sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
domingo, 12 de janeiro de 2014
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
o padre e o caipira
Humberto de Oliveira tem ateliê também em Taubaté.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
sábado, 21 de dezembro de 2013
Aleluia! Um jovem grande cronista!
"Sheakespeare nas dunas

Férias de verão, minha mãe e meu padrasto alugaram uma casa em Arraial do Cabo para passarmos o mês de janeiro. Na véspera da viagem, arrumaram as malas, fizeram uma grande compra de supermercado e mandaram besuntar o Passat verde-musgo com óleo de mamona - suposta proteção contra a maresia que, até hoje, não sei se era uma particularidade da nossa família ou uma das bizarrices comuns no final do século XX, como passar Coca-Cola na pele antes de tomar sol ou fazer polichinelos nas aulas de educação física. Na manhã seguinte, com o porta-malas lotado, a lataria viscosa e os ânimos exaltados, pegamos a estrada.
Nossa casa ficava no alto de uma encosta, bem diante do mar. Tinha um quintal com pomar atrás, e uma varanda na frente, sombreada pela copa de uma amendoeira centenária. Todos os dias acordávamos cedo, tomávamos café da manhã na mesinha embaixo da amendoeira e, depois de uns cinco minutos ziguezagueando pela trilha do morro, chegávamos à praia, com as dunas de areia branca só para nós, meia dúzia de forasteiros e os pescadores. Armávamos o guarda-sol, abríamos as cadeiras e esteiras e ali ficávamos, quase até o anoitecer.
Férias de verão, minha mãe e meu padrasto alugaram uma casa em Arraial do Cabo para passarmos o mês de janeiro. Na véspera da viagem, arrumaram as malas, fizeram uma grande compra de supermercado e mandaram besuntar o Passat verde-musgo com óleo de mamona - suposta proteção contra a maresia que, até hoje, não sei se era uma particularidade da nossa família ou uma das bizarrices comuns no final do século XX, como passar Coca-Cola na pele antes de tomar sol ou fazer polichinelos nas aulas de educação física. Na manhã seguinte, com o porta-malas lotado, a lataria viscosa e os ânimos exaltados, pegamos a estrada.
Nossa casa ficava no alto de uma encosta, bem diante do mar. Tinha um quintal com pomar atrás, e uma varanda na frente, sombreada pela copa de uma amendoeira centenária. Todos os dias acordávamos cedo, tomávamos café da manhã na mesinha embaixo da amendoeira e, depois de uns cinco minutos ziguezagueando pela trilha do morro, chegávamos à praia, com as dunas de areia branca só para nós, meia dúzia de forasteiros e os pescadores. Armávamos o guarda-sol, abríamos as cadeiras e esteiras e ali ficávamos, quase até o anoitecer.
Nas infinitas manhãs, enquanto minha mãe e meu padrasto liam, eu e minhas irmãs nos dedicávamos às típicas atividades de criança na praia: nadávamos, rolávamos na areia (chamávamos de "fazer croquete"), construíamos castelos, cavávamos buracos, realizávamos autópsias nos baiacus inchados trazidos pelo mar. Lá pelas três, meu padrasto fechava o livro: "E aí, quem quer uma birita"? Caminhávamos até uma birosca de pau a pique, comíamos pastéis, eles bebiam caipirinha e nós, Fanta Uva.
No finzinho da tarde, havia o arrastão. Eu e meu padrasto ajudávamos a puxar a rede - bem, ele ajudava, eu só ficava por ali, agarrado à velha corda azul, fingindo que meus pequenos músculos faziam alguma diferença na luta dos homens contra o mar. Quando a rede chegava, carregada - um borbulhante lago prateado, refletindo os últimos raios de sol, recebíamos uma ou duas tainhas por nossa contribuição e íamos para casa, assa-las. Depois do jantar, eles nos liam alguma história dos irmãos Grimm ou do Monteiro Lobato e capotávamos, para acordar cedo no dia seguinte e começar tudo de novo.
