"Dei por ela já na letra da primeira carta.
É sabido que, muito antes das palavras, é a letra pessoal que desenha todos os significados essenciais, aqueles que os olhos recolhem diretamente, sem precisão de idioma ou dicionário.
A carta era para mim, as palavras desenhavam-se para mim, tanto quanto a
a letra era inteiramente dela, espelho fidedigno onde com método ela se arrumava e se enxergava a cada vez que escrevia. Seus dedos, que adquiriram instrução própria, queriam mais saber e dizer, e o faziam propondo linhas e sinuosidades incontáveis, num desenho que corria com aquela força e aquela autonomia que falam e assinam por si.
Estava condensado nos contornos da letra o sentido fundo da curta mensagem, alvoroçando minha tarde que ameaçara ser igualzinha a tantas e tantas outras que passo nesta sala de algum trabalho e muita distração. Que a carta viesse de onde vinha já era estranho, pois não conhecia ninguém daquela cidade, e nem de longe o nome da remetente. Isso já era um evento espetacular em meio à rotina da minha mesa com as gavetas cheias de manuscritos muito lidos ou exercitados.
Certa vez uma escritora, celebrada na roda dos leitores comuns, me disse que os detalhes mais prosaicos são essenciais na prosa, que é preciso costurar fatos e pessoas, e que eu tinha de me livrar daquela obsessão confiante pela letra manuscrita, pelos desenhos caligráficos, pelo ritmo do pulso, se quisesse escrever alguma história digna do nome. Mas preferi atender minha vocação para outras histórias, como esta, sem no entanto jogar fora de todo aquele conselho - tanto que passo a vos informar que: a) sou professor de literatura; b) ocupo, portanto, um específico e singular degrau da classe média; c) tenho um escaninho (com chave) para a correspondência; d) foi dele que, naquela tarde, retirei a dita carta; e) tendo em seguida subido até minha sala, onde passo as tardes; f) as quais costumam ser demoradas e contemplativas, entre as inscrições e os experimentos do meu ofício.
Era morno meu estado de espírito, antes que meus olhos se agitassem com a letra do envelope, logo em seguida aberto - pois já o sobrescrito anunciava um convite urgente para o início de uma grande paixão. E era. Li isso em cada variado pingo de "i", em cada voluta de "v", em cada derramado "m", sobretudo se seguido de "u" e "n", como em "mundo", nome que ali desenhava uma ondulação contínua com vibração íntima e nervosa – mas logo controlada por um travessão cortante e cheio de respiração. Nossa profissão nos deixa espertos, com este olhar aplicado às letras, escavando-as tanto que o assim chamado "sentido" das palavras e frases se conforma a seu papel secundário, de desprezível relevância. Com esse treino, tornamo-nos especialistas na operação de surpreender, por diligência analítica e dirigida sensibilidade, o passo antes da intenção, o motivo antes do movimento, a fala anterior, interior e posterior à suposta mensagem.
Passei em seguida, com tédio, a ler convencionalmente as palavras, em suas vagas indicações. Pouco vos direi delas, pois nem de longe serviam à verdade que eu já decifrara com segurança no formato expressivo das inscrições. Era uma carta de amor, não havia dúvida, disfarçada num pedido de informação que uma estranha dirigia a um estranho, a propósito de um estranho livro que, estranhamente, ninguém, além dela, havia admirado.
Conhecia-o eu, que o havia escrito e que o esconjurara desde que o manuscrito passara pela máquina de escrever de alguém, de onde saiu para uma gráfica e, como última aberração, se imprimira e se distribuíra por algumas livrarias. Aquela coleção de poemas custosamente desenhados em muitas tardes vagas, ao longo de anos e anos de sala, fora toda apagada pela esterilidade da escrita industrial. Naquele tempo, eu não suspeitava da extensão desse assassínio tipográfico, do alcance dessa traição. Quando vi, era tarde, e fiquei meses e meses sem desenhar de próprio punho qualquer palavra, voltado inteiramente para a minha tarefa principal – qual seja, a de surpreender, sob o tom e a derivação do assunto aparente, o motivo original de cada autor de letras, sobre as quais ainda não se erigira a lápide da impressão mecânica ou eletrônica. Tenho certeza de que se um dia cometerem a insanidade de submeter este manuscrito a tal insídia, havereis, alguns de vós, de me vingar plenamente, buscando-me e adivinhando-me vivo nesta caligrafia original e nestes arabescos essenciais, traçados por meus dedos.
Respondi imediatamente à carta, como bom profissional, imprimindo uma confidência a cada toque do lápis, entremeando as inscrições com precisos espaços, variados conforme a transposição do fôlego. Resultou um dos meus melhores inscritos, cada parte levando ao todo, o todo supondo cada parte, tudo integrado num aspecto denso e orgânico, ao qual não faltou sequer, sob a filigrana da assinatura, o requinte de um P. S. seguido de nada, qual uma fermata na pauta de uma sonatina. Não me lembro exatamente o que pretextavam as palavras casuais; creio que me vali de assuntos variados, como a carestia, a questão das patentes e a já iminente decisão do campeonato paulista.
Passaram-se semanas sem qualquer outra alteração na rota. O curso do semestre já ia pelo fim, e eu receberia dos alunos uma tonelada de manuscritos para avaliar. Com muita aplicação entortava eu uma curva aqui, desentortava outra, refazia um segmento de desenho, apagava um traço morto, para anular o intervalo entre a intenção e o gesto. Em certos casos, era impossível: o adestramento automatizado dos dedos deixava subentendida a odiosa digitação mecânica, que se mostrava uniformizando por si o aspecto mais pessoal da letra e tentando remeter o leitor ao famigerado "sentido" daquelas "palavras" vazias. Tempos bárbaros.
Mas um dia abri o escaninho e outra carta – agora mais que familiar – se apresentou, sempre a lápis número 2 bem apontado, tão coerente e clara como a primeira. Não fosse a ansiedade humana, eu não teria por que correr a abri-la, sabendo, já pelo sobrescrito, a doce matéria que na folha se abriria. O pretexto de suas palavras era algum desconcerto com minha resposta, que ela fingia não entender, supondo mesmo que eu houvesse trocado envelopes e remetido a ela o que seria de outrem. Reforçava, ainda, as mesmas palavras pretextuais da carta anterior, solicitando agora uma resposta objetiva e bem endereçada...
Encantou-me tanta malícia. A sensualidade da letra fora levemente reprimida, passando agora um recado anda mais subliminar e fino, que seduziu por completo meus olhos de "expert". A sutil censura alargava o calibre de emoção do desenho todo, que em alguns trechos chegou a me excitar a vista, quase confundindo minha interpretação. Tratava-se, é claro, de uma profissional. Em anos de magistério superior aplicado, aprendi a reconhecer a mestria desses talentos que dissimulam para melhor expor, que deixam de cortar um "t" só pelo torneio a que nos obriga um "l" remissivo, que deixam de virgular para que busquemos a pausa no espaço que se transpôs para a frase seguinte e para que – nesse deslocamento dos olhos - surpreendamos a volubilidade ubíqua do sujeito, critério do traço que conduz todo o desenho.
Tratava-se de uma profissional. Em seu rastro pelo papel passei a divisar seu retrato físico e biográfico, além do evidente retrato moral. Era de meia-altura, clara, olhos verdes, gestos delicados em contraste com a voz decidida. Habitara entre pinheiros, na infância, que tivera que deixar em troca da cidade inevitável, levando-os, porém, nos olhos, e inscrevendo-os no papel, sempre que podia. Era tímida mas enérgica, resoluta mas doce.
