, feliz, olhei minha Sa-Maria Andreza; fogo de amor, verbigrácia. Mão na mão, eu lhe dizendo – na outra o rifle empunhado-: - “Vamos dormir abraçados...””. “Amanheci fora de horas, me nascendo dos conchegos.”
O que efetivamente dá notícia desse caso dos velhos protagonistas é a maneira como ele vai se referindo à mulher ao longo do conto, nas situações mais corriqueiras dela, em sua lida de dona de casa e anfitriã. Julgo ter compilado todas essas referências, dezenove, no total. Veja-se como elas evoluem da indiferença, do enfastiamento, para um crescente enlevo, culminando num clímax e posterior apaziguamento; é quase como se mimetizassem o ato amoroso:

Sa-Maria Andreza, minha santa e meio passada mulher...
Sa-Maria Andreza, minha mulher...
Sa-Maria Andreza, minha correta mulher ...
Sa-Maria Andreza, boa companheira ...
Sa-Maria Andreza, minha mulher ...
Sa-Maria Andreza, minha conservada mulher...
Sa-Maria Andreza, mulher ...
Sa-Maria Andreza, minha...
Sa-Maria Andreza, minha mulher ...
Minha Sa-Maria Andreza ...
Minha sadia Sa-Maria Andreza ...
Sa-Maria Andreza, mulher minha ...
Minha Sa-Maria Andreza, mulher, ...
Sa-Maria minha Andreza ...
minha Sa-Maria Andreza ...
Sa-Maria querida Andreza ...
Sa-Maria Andreza e eu, nós ...
minha Sa-Maria Andreza ...
minha Sa-Maria Andreza ...

esfinge