Por mais divertidas que fossem nossas atividades praianas, um mês é muito tempo e era inevitável que em algum momento fôssemos visitados por aquele implacável companheiro de infância: o tédio. No final da manhã, lá pela terceira semana, cansados do mar, da areia, dos "croquetes", pastéis, picolés e barrigas de baiacus, nos encarapitamos sob o guarda-sol e, emburrados, pusemos em prática a única estratégia que conhecíamos para espantar a infelicidade: azucrinar a vida dos adultos até que eles nos trouxessem alguma solução.
Minha mãe propôs que caminhássemos até as pedras, que fizémos um castelo, disse até que poderia ler algo dos irmãos Grimm ou do Monteiro Lobato, mas o tédio tem uma bunda imensa: quando assenta as nádegas sobre nossas cabeças, achata toda a circunferência do mundo conhecido; para escapar de seu adiposo domínio, só encontrando alguma atividade inédita, em mares nunca dantes navegados. Conhecendo intuitivamente o antídoto, minha meia-irmã bateu os olhos no livro que se pai tentava ler e perguntou o que era. Romeu e julieta, ele disse, e não o deixamos mais continuar a leitura: "Sobre o que é? Por que eles não podiam casar? Onde fica Verona? Dá pra chegar de carro? E de barco? Pra que lado? É antes ou depois da África?".
Simplificando um pouco a linguagem, meu padrasto nos resumiu o começo da história: as famílias rivais, a festa à fantasia,, o filho dos Montéquio, a jovem Capuleto, o amor proibido. Em cinco minutos, após mais de uma hora de lamúrias, havíamos ficado quietos e atentos. Não sei se instigado por nosso interesse ou simplesmente temeroso de que voltássemos ao tédio profundo, meu padrasto resolveu abandonar a versão resumida e começar o livro pelo começo - inserindo, aqui e ali, algumas notas de rodapé.
Daquele dia em diante, quando voltávamos da birita, entupidos de Fanta Uva e pastel, sentávamos nas esteiras e, até o sol se pôr, ouvíamos a continuação da história. Mais tarde, ao nos deitarmos na cama, não queríamos saber de feijões encantados ou das reinações de Narizinho: só nos interessava o futuro do casal.
Hoje, acho que entendo o porquê do nosso interesse por Romeu e Julieta. Filhos de pais recém-separados, não nos eram nada distantes, perdidas no século XVI, situações como "amor impossível""relações inconciliáveis", "a casa dos Montéquio" e "a casa dos Capuleto". Por mais civilizados que tivessem sido os divórcios do meu pai e da minha mãe, do meu padrasto e de sua ex-mulher, em algum lugar devíamos nos solidarizar com dois jovens cujas vidas eram afetadas pelas rixas de seus antecessores. Ou, talvez, nem precisássemos ir tão longe. Afinal: o que é a infância senão uma sequência de desejos cerceados pelos adultos?
Os dias foram se passando e nós fomos ficando cada vez mais ligados ao livro. Para alongar a narrativa, minha mãe e meu padrasto se aprofundavam em detalhes, descreviam roupas e cenários, cantarolavam as músicas dos bailes, assoviavam os pios dos passarinhos, inventavam comidas, animais e plantas da floresta. Embora percebêssemos a artimanha e reclamássemos às vezes - "pula, pula, isso é sobre!", eu dizia -, eles conseguiram levar Romeu, Julieta e as três crianças firmes e fortes até o final das férias.
No penúltimo entardecer, subimos para casa com o coração na boca: o mundo tramava contra o amor proibido, Romeu havia sido obrigado a fugir para Mântua, Julieta estava prometida a Páris, mas o plano do frei Lourenço era excelente! Daria à moça um falso veneno, que a faria parecer morta. Romeu a encontraria no jazigo dos Capuleto, a acordaria do sono profundo, fugiriam para longe de Verona (Arraial do Cabo, talvez) e seriam felizes para sempre. Não era assim, afinal, que terminavam as histórias?