Passei horas em resposta. Precisava corresponder àquele nível de talento, valendo-me do que aperfeiçoara em anos e anos de prática e leitura de traços disciplinados. Superei em expressão minha primeira resposta. Buscando ser o mais eficaz possível quanto ao caráter pretextual das palavras, copiei uma receita de canapé de um jornal e um poema concreto de uma revista acadêmica, para não deixar dúvida quanto à ênfase em outras direções a serem buscadas no caminho das letras e sinais, que – diga-se de passagem, e sem modéstia – atingiam ali a excelência da escrituração. Os traços eram moldes que chamavam os olhos dela para que os habitassem, que se preencheriam à medida que seu olhar os acompanhasse com precisão, acrescendo-lhes a massa de luz e sombra premeditadas. Jamais conseguira eu tanta ênfase com o jogo de súbitas maiúsculas, com incisivas reticências e um desnorteante manuseio de barras, com o qual simulava uma citação de versos. Seus olhos espertos recolheriam aquelas confissões no mesmo calor com que eu as produzira.
Dessa vez sua resposta veio rápido. A princípio nem dei por ela, quando apanhei com relutância um envelope datilografado, com aquele ar estúpido e invasivo de mala direta. Lendo atrás o nome da remetente, agora em manuscrito, caí em mim e tive de sentar ali mesmo, no saguão do prédio. Levei enfim o envelope para a minha sala, confuso, desnorteado, cogitando se encontraria na carta algum desdobramento daquele inexplicável insulto datilografado.
Que nada. A pérfida fizera bater-me o coração na porta de fora só para que dentro da casa a surpreendesse mais inteira e nua do que nunca. Era um festim de letras miniaturizadas em diversos calibres de grafite, uma orgia quase explícita de sombreamentos oblongos, uma semitonalidade despudorada em vogais-semifusas. Como não me perturbar com aquela pauta? Pensei em como responder àquele "plus non ultra" da amiga minha, da amante minha, depois que recobrasse o controle das mãos trêmulas.
Dessa resposta, amigos, jamais fui capaz: rendi-me ao seu avassalador talento natural, o maior, que nem mesmo um Aristóteles teria sabido regrar. Já notara eu que um corpo feminino era uma falsa geometria, dessas que acentuam o caráter de promessa e de rascunho quando já são a experiência e a prova definitiva de um caos magistralmente construído. Aquela carta era a nudez completa, indo do traço ao silêncio e do silêncio ao traço, numa caminhada perfeitamente imitativa dos pés em seta, dos cílios úmidos, da nuvem pela janela – quase diria: da tepidez da tarde.
Guardo-a na gaveta, olho-a às vezes. Joguei fora as anteriores, definitivamente superadas por esta: na comparação, aquelas pareciam meros exercícios, que esta totalizou com absoluta perfeição. É a minha consolação suprema. Basta que me assalte o medo do tédio, a desconfiança de que um mito é apenas fumaça num espelho retrovisor, de que o futuro é pouco mais que um exercício para o salto de trampolim – bastam esses avisos para que eu abra a gaveta, me deixe surpreender com o envelope e chegue à epifania máxima daquela letra, que me excita sempre, que me faz viver, que me prova vivo, que é a edição mais sensual do limite amoroso das criaturas."
*Alcides Villaça, "In" TERESA revista de literatura brasileira 8/9 USP/editora 34/imprensa oficial
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terça-feira, 28 de dezembro de 2010
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Mais um
"No aconchego da grande mãe
Durante quarenta anos gerou filhos que, ampla e generosa, continuava a abrigar no ventre passado o tempo da gestação. Por que atirá-los no mundo se, mãe, a todos podia conter e alimentar?
Achando porém necessário dar-lhes boa educação, fez quatro vezes o serviço militar para atender às necessidades cívicas dos seus filhos homens, e completou oito cursos de corte e costura para garantir o futuro de suas filhas mulheres.
Já estava quase chegando à velhice, quando a doçura de netos começou a lhe parecer mais desejável do que tudo. Não resistindo, deitou-se enfim no centro da cama e, abertas as poderosas coxas, começou o esforço. Em vão suou lençóis e fronhas, em vão inchou as veias do pescoço. Passadas horas, passados dias em que sem descanso lutava para expelir, compreendeu: por amor e segurança seus filhos se recusavam a deixá-la. Nunca seria avó.
Então a tristeza abateu-se sobre ela. Emagreceram as pernas, emagreceram os braços. Só a barriga não emagreceu, vagando imensa pela casa. Mas a pele se fez cada vez mais fina, e em certas horas da manhã, quando a luz bate clara e penetrante sobre o ventre de opalina, já se podem ver os rapazes garbosos na ordem unida, e as moças que cosem infindáveis camisolas."
Marina Colasanti, InUM ESPINHO DE MARFIM o outras histórias, L&PM Editores S/A, Porto Alegre, 1999
Durante quarenta anos gerou filhos que, ampla e generosa, continuava a abrigar no ventre passado o tempo da gestação. Por que atirá-los no mundo se, mãe, a todos podia conter e alimentar?
Achando porém necessário dar-lhes boa educação, fez quatro vezes o serviço militar para atender às necessidades cívicas dos seus filhos homens, e completou oito cursos de corte e costura para garantir o futuro de suas filhas mulheres.
Já estava quase chegando à velhice, quando a doçura de netos começou a lhe parecer mais desejável do que tudo. Não resistindo, deitou-se enfim no centro da cama e, abertas as poderosas coxas, começou o esforço. Em vão suou lençóis e fronhas, em vão inchou as veias do pescoço. Passadas horas, passados dias em que sem descanso lutava para expelir, compreendeu: por amor e segurança seus filhos se recusavam a deixá-la. Nunca seria avó.
Então a tristeza abateu-se sobre ela. Emagreceram as pernas, emagreceram os braços. Só a barriga não emagreceu, vagando imensa pela casa. Mas a pele se fez cada vez mais fina, e em certas horas da manhã, quando a luz bate clara e penetrante sobre o ventre de opalina, já se podem ver os rapazes garbosos na ordem unida, e as moças que cosem infindáveis camisolas."
Marina Colasanti, InUM ESPINHO DE MARFIM o outras histórias, L&PM Editores S/A, Porto Alegre, 1999
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Ninguém fala dessa bela escritora

Sem novidades no front
Esperava que o marido voltasse da guerra. Durante os primeiros anos, quando ele certamente não chegaria, preparou compotas. Depois, a partir do momento em que o regresso se tornava uma possibilidade iminente, assou pães, e a cada semana uma torta de peras, enchendo a casa com o perfume açucarado que, antes mesmo do seu sorriso, lhe daria as boas-vindas.
Um dia chegou o vizinho da frente. No outro chegou o vizinho do lado. E seu marido não chegou. Voltaram os gêmeos morenos. Voltaram os três irmãos louros. E seu marido não voltou. Aos poucos, todos os homens da pequena cidade estavam de volta a suas casas. Menos um. O seu.
Paciente, ainda assim ela espanava os vidros de compotas, abria em cruz a massa levedada, e descascava peras.
Há muito a guerra havia terminado quando a silhueta escura parou hesitante frente ao seu portão. Antes que sequer batesse palmas, foi ela recebê-lo, de avental limpo. E puxando-o pela mão o trouxe para dentro, fez que lavasse o rosto na pia mesmo da cozinha, sentasse à mesa, enfim um homem no espaço que a ele sempre fora dedicado.
