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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Por que as mulheres comem restos


(imagem de Petr David Josek)
Depois que meus filhos nasceram há coisas que eu só como se sobrarem: a última porção que ficou na travessa depois que todos já se empanturraram, ou, o que é mais comum (sob engulhos e vaias da platéia indignada), as aparas, os restos rejeitados do prato de cada um. Meu marido atribui esse hábito feio a um abominável franciscanismo de que gosta de me acusar; no fundo ele sabe que não se trata disso, pois já me contou que sua primeira mulher fazia coisa parecida. Ora, eu não conheço mulher “normal” que não o faça. Que me atire a primeira pedra a mãe – mãe normal - que consiga abrir e comer sem culpa um danoninho inteiro, limpinho e só dela, ainda que a geladeira esteja abarrotada de danoninhos.
Eu já contei aqui que tivemos uma cadela, criatura elegante e de espírito refinado, chamada Olívia. A Olívia, quando tinha filhotes já taludos, em idade de consumir comida sólida, era incapaz de se servir de qualquer bocado que já não estivesse bem roído, babado, revirado, triturado em mil pedacinhos e disperso pelo quintal pela criançada. Se a separávamos dos filhotes bem saciados e insistíamos que aceitasse de nossa mão um belo pedaço de carne, por exemplo, ela educadamente o abocanhava e ficava por ali disfarçando, até que finalmente conseguisse entregar a guloseima aos miúdos. Se daí sobrasse alguma coisa, ela comia.
Pois as mulheres, como as fêmeas de qualquer espécie, têm impulsos atávicos que os homens são incapazes de compreender.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Mais um

"No aconchego da grande mãe

Durante quarenta anos gerou filhos que, ampla e generosa, continuava a abrigar no ventre passado o tempo da gestação. Por que atirá-los no mundo se, mãe, a todos podia conter e alimentar?
Achando porém necessário dar-lhes boa educação, fez quatro vezes o serviço militar para atender às necessidades cívicas dos seus filhos homens, e completou oito cursos de corte e costura para garantir o futuro de suas filhas mulheres.
Já estava quase chegando à velhice, quando a doçura de netos começou a lhe parecer mais desejável do que tudo. Não resistindo, deitou-se enfim no centro da cama e, abertas as poderosas coxas, começou o esforço. Em vão suou lençóis e fronhas, em vão inchou as veias do pescoço. Passadas horas, passados dias em que sem descanso lutava para expelir, compreendeu: por amor e segurança seus filhos se recusavam a deixá-la. Nunca seria avó.
Então a tristeza abateu-se sobre ela. Emagreceram as pernas, emagreceram os braços. Só a barriga não emagreceu, vagando imensa pela casa. Mas a pele se fez cada vez mais fina, e em certas horas da manhã, quando a luz bate clara e penetrante sobre o ventre de opalina, já se podem ver os rapazes garbosos na ordem unida, e as moças que cosem infindáveis camisolas."

Marina Colasanti, InUM ESPINHO DE MARFIM o outras histórias, L&PM Editores S/A, Porto Alegre, 1999

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Ninguém fala dessa bela escritora


Sem novidades no front

Esperava que o marido voltasse da guerra. Durante os primeiros anos, quando ele certamente não chegaria, preparou compotas. Depois, a partir do momento em que o regresso se tornava uma possibilidade iminente, assou pães, e a cada semana uma torta de peras, enchendo a casa com o perfume açucarado que, antes mesmo do seu sorriso, lhe daria as boas-vindas.
Um dia chegou o vizinho da frente. No outro chegou o vizinho do lado. E seu marido não chegou. Voltaram os gêmeos morenos. Voltaram os três irmãos louros. E seu marido não voltou. Aos poucos, todos os homens da pequena cidade estavam de volta a suas casas. Menos um. O seu.
Paciente, ainda assim ela espanava os vidros de compotas, abria em cruz a massa levedada, e descascava peras.
Há muito a guerra havia terminado quando a silhueta escura parou hesitante frente ao seu portão. Antes que sequer batesse palmas, foi ela recebê-lo, de avental limpo. E puxando-o pela mão o trouxe para dentro, fez que lavasse o rosto na pia mesmo da cozinha, sentasse à mesa, enfim um homem no espaço que a ele sempre fora dedicado.
Encheu-lhe o copo de vinho, serviu-lhe a fatia de torta. Profunda paz a invadia enquanto o olhava comer esfaimado. E, esforçando-se para não perceber que aquele não era o seu marido, começou a fazer-lhe perguntas sobre o front.