Eis o que se perguntavam meu padrasto e minha mãe, vez após outra, naquela insone noite de verão. Como sair da arapuca em que se haviam colocado? Deveriam profanar Shakespeare, censurando o final, fazendo, talvez, com que a carta de Julieta chegasse a Romeu via pombo-correio, em vez de viajar no bolso de um emissário? Cometeriam um hediondo anacronismo colocando ao lado da sepultura um providencial orelhão, cujo toque, no momento em que Romeu erguesse a adaga, mudaria, Deus ex machina, os rumos da história? Ou o correto seria seguirem fiéis ao enredo, Shakespeare é Shakespeare, a arte está acima de tudo, não se pode esconder a verdade das crianças, e, no fim das contas, elas sairiam fortalecidas da experiência?
Lembrem-se, era o início dos anos 80. Maio de 68 estava mais próximo de nós que a obrigatoriedade de cadeirinha para bebês no banco de trás dos carros, a discussão, portanto, sobre o que seria mais danoso às crianças - a violência da história ou da mentira - entrou noite adentro, escorando-se em Harold Bloom e Paulo Freire, Bakhtin e Piaget, Nietzsche, Freud e sabe-se lá mais quem. Já estava amanhecendo quando chegaram a uma conclusão.
Pela última vez, tomamos café sob a amendoeira, descemos a trilha até a praia, cruzamos as dunas, armamos acampamento. Lá pelas três, depois da birita, como de costume, sentamos em volta dos dois, prontos para ouvir o aguardado final de Romeu e Julieta.
Não lembro quem contou, se minha mãe ou meu padrasto. Lembro de um frio polar no estômago, de um clarão no céu, do mundo revolto como as entranhas de um baiacu, minha irmã mais nova perguntava, lívida, ainda sem acreditar, "mãe, mãe, que que é adaga?!", minha meia-irmã caminhava a esmo, "nããão! Romeu! nããão! Julieta!", os adultos atrás, atarantados como vaqueiros no estouro da boiada, "mas olha, as famílias fizeram as pazes!", "olha, é só uma história, é de mentirinha! Quem aí quer um picolé?!". "Mortos! Mortos!", gritávamos, rolando pelas dunas, areia grudando no rosto, pequenos e trágicos croquetes pranteando o casal de Verona, que morria junto ao último sol daquele verão."
PRATA, Antonio. NU, DE BOTAS. Companhia das Letras, São Paulo, 2013.
Minha mãe propôs que caminhássemos até as pedras, que fizémos um castelo, disse até que poderia ler algo dos irmãos Grimm ou do Monteiro Lobato, mas o tédio tem uma bunda imensa: quando assenta as nádegas sobre nossas cabeças, achata toda a circunferência do mundo conhecido; para escapar de seu adiposo domínio, só encontrando alguma atividade inédita, em mares nunca dantes navegados. Conhecendo intuitivamente o antídoto, minha meia-irmã bateu os olhos no livro que se pai tentava ler e perguntou o que era. Romeu e julieta, ele disse, e não o deixamos mais continuar a leitura: "Sobre o que é? Por que eles não podiam casar? Onde fica Verona? Dá pra chegar de carro? E de barco? Pra que lado? É antes ou depois da África?".
Simplificando um pouco a linguagem, meu padrasto nos resumiu o começo da história: as famílias rivais, a festa à fantasia,, o filho dos Montéquio, a jovem Capuleto, o amor proibido. Em cinco minutos, após mais de uma hora de lamúrias, havíamos ficado quietos e atentos. Não sei se instigado por nosso interesse ou simplesmente temeroso de que voltássemos ao tédio profundo, meu padrasto resolveu abandonar a versão resumida e começar o livro pelo começo - inserindo, aqui e ali, algumas notas de rodapé.
Daquele dia em diante, quando voltávamos da birita, entupidos de Fanta Uva e pastel, sentávamos nas esteiras e, até o sol se pôr, ouvíamos a continuação da história. Mais tarde, ao nos deitarmos na cama, não queríamos saber de feijões encantados ou das reinações de Narizinho: só nos interessava o futuro do casal.
Hoje, acho que entendo o porquê do nosso interesse por Romeu e Julieta. Filhos de pais recém-separados, não nos eram nada distantes, perdidas no século XVI, situações como "amor impossível""relações inconciliáveis", "a casa dos Montéquio" e "a casa dos Capuleto". Por mais civilizados que tivessem sido os divórcios do meu pai e da minha mãe, do meu padrasto e de sua ex-mulher, em algum lugar devíamos nos solidarizar com dois jovens cujas vidas eram afetadas pelas rixas de seus antecessores. Ou, talvez, nem precisássemos ir tão longe. Afinal: o que é a infância senão uma sequência de desejos cerceados pelos adultos?