Encheu-lhe o copo de vinho, serviu-lhe a fatia de torta. Profunda paz a invadia enquanto o olhava comer esfaimado. E, esforçando-se para não perceber que aquele não era o seu marido, começou a fazer-lhe perguntas sobre o front.
Marina Colasanti, In “UM ESPINHO DE MARFIM e outras histórias”, L&PM Editores, S/A, Porto Alegre, 1999.
sábado, 7 de novembro de 2009
Especialmente para Zazá
O conto "Branca", fictício, eu o construí a partir do relato de meu pai sobre um episódio engraçado ocorrido em sua pequena cidade natal. Ao conceber a história, por alguma razão que um psicanalista adoraria explorar, apropriei-me de alguns nomes de minha família, de frases ouvidas aqui e ali, inclusive uma de um dos meus filhos quando bem pequenininho, carregada de poesia, e fiz alusão a acontecimentos verídicos, como a morte de minha avó paterna durante um temporal. Apropriei-me por fim da voz amada de um narrador amado, meu tio Darci, que tinha um jeito delicioso de contar um causo. Tive desde o começo inexplicável carinho pela personagem "Nininha"; mais tarde consegui identificar, no meu "baú de lembranças insuportáveis", a origem desse carinho, a pessoa real a quem a personagem remete, pessoa que aparecerá numa breve crônica a ser postada aqui futuramente.
Dois amigos acusaram-me o "tom e o clima roseanos" dessa história, coisa que eu, inocentemente, não tinha notado. Depois que me falaram ficou mais do que evidente que é um conto totalmente inaproveitável, ainda que eu trabalhe muito nele, inclusive porque o argumento chega a ser muito parecido mesmo com o de um conto de Guimarães Rosa, "Desenredo", que, juro de pés juntos, eu não conhecia quando escrevi o meu.
Todo este palavrório é para me desculpar por trazer mais uma vez a público esta história, que infelizmente chegou a ser publicada numa revista de literatura por um amigo tendencioso, antes que os outros dois me apontassem o defeito grave.
É que é para agradar minha prima Zaclis, que adora um causo, e certamente vai gostar deste. Os outros que me desculpem o mau jeito.
Branca
O Juca me contou. Aconteceu lá no Ipiranga, faz muito tempo.
O Emílio era um sujeito alegre e bom, todo mundo gostava dele. Pediam-lhe opinião, conselhos. Tinha umas idéias que ninguém mais tinha, e mesmo quando dizia o comum, o comum dito por ele era diferente, clareava o claro, consolava o consolável. Se era caso de muito sofrimento ele sofria junto, ajudava a sofrer: "a vida é assim, compadre, é bonita, e é triste; às vezes é tão triste que não tem o que se faça, é sentar-se por aí num toco e chorar".
Já se disse que o Emílio era alegre. Era. Mas quando falava assim, sentido, não falava à toa. Tinha uma vez sido golpeado pela vida, a dor foi muita, quase ele não sobreviveu. Achavam que era dessa dor que ele tirava a sabedoria estúrdia. Deu-se num meado de agosto, quando os ipês parecem absurdos de tão bonitos. O Emílio vivia com a primeira mulher e uma filha de dois para três anos, na mesma casa em que viveu depois com a Nininha, lá para os lados do Avencal. Saíram uma manhã bem cedo, ele para a serraria, a mulher com a filha para a casa de nhá Dina, mãe dele, ajudar a sogra numas tarefas de costura. Mal ele tinha pegado no serviço quando viu o dia escurecer de repente e o vento furioso na copa das árvores. Em vinte minutos relampeou e trovejou, as nuvens desabaram todas, e o sol apareceu de novo no céu limpo. Vieram avisar. Quando chegou na casa da mãe não tinha mais a casa, o que viu foi o mundo forrado de amarelo, o ipê imenso tombado pela raiz. E a mãe, a mulher e a filha, pálidas e imóveis em leito de lama e flores. Nenhuma sobrou que o consolasse das outras duas.
O Emílio desceu aos infernos. Ainda teve forças para as velar o resto daquele dia e a noite inteira; de manhãzinha o cortejo saiu, e ele foi se revezando em carregar um trecho cada uma delas. Jogou seus três punhados de terra e três vezes disse "a terra lhe seja leve". Depois não disse mais nada. Ficou esquisito, meio aparvalhado.
Nhá Mira o levou para casa dela, era sua madrinha de batismo. Madrinha naquele tempo era diferente, em tudo tinha que ser a mãe na falta da mãe, mas não foi por obrigação que cuidou dele. Gostava dele, como todos, gostava porém de um jeito que ninguém mais podia gostar. Quando o Emílio nasceu nhá Dina ficou muito fraca, daí que o menino passava muito tempo junto da madrinha, aproveitando o leite farto do Juca, nascido no mesmo tempo. Por isso o coração de nhá Mira havia de ver o afilhado sempre do mesmo jeito: uma coisinha de nada agarrada em seu peito, olhinhos muito abertos pregados nos seus.
Pois nem os cuidados dela adiantaram. O Emílio não comia, não andava, não falava, parece que nem mesmo entendia o que falavam com ele. Em um mês ficou em pele e osso. Quando o médico disse que precisavam levar para Ponta Grossa, internar no Franco da Rocha, nhá Mira desesperou. Podiam então pedir que ela largasse o filho num hospício?
- É hospital de todo tipo de doença nervosa. A nhá Mira sossegue, tenho por lá muita gente conhecida, hão de cuidar dele como se parente meu fosse. Garanto. Lhe custa, eu sei, mas se não for assim é questão de dias e ele morre.
A madrinha consentiu, varada de dor. E varada de dor ela passou oito meses, que foi o tempo que levaram para trazer o Emílio do fundo do inferno. Enfim ele veio, abatido, encovado, mas era ainda o mesmo Emílio alegre e bom. Alguma coisa nele tinha se modificado, é verdade. Acaso alguém passa por esses abismos da vida e fica igual ao que era antes? Não fica. Pois o que mudou no Emílio foi que tudo o que ele já era se acentuava. Era bom, ficou bom demais; era alegre, sabia agora de uma alegria escondida nas coisas, onde ninguém suspeitava.
Por vários meses esteve ainda muito magro, muito pálido. Nhá Mira se desdobrava em pudins e garrafadas milagrosas, ansiosa por fazê-lo engordar um pouquinho que fosse. Ele gostava de brincar com a aflição dela; tomava o rosto da velha nas mãos e dizia: "a madrinha deixe estar, que daqui a cem anos lhe garanto que estou no peso certo". Brincava, mas ia devorando doces e poções da madrinha, ou porque não gostasse de a ver aflita, ou porque também tivesse pressa de se ver inteiro de novo. Cuidava-se. Uma vez por mês ele voltava para uma consulta no Franco da Rocha, até que um dia os médicos lhe disseram que estava bom de todo e pronto para outra. Dessa vez ele veio com a novidade: que ia se casar.
Nhá Mira primeiro gostou da idéia de o ver casado, tomasse outra vez o rumo da vida, e logo, que a vida é curta; depois desgostou, quando soube com quem. A moça ela conhecia, era Nina de Tal, filha de um juiz de direito, gente de posses lá em Ponta Grossa. Coincidiu de os dois se conhecerem no hospital, que lá a moça esteve uns tempos internada, para tratamento dos nervos. Fizeram logo amizade, viram-se outras vezes, quando ele ia a Ponta Grossa para as consultas. Acabaram apaixonados, a família dela não se opunha, era natural que se casassem.