Marina Colasanti, In “UM ESPINHO DE MARFIM e outras histórias”, L&PM Editores, S/A, Porto Alegre, 1999.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Cecília 2



Confesso que nunca me acertei muito bem com essa poeta: às vezes o rigor da forma explícita (o rigor da forma sutil me agrada muito, veja-se em Carta, de Drummond, que é um soneto e nem se percebe; eu pelo menos não percebi até que me apontaram), muitas vezes as rimas que me martelam no ouvido, às vezes um lusitanismo que me assusta ... enfim, não é a minha poeta e para dizer exatamente o porquê eu teria que me dedicar a ela de cabo a rabo. Eu gosto nela é do “feminino”, coisa pela qual tenho certa obsessão, ainda que não saiba precisar exatamente o que seja. Mas o que quer que seja é quase sempre curto e sem heroismo.
Alguns exemplos:


Valsa

Fez tanto luar que eu pensei nos teus olhos antigos
e nas tuas antigas palavras.
O vento trouxe de longe tantos lugares em que estivemos
Que tornei a viver contigo enquanto o vento passava.

Houve uma noite que cintilou sobre o teu rosto
E modelou tua voz entre as algas.
Eu moro, desde então, nas pedras frias que o céu protege
E estudo apenas o ar e as águas.

Coitado de quem pôs sua esperança
Nas praias fora do mundo...
- Os ares fogem, viram-se as águas,
Mesmo as pedras, com o tempo, mudam.



Pausa

Agora é como depois de um enterro.
Deixa-me neste leito, do tamanho do meu corpo,
junto à parede lisa, de onde brota um sono vazio.

A noite desmancha o pobre jogo das variedades.
Pousa a linha do horizonte entre as minhas pestanas,
e mergulha silêncio na última veia da esperança.

Deixa tocar esse grilo invisível
- mercúrio tremendo na palma da sombra -
deixa-o tocar a sua música, suficiente
para cortar todo arabesco da memória...



Desventura

Tu és como o rosto das rosas:
diferente em cada pétala.

Onde estava o teu perfume? Ninguém soube.
teu lábio sorriu para todos os ventos
E o mundo inteiro ficou feliz.

Eu, só eu, encontrei a gota de orvalho que te alimentava,
como um segredo que cai do sonho.

Depois, abri as mãos, - e perdeu-se.

Agora, creio que vou morrer.

Cecília Meireles, OBRA COMPLETA, José Aguilar Editora, Rio de Janeiro, 1967

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Das tias



Há felizardos que têm/tiveram avós amáveis e amorosas, dessas que acabam por se transfigurar em personagens míticas da infância mítica. Eu não tive essa sorte, mas tive outra: a de muitas tias adoráveis, as de sangue e as que vieram por consórcio com meus tios. Posso dizer que gostei de todas, mas algumas desempenharam em minha vida um papel de conforto e aconchego de que elas talvez nem suspeitem. A tia cujo vulto se vê nesta foto é uma destas, e esta foto, aliás, diz muito da maneira como eu a vejo: uma criatura densa e delicada, que vive tudo discreta e delicadamente, envolta sempre num delicado mistério. Se essa minha tia fosse um objeto, seria uma dessas caixinhas minúsculas de porcelana, de extravagante delicadeza.

A foto é de Zaclis Veiga, do www.operadorfotografico.blogspot.com/

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Uma verdadeira dama, ainda que não resistisse a rolar na carniça