Os dias foram se passando e nós fomos ficando cada vez mais ligados ao livro. Para alongar a narrativa, minha mãe e meu padrasto se aprofundavam em detalhes, descreviam roupas e cenários, cantarolavam as músicas dos bailes, assoviavam os pios dos passarinhos, inventavam comidas, animais e plantas da floresta. Embora percebêssemos a artimanha e reclamássemos às vezes - "pula, pula, isso é sobre!", eu dizia -, eles conseguiram levar Romeu, Julieta e as três crianças firmes e fortes até o final das férias.
No penúltimo entardecer, subimos para casa com o coração na boca: o mundo tramava contra o amor proibido, Romeu havia sido obrigado a fugir para Mântua, Julieta estava prometida a Páris, mas o plano do frei Lourenço era excelente! Daria à moça um falso veneno, que a faria parecer morta. Romeu a encontraria no jazigo dos Capuleto, a acordaria do sono profundo, fugiriam para longe de Verona (Arraial do Cabo, talvez) e seriam felizes para sempre. Não era assim, afinal, que terminavam as histórias?
Eis o que se perguntavam meu padrasto e minha mãe, vez após outra, naquela insone noite de verão. Como sair da arapuca em que se haviam colocado? Deveriam profanar Shakespeare, censurando o final, fazendo, talvez, com que a carta de Julieta chegasse a Romeu via pombo-correio, em vez de viajar no bolso de um emissário? Cometeriam um hediondo anacronismo colocando ao lado da sepultura um providencial orelhão, cujo toque, no momento em que Romeu erguesse a adaga, mudaria, Deus ex machina, os rumos da história? Ou o correto seria seguirem fiéis ao enredo, Shakespeare é Shakespeare, a arte está acima de tudo, não se pode esconder a verdade das crianças, e, no fim das contas, elas sairiam fortalecidas da experiência?
Lembrem-se, era o início dos anos 80. Maio de 68 estava mais próximo de nós que a obrigatoriedade de cadeirinha para bebês no banco de trás dos carros, a discussão, portanto, sobre o que seria mais danoso às crianças - a violência da história ou da mentira - entrou noite adentro, escorando-se em Harold Bloom e Paulo Freire, Bakhtin e Piaget, Nietzsche, Freud e sabe-se lá mais quem. Já estava amanhecendo quando chegaram a uma conclusão.
Pela última vez, tomamos café sob a amendoeira, descemos a trilha até a praia, cruzamos as dunas, armamos acampamento. Lá pelas três, depois da birita, como de costume, sentamos em volta dos dois, prontos para ouvir o aguardado final de Romeu e Julieta.
Não lembro quem contou, se minha mãe ou meu padrasto. Lembro de um frio polar no estômago, de um clarão no céu, do mundo revolto como as entranhas de um baiacu, minha irmã mais nova perguntava, lívida, ainda sem acreditar, "mãe, mãe, que que é adaga?!", minha meia-irmã caminhava a esmo, "nããão! Romeu! nããão! Julieta!", os adultos atrás, atarantados como vaqueiros no estouro da boiada, "mas olha, as famílias fizeram as pazes!", "olha, é só uma história, é de mentirinha! Quem aí quer um picolé?!". "Mortos! Mortos!", gritávamos, rolando pelas dunas, areia grudando no rosto, pequenos e trágicos croquetes pranteando o casal de Verona, que morria junto ao último sol daquele verão."
PRATA, Antonio. NU, DE BOTAS. Companhia das Letras, São Paulo, 2013.
domingo, 15 de dezembro de 2013
"Momento num café
Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta."
BANDEIRA,Manuel, Poesia completa e prosa [do livro Estrela da Manhã], Ed. Nova Aguilar S.A.,Rio de Janeiro, 1985
Os dois últimos versos deste belo poema são para mim um "ovo de Colombo". À matéria não é dado morrer, como se sabe; o que morre de fato é a alma, esse lugar de toda tribulação.