Nhá Mira não era dada a romantismos. Era mulher, e vivida, tinha aprendido bem a economia da vida. Tudo ela pensava e pesava, quase não havia o que escapasse de seus noves-fora; chegava a parecer impiedosa, às vezes. Que a Nininha não fosse para o bico do Emílio, isso é o que ela devia estar ponderando. Está certo que ele era moço bonito, vistoso, e amável, compreendia-se que muita mulher se enamorasse dele. Também era sério, trabalhador, mecânico de confiança do alemão dono da serraria, emprego garantido. De modo que podia dar vida digna à mulher, mas vida simples, sem o fausto e as facilidades a que essa Nina estava acostumada. Passado o fogo da lua de mel, a moça na certa se desencantava, fazia sofrer o marido. Ainda mais, sendo moça nervosa... Admirava que a família dela consentisse. Devia ser esse o assunto da conversa reservada que a madrinha teve com o Emílio, que de verdade mesmo ninguém nunca soube. O que se sabe é que os dois entraram e saíram da conversa com a mesma disposição: a velha, amofinada; o Emílio, pronto para se casar com a Nininha.
E casou. A cerimônia foi breve e simples, sem convidados, na casa mesma da moça. No mesmo dia o juiz levou os noivos até a casinha no Ipiranga, despejou os dois lá, mais as canastras de enxoval e alfaias da filha, e deu sua missão por encerrada. Nunca mais apareceu, nem ninguém de sua gente.
A madrinha no começo foi seca demais com a moça, coisa que naqueles dias ninguém entendeu direito. Ciúmes de mãe? Isso não era. A Nininha não se deu por achada: tratava com respeito a sogra postiça, não a bajulava, não forçava nada para vencer a secura da velha. Mas, como dizia o Emílio, tudo na vida se arruma, se é tempo da vida. E arrumou-se que ele, casado, entrasse logo a ganhar carnes e viço; nhá Mira, vendo que a moça podia assim fácil o que seu desvelo de mãe não pôde, foi se amansando, ficou doce. E quanto mais o Emílio viçava, mais ela se adocicava com a Nininha. Acabaram amigas, mais que isso: a velha, não tendo parido mulheres, mãe amorosa da filha que lhe coube por dois acasos; a moça, filha dedicada dessa mãe que o acaso pôs no lugar da que a esquecia. Tinha outra coisa ainda entre as duas, difícil de explicar: era um entender-se quieto lá delas, um negócio que dava para sentir no ar, sem que nunca se soubesse onde é mesmo que se realizava. Era assim.
A Nininha na verdade era pessoa fácil de um qualquer gostar. Delicada, atenciosa com todos, nunca pareceu desgostosa da vidinha simples que levava com o marido, decerto muito mais modesta que a que teve na casa do pai. Tinha gosto na lida doméstica, trazia cheirosa a casinha deles, trastejada com finura e despojamento, os linhos e louças muito brancos de suas canastras. Era bonita, a Nininha. De uma beleza sem exagero, sem artifício, lembrava um amor-perfeito, uma réstia de cebolas pequenas, uma estradinha de terra no meio do pasto verde. O Emílio estando por perto ela parecia um girassol: grudava nele uns olhos amolecidos de ternura, e a beleza dela se iluminava com a ternura que olhar do marido lhe devolvia.
Iam vivendo. Gostavam da vidinha que viviam. A bem dizer, a vida de um pobre, naquele tempo e naquelas lonjuras, era mais ou menos a mesma vida de todos, e, mesmo, era boa. É que eles pareciam saber que era boa já enquanto a viviam, e iam vivendo o miúdo e o de todo dia com o mesmo gosto com que dançavam os bailes do Clube Operário, pé de valsa que eram, todo mundo admirado da graça deles dançando. Tinham muito zelo um com o outro. A Nininha não admitia que o Emílio almoçasse a bóia amanhecida que os cabras da serraria levavam de madrugada para requentar no serviço; organizava-se para estar com o almoço pronto e fresco lá pelas tantas da manhã, arranjava tudo entre dois pratos de sua louça mais bonita, embrulhava em papel grosso para não esfriar, amarrava com um pano muito branco e saía correndo levar para o marido. Chegava na serraria exato quando apitava onze horas, pedia a alguém do escritório que entregasse ao Emílio; não gostava de interromper a camaradagem lá deles na folga do almoço. Na volta do serviço, à tardinha, ele tratava de arranjar pelo caminho um mimo qualquer, uma fruta do mato, uma flor, uma pedrinha bonita... punha dentro da louça que tinha ido com a bóia. Era assim.
Sendo assim, dava para acreditar que essa mulher traísse o Emílio? Quem primeiro desconfiou foi o Doca, por causa de um sujeito de fora, um viajante que andou lá pelo seu armazém. Esse homem viu a Nininha passando na rua e fez um comentário vago, malicioso. O Doca quis duvidar, por na conta da bazófia do sujeitinho, mas depois andou ouvindo outra coisa, e mais outra. Por fim, ele e o Juca, eles mesmos por acaso viram o que queriam nunca ter visto: a Nininha, afogueada, saindo com um cabra estranho de um paiol velho que havia por ali num lugar meio retirado, perto de um capão. A pá de cal foi quando o Doca andou por Ponta Grossa, especulando a vida da moça. Pois que lá todo mundo contava a mesma história: que ela era uma ordinariazinha, vergonha da família importante; que ela nunca sofreu dos nervos, que nada, que o pai a tinha internado para remediar a honra, dizer que ela fazia o que fazia por que fosse meio desmiolada.
Então, muita coisa se explicava...
O Juca sofreu, não sabia o que fizesse, desejou nunca ter sabido de nada, que, sabendo, de todo jeito era como se também traísse o Emílio: se contava para ele, sentia como se o traísse junto com a vida; se não contava, traía junto com a Nininha. E como gostava do Emílio! Criaram-se juntos e amigos, foram irmãos de leite e de diabruras no quintalão sem fim de nhá Mira, compartilharam as carícias dela, juntos muito apanharam da velha. Gostava dele mais do que gostava dos irmãos de sangue.
O Doca também não sabia o que fazer, daí que tiveram a idéia de entregar o caso nas mãos da mãe. Bobagem. Nhá Mira não estava sabendo pensar, era só um bicho com a cria no peito. Queria o menino sossegado, que nada lhe doesse. Isso foi o que eles imaginaram, porque a velha mesma não lhes deu razões. Saiu com eles nas costas, disse que se cuidassem bem de suas vidas já estava mais do que bom, que quem desfeiteasse a Nininha ia é se haver com ela, nhá Mira.
Covardia deles, mesmo. Erraram. Deviam ter ido direto falar com o Emílio, por mais duro que fosse. Ele de tudo sabendo, e querendo, aí sim, estava certo que se envolvesse nhá Mira, que ela com autoridade de velha e de mãe ajudasse a devolver a moça e seus baús de brancuras lá para o juiz. Então que numa tarde se encheram de coragem, o Emílio ia passando pelo armazém, de volta do serviço, e os dois o chamaram para uma conversa. Ele parece que adivinhou que coisa boa não era; ficou muito pálido, sentou-se.
- Vocês me falem, eu agüento.