A Olívia apareceu misteriosamente em nossa vida em 1990; imagino que fosse a última de uma ninhada de filhotes, pois já era de tamanho adulto quando chegou, e que, sem conseguir quem a adotasse, tenha sido abandonada à própria sorte em nossa rua. Tirando meu pai e minha prima Têca, foi, de longe, a criatura mais elegante e delicada que conheci. Na presença dela tive sempre a sensação de estar diante de um espírito depurado, de um ser superior a quem eu devesse reverenciar.
Como em geral acontece com os cachorros, apaixonou-se perdidamente por meu marido. De manhã, se ele trabalhava em casa, acompanhava-o até o escritório e ficava por lá o tempo que ele ficasse. Se ele estava fora, e era, ao final do dia, hora de chegar, ela postava-se no meio da rua com as pernas dianteiras cruzadas, as almofadinhas das patas contra o asfalto, o focinho firmemente apontado para diante e as orelhas em posição de parabólicas; quando um desses sensores anunciava a presença dele na esquina, ela atirava-se em desabalada carreira para encontrá-lo, festejá-lo e percorrer com ele o restante do trajeto até nossa casa, exibindo-o e exibindo-se aos outros cachorros da rua, que, presos, latiam furiosamente inconformados com a dupla provocação: a de ela andar solta e perto do dono.
Entretanto, quando ela tinha filhotes a presença dele deixava-a sempre ligeiramente estressada, coisa, aliás, que não era de espantar, porque ele era tomado por uma espécie de “amor de mula”: volta e meia lá estava ele a cobrir os cãezinhos de beijos, a mordiscar orelhinhas e rabinhos. Já para as últimas ninhadas ela conseguiu retirar uns tijolos de uma churrasqueira velha no fundo do quintal e fez lá dentro dela uma toca praticamente inacessível. Nos primeiros dias ele se continha, respeitava o arranjo; mas, estando a criançada mais taludinha, e a mãe saindo da toca para cuidar um pouco de si mesma, ele dava um jeito de alcançar algum bichinho e trazê-lo para fora. Quando nessas ocasiões ela me buscava pela casa, e com o olhar e gestos aflitos me pedia que a acompanhasse, eu entendia que devia segui-la até o local e passar uma descompostura em meu marido para que ele deixasse em paz os nenéns, após o que ela retomava o seu posto, até o próximo episódio.
Com os meus filhotes ela era extremamente cuidadosa. Uma das lembranças mais delicadas que tenho da Olívia é a dela tentando pegar um pedaço minúsculo de biscoito bem babado que meu filho neném lhe oferecia, sem tocar nos dedinhos, mas sem desistir, pois além de tudo ela era incapaz de recusar qualquer coisa que lhe oferecessem, nem que fosse para ir jogar no quintal, como acontecia quando algum desavisado lhe oferecia uma salsicha, por exemplo.
Infelizmente não tenho uma boa foto dela para mostrar aqui. Mas ela era uma viralata comum, do mesmo tamanho, da mesma cor e muito muito parecida com a princesa Karina, que tem aparecido neste blog. O olhar era um pouco mais doce.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Do caráter das mulheres

Insisto sempre com meus filhos que é possível ter um primeiro e importante indicador do caráter de uma mulher simplesmente fotografando-a. E fotografando-a de modo que ela se saiba fotografada, e que possa, se quiser, compor-se antes do clique: arranjar os cabelos, acertar as sobrancelhas, ajeitar a gola, aprumar as costas, essas coisas que nós mulheres fazemos instintivamente na presença de uma câmera. Nada disso importa, na verdade. O que importa é que ela não seja apanhada de surpresa; que saiba, repito, saiba que vai ser fotografada. Se para a foto ela entortar para um lado a cabecinha, fazendo cara de meiga, é melhor sair de fininho, pois se trata de uma jararaca. Só as jararacas fazem cara de meiga para a foto.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Orides Fontela

Os que conheceram de perto a poeta Orides Fontela (1940-1998) dizem que ela era uma pessoa intratável. Eu tive uma pequena amostra disso durante o lançamento de seu livro "Trevo", em 1988, na livraria Duas Cidades: embora já conhecesse e admirasse sua poesia, estava eu lá por acaso, pois não costumo ir a esses eventos; mas, já que estava lá, resolvi pedir-lhe o autógrafo em meu exemplar de seu livro (e ela estava lá justamente para isso), logo eu, que nem sou chegada a esses fetichismos. Como ela estivesse conversando com alguém, com certeza um amigo para quem acabara de autografar, postei-me a uma distância respeitosa da mesa de autógrafos, aguardando minha vez. Depois de me cozinhar por uns dez minutos nessa espera, ela finalmente me olha com desprezo, dizendo para o amigo: "iih, lá vem burocracia...". Eu, que na época era mais tolerante e já conhecia sua fama de louca, só achei engraçado. Se fosse hoje teria acertado o livro na cabeça dela.

