sábado, 29 de junho de 2019

vestígios da delicadeza em tempos de barbárie

Meu marido, que é professor de literatura, pede-me ajuda para abrir sem estragar uma caixinha de origami, leve e minúscula - coisa de três centímetros -, que parece conter algo igualmente leve. A caixinha foi deixada em seu escaninho na universidade, junto com um elefantinho também de origami e um bilhete, escrito com caligrafia muito clara e também minúscula, sem assinatura. O bilhete diz o seguinte:

"Quis transformar um sentimento ruim num bom sentimento.
Por isso, te presenteio. É um elefante fabricado com meus poucos recursos e uma caixinha que abriga estrelas da manhã.
É papel, tudo feito de papel. Muito simples.
Obrigada pelas aulas, professor."
                                                                             "Junho/2017"

Minha "engenharia", de que meu marido se socorre toda vez que precisa lidar com coisas manuais ou prosaicas, serviu-me com folga para abrir a caixinha, mas não para fechá-la de volta, de modo que as estrelas estão sempre em risco de se extraviarem num armário de coisas improváveis que mantemos em casa.
 Para quem não é chegado à literatura, "elefante fabricado com meus poucos recursos" e "estrelas da manhã" são referências aos poetas Drummond e Bandeira.

Nenhum comentário:

Postar um comentário