Foram falando, nada esconderam. O Emílio, enquanto ouvia aquilo, quieto, ia recobrando o sangue fugido. Quando viu que tinham acabado, e ele na inteira posse de sua cor e alegria, disse:
- Isso? Arre, que vocês me assustam! Pensei que tinha acontecido alguma coisa com a Nininha.
- Homem! Se estamos lhe dizendo que essa mulher lhe trai!
- Pois, Doca, eu lhe digo: conheço a Nininha e o que se passa na vida dela como a palma da minha mão. Ela não me trai. Nunca ela me traiu.
E levantou-se, com a cara limpa que ele sempre teve, pediu licença para se apressar, porque ia ter o baile da primavera no Operário, e ainda queria colher para a Nininha umas pitangas gordas que tinha avistado de manhã, no caminho para a serraria.
Pode um vivente comum pensar disso coisa sensata? O Juca também não pôde. A bem dizer ele pensou foi nada, não quis. Sentia que lhe tiravam o mundo dos ombros, e a mesma impressão desde menino, de que o Emílio sabia de coisas que nunca ele ia saber; que o Emílio quando dizia um isso, isso de um jeito ou de outro era sempre a verdade.
Também o Juca foi ao baile naquela noite. Tocavam "Branca" quando chegou, ele lembrava bem, porque lá chegando viu o Emílio e a Nininha. E mesmo tendo estado com eles até velhos, era aquela a imagem que guardava deles: os dois bonitos e namorados, se olhavam e se olhavam, valsando no meio do mundo em volta.
Dois amigos acusaram-me o "tom e o clima roseanos" dessa história, coisa que eu, inocentemente, não tinha notado. Depois que me falaram ficou mais do que evidente que é um conto totalmente inaproveitável, ainda que eu trabalhe muito nele, inclusive porque o argumento chega a ser muito parecido mesmo com o de um conto de Guimarães Rosa, "Desenredo", que, juro de pés juntos, eu não conhecia quando escrevi o meu.
Todo este palavrório é para me desculpar por trazer mais uma vez a público esta história, que infelizmente chegou a ser publicada numa revista de literatura por um amigo tendencioso, antes que os outros dois me apontassem o defeito grave.
É que é para agradar minha prima Zaclis, que adora um causo, e certamente vai gostar deste. Os outros que me desculpem o mau jeito.
Branca
O Juca me contou. Aconteceu lá no Ipiranga, faz muito tempo.
O Emílio era um sujeito alegre e bom, todo mundo gostava dele. Pediam-lhe opinião, conselhos. Tinha umas idéias que ninguém mais tinha, e mesmo quando dizia o comum, o comum dito por ele era diferente, clareava o claro, consolava o consolável. Se era caso de muito sofrimento ele sofria junto, ajudava a sofrer: "a vida é assim, compadre, é bonita, e é triste; às vezes é tão triste que não tem o que se faça, é sentar-se por aí num toco e chorar".
Já se disse que o Emílio era alegre. Era. Mas quando falava assim, sentido, não falava à toa. Tinha uma vez sido golpeado pela vida, a dor foi muita, quase ele não sobreviveu. Achavam que era dessa dor que ele tirava a sabedoria estúrdia. Deu-se num meado de agosto, quando os ipês parecem absurdos de tão bonitos. O Emílio vivia com a primeira mulher e uma filha de dois para três anos, na mesma casa em que viveu depois com a Nininha, lá para os lados do Avencal. Saíram uma manhã bem cedo, ele para a serraria, a mulher com a filha para a casa de nhá Dina, mãe dele, ajudar a sogra numas tarefas de costura. Mal ele tinha pegado no serviço quando viu o dia escurecer de repente e o vento furioso na copa das árvores. Em vinte minutos relampeou e trovejou, as nuvens desabaram todas, e o sol apareceu de novo no céu limpo. Vieram avisar. Quando chegou na casa da mãe não tinha mais a casa, o que viu foi o mundo forrado de amarelo, o ipê imenso tombado pela raiz. E a mãe, a mulher e a filha, pálidas e imóveis em leito de lama e flores. Nenhuma sobrou que o consolasse das outras duas.
O Emílio desceu aos infernos. Ainda teve forças para as velar o resto daquele dia e a noite inteira; de manhãzinha o cortejo saiu, e ele foi se revezando em carregar um trecho cada uma delas. Jogou seus três punhados de terra e três vezes disse "a terra lhe seja leve". Depois não disse mais nada. Ficou esquisito, meio aparvalhado.
Nhá Mira o levou para casa dela, era sua madrinha de batismo. Madrinha naquele tempo era diferente, em tudo tinha que ser a mãe na falta da mãe, mas não foi por obrigação que cuidou dele. Gostava dele, como todos, gostava porém de um jeito que ninguém mais podia gostar. Quando o Emílio nasceu nhá Dina ficou muito fraca, daí que o menino passava muito tempo junto da madrinha, aproveitando o leite farto do Juca, nascido no mesmo tempo. Por isso o coração de nhá Mira havia de ver o afilhado sempre do mesmo jeito: uma coisinha de nada agarrada em seu peito, olhinhos muito abertos pregados nos seus.
Pois nem os cuidados dela adiantaram. O Emílio não comia, não andava, não falava, parece que nem mesmo entendia o que falavam com ele. Em um mês ficou em pele e osso. Quando o médico disse que precisavam levar para Ponta Grossa, internar no Franco da Rocha, nhá Mira desesperou. Podiam então pedir que ela largasse o filho num hospício?
- É hospital de todo tipo de doença nervosa. A nhá Mira sossegue, tenho por lá muita gente conhecida, hão de cuidar dele como se parente meu fosse. Garanto. Lhe custa, eu sei, mas se não for assim é questão de dias e ele morre.
A madrinha consentiu, varada de dor. E varada de dor ela passou oito meses, que foi o tempo que levaram para trazer o Emílio do fundo do inferno. Enfim ele veio, abatido, encovado, mas era ainda o mesmo Emílio alegre e bom. Alguma coisa nele tinha se modificado, é verdade. Acaso alguém passa por esses abismos da vida e fica igual ao que era antes? Não fica. Pois o que mudou no Emílio foi que tudo o que ele já era se acentuava. Era bom, ficou bom demais; era alegre, sabia agora de uma alegria escondida nas coisas, onde ninguém suspeitava.
Por vários meses esteve ainda muito magro, muito pálido. Nhá Mira se desdobrava em pudins e garrafadas milagrosas, ansiosa por fazê-lo engordar um pouquinho que fosse. Ele gostava de brincar com a aflição dela; tomava o rosto da velha nas mãos e dizia: "a madrinha deixe estar, que daqui a cem anos lhe garanto que estou no peso certo". Brincava, mas ia devorando doces e poções da madrinha, ou porque não gostasse de a ver aflita, ou porque também tivesse pressa de se ver inteiro de novo. Cuidava-se. Uma vez por mês ele voltava para uma consulta no Franco da Rocha, até que um dia os médicos lhe disseram que estava bom de todo e pronto para outra. Dessa vez ele veio com a novidade: que ia se casar.
Nhá Mira primeiro gostou da idéia de o ver casado, tomasse outra vez o rumo da vida, e logo, que a vida é curta; depois desgostou, quando soube com quem. A moça ela conhecia, era Nina de Tal, filha de um juiz de direito, gente de posses lá em Ponta Grossa. Coincidiu de os dois se conhecerem no hospital, que lá a moça esteve uns tempos internada, para tratamento dos nervos. Fizeram logo amizade, viram-se outras vezes, quando ele ia a Ponta Grossa para as consultas. Acabaram apaixonados, a família dela não se opunha, era natural que se casassem.