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta."
BANDEIRA,Manuel, Poesia completa e prosa [do livro Estrela da Manhã], Ed. Nova Aguilar S.A.,Rio de Janeiro, 1985
Os dois últimos versos deste belo poema são para mim um "ovo de Colombo". À matéria não é dado morrer, como se sabe; o que morre de fato é a alma, esse lugar de toda tribulação.
sábado, 14 de dezembro de 2013
dos mais belos finais
"[...]. Somadas umas cousas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: - Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria."*
*ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas, Obra completa, Vol.1, Ed. Nova Aguilar S.A., Rio de Janeiro,1986
*ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas, Obra completa, Vol.1, Ed. Nova Aguilar S.A., Rio de Janeiro,1986
sábado, 7 de dezembro de 2013
um fragmento
"Axel não tirava os olhos da cachoeira. A torrente límpida, como uma coluna luminosa por entre o musgo e as pedras, mantinha inalterado seu nobre traçado por todas as horas do dia e da noite. No lugar em que a água ao rolar batia numa pedra, projetava-se uma pequena cascata, que também permanecia imutável como uma rachadura fresca no mármore da catarata. Se voltasse dentro de dez anos, encontraria a cascata inalterada,como uma obra de arte harmoniosa e imortal. Mas ainda assim, a cada segundo, novas partículas d'água eram lançadas por cima da margem, caindo no precipício e desaparecendo. Era um vôo, um turbilhão, uma catástrofe incessante.
Haverá, na vida, pensou ele, fenômenos similares? Há um modo de existir equivalente, paradoxal, um voar e fugir estático, imperturbável, clássico? Na música, existe, e é o que se chama Fuga:
D'un air placide et triomphant,
Tu passes ton chemin, majestueux enfant."
BLIXEN, Karen. In "Os invencíveis senhores de escravos", CONTOS DE INVERNO, Editora 34, Rio de janeiro, 1993
Haverá, na vida, pensou ele, fenômenos similares? Há um modo de existir equivalente, paradoxal, um voar e fugir estático, imperturbável, clássico? Na música, existe, e é o que se chama Fuga:
D'un air placide et triomphant,
Tu passes ton chemin, majestueux enfant."
BLIXEN, Karen. In "Os invencíveis senhores de escravos", CONTOS DE INVERNO, Editora 34, Rio de janeiro, 1993
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Lúcifer*
Fabricados
de pura luz pela mão direita de Deus, serviam-lhe os Anjos de lenitivo à
solidão divina. Concebeu-os como instrumentos em que pudesse interpretar-se a
si mesmo, em sua melodia essencial – a inefável perfeição do silêncio criador.
Haverá
maior solidão que a solidão divina? Criar, criar, de palmas abertas, dando
sempre e apenas dando, sem nada receber? Assim, ao menos, na lúdica assistência
da corte angelical, podia entregar-se à ilusão de ouvir-se a si mesmo,
repercutido em eco, ou retratar-se no espelho dos puros espíritos. Não de outro
modo, na escala humana, um grande poeta apura o ouvido para ouvir-se nos
outros, com inquieto amor próprio, já que não lhe é concedida a graça de mudar
de pele, para respirar um pouco, desobrigado enfim dos compromissos de sua
consagração.
Na fábrica
dos Anjos, bastou a Deus uma cintila dos olhos para transmitir-lhes um pouco do
seu próprio resplendor. O fogo divino acende o fogo da vida em todas as coisas;
sua luz traspassa de luz a própria sombra, que não é senão a confirmação dessa
presença luminosa pelos corpos opacos. Se a matéria, ao receber a luz, é
obrigada a tranformá-la em sombra, o fato mesmo da presença da sombra já está
proclamando a luz.
Os Anjos
todos até então se tingiam das inevitáveis oscilações prismáticas da meditação
criadora. A uns, concebidos na mais profunda altitude do empíreo, deu-lhes a
graça divina o azul, essa vertigem do olhar, que é uma ilusão da distância. A
outros, incendiou-os com o chamejamento das pupilas, e, a um bater de asas,
abriam largos sulcos de fogo, ateando incêndios aurorais no espaço.