Para mim, sua obra representa o mais puro FEMININO (o de verdade, não aquele para os rapazes babarem), que se expressa pela limpeza, pela economia, por só o absolutamente essencial, pela ausência absoluta de idealismo.
A seguir, alguns exemplos.


INICIAÇÃO

Se vens a uma terra estranha
curva-te

se este lugar é esquisito
curva-te

se o dia é todo estranheza
submete-te

- és infinitamente mais estranho.


HERANÇA

Da avó materna:
uma toalha (de batismo).

Do pai:
um martelo
um alicate
uma torquês
duas flautas.

Da mãe:
um pilão
um caldeirão
um lenço.


KANT(RELIDO)

Duas coisas admiro: a dura lei
cobrindo-me
e o estrelado céu
dentro de mim.


REBECA

A moça de cântaro e
seu gesto essencial: dar água


PIRÂMIDE

Ei-la
dor de milhares força
de humanidade
anônima

(do faraó
nem cinzas).


NOTURNO

Os que nascem de noite
e, entre ossos, vigiam
o fogo
os que olham os astros
e, oprimidos, respiram
em cavernas

os que vão viver apesar
da escuridão e nos olhos
a luz clandestina
acendem

os que não sonham, os que nascem
de noite
não vieram brincar: seu peito
guarda uma só palavra.


AS COISAS SELVAGENS

- a firme montanha
o mar indomável
o ardente
silêncio -

em tudo pulsa e penetra
o clamor
do indomesticável destino.


CORUJA

Vôo onde ninguém mais - vivo em luz
mínima
ouço o mínimo arfar - farejo o
sangue
e capturo
a presa
em pleno escuro.


BODAS DE CANÁ

I
Da pura água
criar o vinho
do puro tempo extrair
o verbo.

II
Milagre (anti-
milagre)
era tornar em água
o vinho
vivo.

III
A água embriaga
mas para além do humano: no amor
simples.

IV
Para os anjos a
água. Para nós
o vinho encarnado
sempre.


DOM QUIXOTE

És filho do desejo e do espírito
e(como a carne é impureza) a loucura
não te salva de ser, e cais

Triste Figura mesmo
se o delírio te eleva
à potência do abismo

Triste Figura mesmo
na alta planície em que
eternizado, morres

herdeiro do desejo e do espírito.


Orides Fontela, in "Trevo", Ed. Duas cidades, São Paulo, 1988

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A fazenda africana




Karen Blixen (1885-1962), escritora dinamarquesa, manteve por uns quinze anos uma fazenda de café no Quênia, nas proximidades de Nairóbi. Vendida a fazenda por motivo de falência iminente, ela se retira para sempre da África, experiência bastante dolorosa que ela relata em seu livro autobiográfico "A Fazenda Africana". Hollywood adaptou livremente essa história para um filme, "Entre dois amores", que, visto depois de se conhecer a poderosa narrativa da escritora, parece bem chulé.
A propósito da natureza das relações de amizade entre mulheres, transcrevo abaixo uma página belíssima e imperdível desse romance, em que ela narra a visita de uma amiga, por ocasião de sua derrocada como fazendeira.