Nhá Mira não era dada a romantismos. Era mulher, e vivida, tinha aprendido bem a economia da vida. Tudo ela pensava e pesava, quase não havia o que escapasse de seus noves-fora; chegava a parecer impiedosa, às vezes. Que a Nininha não fosse para o bico do Emílio, isso é o que ela devia estar ponderando. Está certo que ele era moço bonito, vistoso, e amável, compreendia-se que muita mulher se enamorasse dele. Também era sério, trabalhador, mecânico de confiança do alemão dono da serraria, emprego garantido. De modo que podia dar vida digna à mulher, mas vida simples, sem o fausto e as facilidades a que essa Nina estava acostumada. Passado o fogo da lua de mel, a moça na certa se desencantava, fazia sofrer o marido. Ainda mais, sendo moça nervosa... Admirava que a família dela consentisse. Devia ser esse o assunto da conversa reservada que a madrinha teve com o Emílio, que de verdade mesmo ninguém nunca soube. O que se sabe é que os dois entraram e saíram da conversa com a mesma disposição: a velha, amofinada; o Emílio, pronto para se casar com a Nininha.
E casou. A cerimônia foi breve e simples, sem convidados, na casa mesma da moça. No mesmo dia o juiz levou os noivos até a casinha no Ipiranga, despejou os dois lá, mais as canastras de enxoval e alfaias da filha, e deu sua missão por encerrada. Nunca mais apareceu, nem ninguém de sua gente.
A madrinha no começo foi seca demais com a moça, coisa que naqueles dias ninguém entendeu direito. Ciúmes de mãe? Isso não era. A Nininha não se deu por achada: tratava com respeito a sogra postiça, não a bajulava, não forçava nada para vencer a secura da velha. Mas, como dizia o Emílio, tudo na vida se arruma, se é tempo da vida. E arrumou-se que ele, casado, entrasse logo a ganhar carnes e viço; nhá Mira, vendo que a moça podia assim fácil o que seu desvelo de mãe não pôde, foi se amansando, ficou doce. E quanto mais o Emílio viçava, mais ela se adocicava com a Nininha. Acabaram amigas, mais que isso: a velha, não tendo parido mulheres, mãe amorosa da filha que lhe coube por dois acasos; a moça, filha dedicada dessa mãe que o acaso pôs no lugar da que a esquecia. Tinha outra coisa ainda entre as duas, difícil de explicar: era um entender-se quieto lá delas, um negócio que dava para sentir no ar, sem que nunca se soubesse onde é mesmo que se realizava. Era assim.
A Nininha na verdade era pessoa fácil de um qualquer gostar. Delicada, atenciosa com todos, nunca pareceu desgostosa da vidinha simples que levava com o marido, decerto muito mais modesta que a que teve na casa do pai. Tinha gosto na lida doméstica, trazia cheirosa a casinha deles, trastejada com finura e despojamento, os linhos e louças muito brancos de suas canastras. Era bonita, a Nininha. De uma beleza sem exagero, sem artifício, lembrava um amor-perfeito, uma réstia de cebolas pequenas, uma estradinha de terra no meio do pasto verde. O Emílio estando por perto ela parecia um girassol: grudava nele uns olhos amolecidos de ternura, e a beleza dela se iluminava com a ternura que olhar do marido lhe devolvia.
Iam vivendo. Gostavam da vidinha que viviam. A bem dizer, a vida de um pobre, naquele tempo e naquelas lonjuras, era mais ou menos a mesma vida de todos, e, mesmo, era boa. É que eles pareciam saber que era boa já enquanto a viviam, e iam vivendo o miúdo e o de todo dia com o mesmo gosto com que dançavam os bailes do Clube Operário, pé de valsa que eram, todo mundo admirado da graça deles dançando. Tinham muito zelo um com o outro. A Nininha não admitia que o Emílio almoçasse a bóia amanhecida que os cabras da serraria levavam de madrugada para requentar no serviço; organizava-se para estar com o almoço pronto e fresco lá pelas tantas da manhã, arranjava tudo entre dois pratos de sua louça mais bonita, embrulhava em papel grosso para não esfriar, amarrava com um pano muito branco e saía correndo levar para o marido. Chegava na serraria exato quando apitava onze horas, pedia a alguém do escritório que entregasse ao Emílio; não gostava de interromper a camaradagem lá deles na folga do almoço. Na volta do serviço, à tardinha, ele tratava de arranjar pelo caminho um mimo qualquer, uma fruta do mato, uma flor, uma pedrinha bonita... punha dentro da louça que tinha ido com a bóia. Era assim.
Sendo assim, dava para acreditar que essa mulher traísse o Emílio? Quem primeiro desconfiou foi o Doca, por causa de um sujeito de fora, um viajante que andou lá pelo seu armazém. Esse homem viu a Nininha passando na rua e fez um comentário vago, malicioso. O Doca quis duvidar, por na conta da bazófia do sujeitinho, mas depois andou ouvindo outra coisa, e mais outra. Por fim, ele e o Juca, eles mesmos por acaso viram o que queriam nunca ter visto: a Nininha, afogueada, saindo com um cabra estranho de um paiol velho que havia por ali num lugar meio retirado, perto de um capão. A pá de cal foi quando o Doca andou por Ponta Grossa, especulando a vida da moça. Pois que lá todo mundo contava a mesma história: que ela era uma ordinariazinha, vergonha da família importante; que ela nunca sofreu dos nervos, que nada, que o pai a tinha internado para remediar a honra, dizer que ela fazia o que fazia por que fosse meio desmiolada.
Então, muita coisa se explicava...
O Juca sofreu, não sabia o que fizesse, desejou nunca ter sabido de nada, que, sabendo, de todo jeito era como se também traísse o Emílio: se contava para ele, sentia como se o traísse junto com a vida; se não contava, traía junto com a Nininha. E como gostava do Emílio! Criaram-se juntos e amigos, foram irmãos de leite e de diabruras no quintalão sem fim de nhá Mira, compartilharam as carícias dela, juntos muito apanharam da velha. Gostava dele mais do que gostava dos irmãos de sangue.
O Doca também não sabia o que fazer, daí que tiveram a idéia de entregar o caso nas mãos da mãe. Bobagem. Nhá Mira não estava sabendo pensar, era só um bicho com a cria no peito. Queria o menino sossegado, que nada lhe doesse. Isso foi o que eles imaginaram, porque a velha mesma não lhes deu razões. Saiu com eles nas costas, disse que se cuidassem bem de suas vidas já estava mais do que bom, que quem desfeiteasse a Nininha ia é se haver com ela, nhá Mira.
Covardia deles, mesmo. Erraram. Deviam ter ido direto falar com o Emílio, por mais duro que fosse. Ele de tudo sabendo, e querendo, aí sim, estava certo que se envolvesse nhá Mira, que ela com autoridade de velha e de mãe ajudasse a devolver a moça e seus baús de brancuras lá para o juiz. Então que numa tarde se encheram de coragem, o Emílio ia passando pelo armazém, de volta do serviço, e os dois o chamaram para uma conversa. Ele parece que adivinhou que coisa boa não era; ficou muito pálido, sentou-se.
- Vocês me falem, eu agüento.