Pergunto
eu: Quem traça no Céu aquelas riscas de sete cores, miragem de uma ponte
projetada no ar? E respondo: Os Anjos, quando louvam o Senhor em vôos
concêntricos, entoando: Hossana! Só lá no Céu seria possível compreender o que
significa uma sinestesia, ao ouvir-se o arco-íris de todas as legiões celestes
vibrando em sonoridades multicoloridas, coro feito de todas as cores. A cada
categoria dessa milícia espiritual, Anjos, Arcanjos, Potestades, Virtudes,
Dominações, Querubins e Serafins – corresponde uma cor simbólica e um emblema,
segundo a exegese mística dos tratados de lapidação. Assim, por exemplo, o
verde é a cor angélica e a esmeralda o seu emblema.
Em certas
condições, todavia, esses puros espíritos podem mudar de cor. Sabido é que
William Blake ceerta vez viu um Anjo ficar azul, de santa indignação, passando
aos poucos a amarelo, branco – e finalmente, já pacificado, parecia sorrir, de
tão róseo. E quem não acompanhou com olhos abismados no horizonte cada vez mais
profundo, ao raiar da madrugada, aquelas cambiantes esmaecidas em novas
cambiantes, que são o sinal mais certo de uma festa no Céu? Do outro lado de
oceanos de nuvens, legiões de Anjos em revoada celebram o eterno dia do Senhor,
cantando: - Santo, Santo é o teu nome! Para sempre amanhecem as tuas obras,
cada vez mais orvalhadas e radiosas, como no primeiro dia da Criação!
Ora, -
assim rezam as crônicas do Céu e do Inferno – o coro celestial era a princípio
de uma unissonância para nós quase inconcebível, monodia da rosa mística na
irrespirável pureza do empíreo.
Mas, como
há sempre uma superação das perfeições, e até Deus, em virtude da onipotência,
é obrigado por si mesmo a superar-se, momento houve em que, da incessante
sublimação dos puros espíritos, brotou a suprema pureza, como da superação das
cores afinal se irradia a cor suprema, que é o Branco.
Lúcifer
nasceu da própria fulguração da luz branca, e nasceu com ele a inquietação da
beleza. Criara-o Deus como um filho dileto, já mais próximo da compreensão
divina. Dera-lhe, como a Gabriel, Miguel, Azrael, Uriel e Rafael, não só a
fulminante rapidez do pensamento, mensageiro que leva aos confins do mundo a
mensagem do Senhor, e o dom musical de modular ao mesmo compasso do Verbo, mas além
disso, não sei que indefinível graça, talvez sutileza, inquietação, melancolia
contemplativa... Deu-lhe ainda, mistura de tudo isto, para mais e melhor,
aquela consciência da fragilidade na plenitude que só muito mais tarde e depois
da queda viria a chamar-se: ironia. Quando Lúcifer nasceu, a estrela da manhã e
a estrela da tarde cintilaram do mesmo fulgor pensativo.
Fria,
distante, lúcida era a estrela de Lúcifer, e um leve halo azulíneo cingia-lhe a
fronte, como diadema. Resplandecia tanto, na sua perfeição, que a seu lado os
outros Anjos anoiteceram, por força de contraste. Murmuram as crônicas
infernais que assim começaram as intrigas na corte celeste. Suporta-se com
humildade a ofuscação do próximo, diziam alguns espíritos impuros, decaídos do
primor antigo. De qualquer modo, sobre esta sovada questão as glosas de que
disponho se desentendem muito. Ela engravidou em discussões intermináveis,
graças à argúcia dos teólogos e seu conhecido amor à controvérsia. Eu por mim
prossigo na cópia do meu apógrafo, sem mais delongas.