"Foi nessa época – embora antes de eu me desfazer dos cavalos – que Ingrid Lindstrom deixou sua fazenda para passar um tempo comigo. Este foi um grande gesto de amizade da parte dela, pois relutava ao máximo em se afastar da fazenda. [...] No fundo de seu coração, Ingrid entendia e percebia, com toda a intensidade, com algo da força dos próprios elementos, o que de fato significava para uma mulher fazendeira ter de desistir de sua terra e abandoná-la.
Enquanto Ingrid ficou ao meu lado, não falamos do passado nem do futuro, e tampouco mencionamos o nome de qualquer amigo ou conhecido. Em vez disso, concentramos nossos espíritos no desastre que se abatera sobre mim. Caminhamos juntas de um lado para o outro da fazenda, nomeando todas as coisas à medida que as víamos, uma após a outra, como se estivéssemos elaborando mentalmente um relatório da minha perda, ou como se Ingrid estivesse, em meu nome, reunindo material para um livro de reclamações a ser apresentado ao destino. Por sua própria experiência, Ingrid sabia muito bem que não existe nenhum livro como este, mas mesmo assim a ideia de algo parecido é inseparável de nossa existência como mulheres.
Fomos até a boma do gado, e ali sentamos na cerca, contando os bois à medida que passavam. Sem nada dizer, eu os apontava para Ingrid: “Esses bois”, e, igualmente muda, ela respondia: ”Sim, esses bois”, e os registrava em seu livro. Em seguida, seguimos para o estábulo, a fim de dar açúcar para os cavalos e, quando haviam terminado, eu esticava minhas mãos pegajosas e lambidas, e os apresentava a Ingrid e chorava: “Esses cavalos”. Ela suspirava longamente de volta: “Sim, esses cavalos”, e também os incluía no livro. Na horta à beira do rio, foi difícil para ela aceitar a ideia de que eu deixaria as plantas que trouxera da Europa, e retorcia as mãos sobre os canteiros de hortelã, sálvia e lavanda, e até mesmo voltou a falar delas mais tarde, como se estivesse elaborando algum plano que me permitisse levá-las comigo.
Passamos a tarde contemplando meu pequeno rebanho de vacas nativas que pastavam no gramado. Repassei suas idades, características e capacidade de produzir leite, enquanto Ingrid gemia e se lamentava, como se estivesse sofrendo em sua própria carne. Examinou cada um dos animais com toda a atenção, não por vislumbrar a perspectiva de ficar com eles, pois todas as minhas vacas já haviam sido prometidas para os criados, mas a fim de avaliar e pesar as minhas perdas. E se apegou sobretudo aos dóceis e cheirosos bezerros; ela própria, após muitas dificuldades, conseguira colocar algumas vacas com bezerros em sua fazenda e, sem qualquer motivo, contra sua própria vontade, lançou-me olhares profundos e furiosos que me culpavam por abandonar meus bezerros.
Creio que, ao lado de um amigo que tivesse sofrido uma grande perda, um homem que ficasse repetindo para si mesmo a frase “ainda bem que isso não aconteceu comigo” acabaria sentindo-se mal com isso e tentaria suprimir tal sentimento. Mas as coisas se passam de outro modo quando duas mulheres são amigas, e uma delas manifesta sua profunda simpatia pelo infortúnio da outra. É evidente que, também neste caso, a amiga mais afortunada ficará o tempo todo repetindo que “graças a Deus, isto não aconteceu comigo”. Tal ideia não provoca nenhum sentimento ruim entre as amigas, mas é algo que as aproxima e introduz na situação um elemento pessoal. Na minha opinião, os homens não são capazes de admitir, de maneira fácil ou harmoniosa, sua inveja ou seu triunfo uns sobre os outros. Mas é óbvio que a noiva triunfa sobre suas damas de honra, e que as visitantes invejam uma mulher que acabou de dar à luz – mas ninguém se sente mal por causa disso. Uma mulher que perdeu o filho pode muito bem mostrar as roupas deste a uma amiga, com plena consciência de que esta provavelmente está dizendo para si mesma “graças a Deus não foi comigo” – e para ambas aquilo seria natural e adequado. E foi bem isto que ocorreu entre mim e Ingrid. Enquanto percorríamos a fazenda, eu sabia que ela estava pensando em suas próprias terras, exultando com a própria sorte de ainda ser uma proprietária, e agarrando-se a isto com todas as suas forças – e isto não afetava em nada nossa amizade. A despeito de nossas gastas calças e blusas de brim, nós éramos na verdade uma dupla de mulheres míticas, envoltas respectivamente em panos brancos e negros, indissoluvelmente unidas como os gênios da vida dos fazendeiros na África."

Karen Blixen, In A fazenda africana, Ed. Cosac Naify, 2005, pg 414-417

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

"Inquebrantada linhagem

Por onde vou, no jardim,
cato gravetos.
Antigo destino me leva a escolher
entre verdes
aquilo que está seco, ossos mortos
sem seiva
que a árvore abandona.
Nenhuma panela espera a magra chama
nenhum frio me obriga a essa colheita.
Vou de cabeça baixa
garimpando
e faço feixes que levarei às costas
ou nos braços
até lugar nenhum
apenas para juntar-me à fila interminável,
inquebrantada linhagem de fêmeas que
como formigas colhem
e levam
e colhem e levam
e colhem
porque esse é o seu lote."

Marina Colasanti, In "Fino Sangue", Ed. Record, Rio de Janeiro, 2005