Foram falando, nada esconderam. O Emílio, enquanto ouvia aquilo, quieto, ia recobrando o sangue fugido. Quando viu que tinham acabado, e ele na inteira posse de sua cor e alegria, disse:
- Isso? Arre, que vocês me assustam! Pensei que tinha acontecido alguma coisa com a Nininha.
- Homem! Se estamos lhe dizendo que essa mulher lhe trai!
- Pois, Doca, eu lhe digo: conheço a Nininha e o que se passa na vida dela como a palma da minha mão. Ela não me trai. Nunca ela me traiu.
E levantou-se, com a cara limpa que ele sempre teve, pediu licença para se apressar, porque ia ter o baile da primavera no Operário, e ainda queria colher para a Nininha umas pitangas gordas que tinha avistado de manhã, no caminho para a serraria.
Pode um vivente comum pensar disso coisa sensata? O Juca também não pôde. A bem dizer ele pensou foi nada, não quis. Sentia que lhe tiravam o mundo dos ombros, e a mesma impressão desde menino, de que o Emílio sabia de coisas que nunca ele ia saber; que o Emílio quando dizia um isso, isso de um jeito ou de outro era sempre a verdade.
Também o Juca foi ao baile naquela noite. Tocavam "Branca" quando chegou, ele lembrava bem, porque lá chegando viu o Emílio e a Nininha. E mesmo tendo estado com eles até velhos, era aquela a imagem que guardava deles: os dois bonitos e namorados, se olhavam e se olhavam, valsando no meio do mundo em volta.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Guevara

...ainda mais te amarei depois da morte.
Elisabeth Barret Browning
Guerrillero heroico. Ciudad de La Habana, 1960. É assim a legenda da foto no postal que me trazem de Cuba. Essa foto famosa, reproduzida aos milhares em pôsteres e camisetas, nunca podia vê-la sem desconcerto; evocava-me uma imagem fugidia, como a de um sonho: está e já não está, perde-se para sempre.
Pois no dia em que me deram o tal postal alguma coisa se abriu e eu mergulhei por ali para um mar de lembranças. Lembranças corriqueiras; é que dessa vez chegavam em estado bruto, sem o desbaste com que a memória aplaina e suaviza os exageros do acontecido. Lembranças do tempo em que vi pela primeira vez essa foto de Guevara e, ao fim, do dia em que soube de sua morte.
Era um tempo terrível aquele. Densas nuvens vermelhas avolumavam-se no oriente e ameaçavam espalhar-se pelo resto do mundo. Milhões de pessoas viviam sem liberdade, sem moral e sem Deus, à sombra da foice e do martelo, símbolos da tortura, instrumentos com que se decepava ou esmagava a cabeça de quem se rebelasse contra a barbárie. Coisa do demônio. Dizia-se que lá nada se podia ter de seu e que se devoravam vivas as criancinhas. Talvez isso de devorar criancinhas fosse exagero, pois um povo precisa de crianças para seguir existindo, mesmo na ruindade. E, depois, meu pai tinha sorrido e dito “bobagem!”, quando certa vez eu lhe perguntara se era verdade essa coisa medonha. Mas, onde há fumaça há fogo, e “bobagem!” na boca do meu pai nem sempre era uma sentença, era às vezes um jeito de encurtar a conversa antes que ela se desatasse por onde ele não queria. É possível que quisesse me poupar de inquietude desnecessária; afinal, tudo se dava tão longe de nós, ainda mais longe que o outro lado do oceano. Não há distância que não se transponha, contudo. Há muitos anos viviam nos arredores uns colonos russos, gente que – falava-se – havia fugido do horror em que se transformara sua terra. Em determinado dia do mês vinham em bando até a cidade, acho que para comprar o que não produziam na colônia. Vestiam-se todos, até as crianças, como os dançarinos de um balé russo que eu vira uma vez no cinema. “Bonito”, era, mas eu tinha um medo danado daquela gente. “É gente comum”, meu pai dizia. Pois sim! E se não tivessem de fato fugido da ordem bárbara, se tivessem vindo aqui disseminar o Mal? É preciso sempre vigiar, e muito, porque o Mal usa de todos os artifícios para avançar. Então os russos não tinham até ajudado os americanos a vencer os alemães na guerra? E a Alemanha não tinha acabado em desgraça, aquele muro no meio, metade para o lado russo? Mas os alemães eram farinha do mesmo saco, gente ruim, que se danassem! Me arrepiava pensar que corria um tanto de sangue alemão em minhas veias; era pouco e vinha de longe, mas tinha sido o suficiente para que eu saísse muito branca, a cara larga e ossuda de soldado nazista. Era só. Por dentro mesmo eu era boa. O que mais espantava é que havia gente no mundo – aqui também – que simpatizava com o que acontecia na Rússia. Gente comum, podia ser um vizinho, um conhecido, uma pessoa simpática como a professora de história: faltou a uma, duas aulas, e na terceira veio a professora de religião e disse: “a partir de hoje vou dar também as aulas de história”. Correu depois o boato de que a moça era comunista, uma agitadora, e imoral. Vá lá se saber! O fato é que essa gente existia e era muito perigosa. Cuba tinha caído assim, pelas mãos de um homem terrível que acabara tomando o poder, e de um outro que nem cubano era, um argentino. Desse dizia-se ser ainda mais perigoso do que Fidel Castro. Tinha comandado a guerrilha cubana, que deu no que deu, e andava sabe-se lá onde, armando decerto outras guerrilhas. Não descansaria enquanto tudo não estivesse em poder dos russos. Chamava-se Ernesto “Che” Guevara.
Foi num dia em que pedi a meu pai que me ajudasse numa tarefa da escola e ele se lembrou de ter visto uma reportagem que me servia. Estávamos os dois lado a lado na mesa, ele folheando devagar a revista, e por um momento ficou distraído olhando as fotos de umas banhistas muito brancas, ossudas, cara larga de soldado nazista. “Tem mulheres que descendem direto da vaca”, disse de repente. Pronto, perguntei: “como eu?”. Fiquei olhando muito para ele. Não me respondeu. Vi armar-se a expressão familiar, o ligeiro arquear da sobrancelha direita, o sorriso sem que sorrisse. Então se confirmava o que já sabia: eu era feia. Ah, meu pai, meu pai era tão bonito! Jamais saberia o que é ser feia. Não podia ter mentido só dessa vez? Não, não podia, não mentia nunca. “Dói?” “Dói, mas é preciso”. Nem precisava mentir, bastava que tivesse dito “bobagem!” para mudar de assunto. Talvez quisesse dizer, mas a sobrancelha arqueou-se antes... Não é que meu pai fosse cruel. Não era. É que não gostava de mentir, e mesmo não podia: era todo expressão, tudo nele se anunciava antes que dissesse palavra: se estava feliz, bravo, triste, se assentia, se negava. Teria mentido, se pudesse. Uma vez estávamos os dois andando pelas ruas do centro e vi na vitrine um brinquedo que me deixou extasiada: “me compra isso, pai!?”. Suas sobrancelhas quase se tocaram e eu podia jurar que era dor o que sentia ali, naquele ponto da testa, enquanto se agachava e me dizia: “não posso. Eu te daria a lua, se pudesse. Não posso.” Ah, como me arrependi de ter pedido aquilo! Sabia que se vivia lá em casa sem folga e o quanto lhe doía não poder satisfazer nossos pequenos caprichos. Se era de comer o que um filho desejava, não se aquietava enquanto não lhe trouxesse. Às vezes chegava com um pacote, de surpresa, o rosto iluminado, ia distribuindo a cada qual a extravagância predileta. A minha era um potinho de cerejas ao marasquino, pequeno tesouro que ele me mostrava contra a luz, rútilos rubis. Ficava me olhando, quieto, até que se fosse o último rubi, o licor no fundo, a esquisita doçura.