No primeiro
olhar de Lúcifer sentiu o Senhor que ele próprio criara um princípio
subversivo, ao conceber a sua criatura mais perfeita. No primeiro olhar do
Senhor sentiu Lúcifer que acabava de ser criado para ser condenado,
- O excesso
de perfeição já não é perfeição, - assim dizia com seus abismos o supremo
artífice – pois a verdadeira perfeição não vai sem justa medida. Com demasiado
amor o engendrei da mais pura essência de mim mesmo, luz de seio a seio, hálito
de boca a boca, e sinto que já não obedece à amorosa pressão dos meus dedos,
onde latejava a sua forma ideal... Amar e criar é fácil para a sabedoria
divina; mais difícil é ser amado pela criatura, isto é, ser compreendido, mesmo
pelos puros espíritos moldados à minha semelhança. Pois, quando apenas há
reflexo, já não há desejo de compreender e, sim, uma simples reprodução. Deste
filho dileto esperava eu um gesto espontâneo, um movimento livre, um primeiro
passo...
Tudo isto
ia lendo Lúcifer no semblante formidável do Senhor, como num livro aberto.
Sentia-se enjeitado, antes do primeiro gesto.
Falou,
então, e havia uma risonha placidez na sua voz, um brilho calmo no olhar. A
estrela parecia dançar-lhe na testa, a cada palavra:
- Senhor,
aqui estou, e bem sabes que a minha presença já é uma confirmação da tua
vontade. Eu por mim não ignoro a alta sabedoria dos teus desígnios, sabendo que
fui criado apenas para ser condenado. Não há rebelião mais ameaçadora na corte
celeste do que a transparência de um pensamento sereno, que logo vai mostrando
na cor dos olhos a cor das intenções. Bastou um olhar para sentenciar-me. E não
obstante, sou eu talvez o único puro espírito capaz de compreender-te,
confirmando ao mesmo tempo a grandeza e a perfeição da tua obra. Sabias que não
era possível dialogar verdadeiramente se ficasses no monólogo divino, repetido
pelos Anjos, espécie de ventriloquismo sublime, porém um tanto enfadonho, e
decerto áulico, cheirando a murmuração louvaminheira.. E assim, tu me
convocaste e aqui estou, Senhor, para o primeiro diálogo da Criação. Não sei
afinar muito bem pelo coro dos Anjos, mas é dessa fraqueza mesma que decorre a
possibilidade de um diálogo. Além disso, uma voz a menos, nesse empostado coro,
que diferença poderá trazer ao concerto final das hossanas? Tu é aquele que é,
aquele que é sempre, e só ele para sempre – ao passo que todos nós, simples
espíritos puros, servimos quando muito de apagado eco à confirmação da tua
eternidade, débeis reflexos da tua onipotência. Mas, pergunto eu, onde está em
tudo isto o verdadeiro diálogo? Só do contraste, da falha, da fragilidade
ameaçada poderia provir o balbucio de um diálogo vivo e então sim, não apenas
monótono ou divino, mas contrastado, sofrido, trágico...
“Senhor,
basta de prólogo nos bastidores do Céu, entre nuvens e harpas, com a fria assistência
de puros espíritos. Não há boa tragédia sem o concurso da Morte e do Tempo.
Aproveita, pois, o estranho animal sem asas que acabaste de criar, para
escândalo dos Anjos. Ele vive a trepar nas árvores do Paraíso, a provar de
todas as frutas, a puxar pela cauda de todos os animais. Já lhe deste uma
companheira que é, mais do que ele, um desafio à nobilitação angelical da
forma. Dá-lhe agora o medo da Morte, além da consciência na vontade; dá-lhe a
angústia do irreversível, o suplício da recordação feliz, do paraíso perdido e
do irrecuperável; dá-lhe a um só tempo a insatisfação constante e a ilusão da
plenitude, para que não se acabe o sofrimento. Sairemos então do solilóquio
divino, e começará o verdadeiro diálogo”.
E Deus viu
que era bom, isto é, ao mesmo tempo mau e bom, pois indispensável era o
concurso do mal, e sem ele a obra da criação não passava de um insosso prólogo
celeste, monologado e sem graça. E maravilhava-se da arte com que sabia
escrever direito por linhas tortas, criando Lúcifer. E como, a um silêncio
mortal, sucedera um crescente sussurro de enxames de abelhas irritadas, traçou
no ar um imenso gesto de reprovação.
- Senhor,
tu és perfeito em tuas obras! Confirmou logo o coro.
Mas o
Senhor, dando execução imediata ao diálogo, trovejou:
- Adão,
onde estás?
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
domingo, 13 de outubro de 2013
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