Me daria a lua, se pudesse. Não podia. Pensava nisso, olhando-o folhear devagar a revista, quando vi pela primeira vez aquela foto. Foto de página inteira, estrela na boina, o rosto bonito e sério, o olhar duro, longe, longe. Olhar de tristeza funda. “Quem é?”, perguntei. “É Che Guevara”, ele disse. Não sei o que pensei. Quando enfim ouvi “pronto, achei, é isto”, foi como se despertasse de um longo sono sem sonhos. “Posso ficar pra mim?”, perguntei. “Claro”, ele disse.
Quantas vezes voltei a olhar aquela revista! E sempre na mesma página meu rosto incandescia e um solavanco modificava ligeiramente o eixo da Terra. Precisava ser bonito? Sim. Pois então não era Lúcifer o mais belo dos anjos? Não podia ser diferente. Acaso o diabo andasse por aí com carantonhas e fedendo a enxofre alguém o seguiria? É preciso vigiar sempre e muito, não se deixar seduzir pelo olhar dos anjos.
Mas aquele nem era o olhar plácido dos anjos, olhar de iludir ... Não era. Olhar de tristeza funda ... o nariz reto, o contorno bem desenhado da boca, cabelo em desalinho ... cabelo macio ... Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade Divina, sempre me rege, me guarda, me governa e me ilumina. Amém.
Foi pensando na necessidade que tinha Lúcifer de ser belo que me ocorreu perguntar a meu pai o que de verdade significavam a foice e o martelo na bandeira da União Soviética.
- Significam o que são: ferramentas do trabalhador: a foice, do camponês; o martelo, do operário.
- Mas por que estão na bandeira? O que eles querem dizer com isso?
- Acho que significa que são os trabalhadores que mandam na União Soviética.
- É!?
- É pra ser.
- E é verdade que lá ninguém pode ter nada?
- Não...mais ou menos... é que lá tudo é mais ou menos de todos.
-E isso não é bom?
- Se for mesmo assim...
- E em Cuba, também é assim?
- Agora é, acho.
- E ele é bom ou é mau?
- Ele, quem?
- Guevara.
- Ora... É uma pessoa como outra qualquer. Deve ter suas coisas boas e outras ruins.
E mais não disse e nem me deixou perguntar. Me fez prometer que não falasse dessas coisas com ninguém, ninguém, nem com ele mesmo. Obedeci. Desse dia em diante fiquei obcecada por dicionários e livros de história: tinha esperança que me explicassem o significado de certas palavras e o que se dava no mundo, realmente. Seria tão mais fácil se meu pai me falasse! Nada podia ser mais claro e vivo e verdadeiro do que quando ele me contava: sabia tudo o que os livros diziam e o que não diziam. Sabia histórias de amor de verdade. A de que eu mais gostava era a de Elisabeth e Robert Browning.
Elisabeth Barret, poeta inglesa, tinha cerca de 40 anos e vivia reclusa em seu quarto, por conta da saúde muito frágil. Seu contato com o mundo resumia-se às cartas dos leitores, que lhe chegavam às dúzias e ficavam o mais das vezes sem resposta. Eis que um belo dia lhe escreve um certo Robert Brwning, também poeta, dizendo: “amo seus versos e amo a senhora também”. Pedia permissão para visitá-la. Ela lhe responde que isso não era possível por ora, que não se sentia muito bem, que “na primavera, talvez...”. E na primavera seguinte se conhecem e se apaixonam, e ele a leva a respirar o ar puro do campo. Casam-se e se amam muito por treze anos, ao fim dos quais ela morre, suavemente, o rosto aconchegado no peito do marido. Deixa-lhe muitos sonetos de amor derramado. Parece que ouço a voz grave de meu pai lendo-me um deles. Não lhe distingo as palavras: é um contínuo rumorejar do silêncio ao fundo, e sons que dançam, e conversam, e se tocam, e ao se tocarem ficam cheios de sentido, e deslizam e se avolumam e se desmancham, como pequenas ondas na praia. E tudo recomeça. Claro, mesmo, só me ficou o último verso: “...ainda mais te amarei depois da morte”.
Mulher horrorosa essa Elisabeth Barret Browning, muito feia mesmo, se é que lhe era fiel o retrato que vi. Se um homem pôde amá-la tanto, então nem tudo estava perdido para mim. Quem sabe, no futuro, algo bom se revelasse sob minha feiura, e aí eu conheceria um homem gentil, capaz de ver em mim essa coisa amável, pérola na ostra, e seríamos felizes para sempre sempre.
“Quem não for católico pode sair!”. Era com secreta inveja que eu observava Sofia, a judia, e Álida, a protestante, sairem desobrigadas da aula de religião. Iam-se embora mais cedo, o sol no rosto, um restinho azul da manhã desfrutável. Lá dentro era sombra, cheiro de vela sem que vela nenhuma queimasse, minha culpa por não amar a Deus como amaram Jó e Abraão, minha crescente desconfiança do amor de Deus por Jó e Abraão. E aquela mulher... “hoje vamos começar a aula lembrando a missa de domingo; cada uma de vocês vem aqui na frente e conta para as coleguinhas o que mais gostou da missa no domingo passado”. Quando chegou minha vez me levantei e disse com a voz sumida que não tinha ido à missa. Ia me explicar: dizer que em casa não havia esse costume, quem sabe inventar uma desculpa qualquer, mas ela me repeliu, as duas mãos espalmadas na altura do rosto: “não se aproxime, não se aproxime, você está com o diabo no corpo”.
Devo ter chegado em casa mais branca que o normal naquele dia. Meu pai levantou os olhos do jornal que tinha aberto sobre a mesa e logo me perguntou o que havia. Contei. Ele sorriu e disse: “bobagem!”, do jeito de sempre, mas desta vez pousou a mão grande em minha cabeça, e isto foi o bastante para que o diabo se escafedesse. Sentei-me leve e refeita na cadeira ao lado, e dei de cara com a notícia: Guevara morto. Caído na selva boliviana. Belo. Morto e belo. Morto e belo. Morto. Nunca mais. Já não seria possível que o encontrasse por acaso na rua, nem que me olhasse, nem que seus olhos me contassem o que sabiam. Eram olhos baços de morto.
Morto.
Impossível comer naquele dia. Olhava para a comida em meu prato e o que via era o rosto do morto, o que morreu sem eu saber quem foi, o que eternamente vagaria entre céu e inferno sem que nem lá nem cá o reconhecessem. Era certo? Meu pai tinha que me contar, bastava que dissesse uma só palavra! Voltei-me de súbito para ele e ia lhe suplicar: uma só palavra. Não supliquei. Não pude. Meu pai não tocava na comida. Olhava-me intensamente, a cabeça um pouco inclinada para um lado, como se lhe pesasse demais o que pensava. E o olhar, o olhar era um tanto o que tinha quando me via comendo cerejas ao marasquino, um tanto era outra coisa... tristeza funda?...
Não sei quanto tempo levou para que me desvencilhasse daquele olhar. Quando enfim voltei ao meu prato, já não estava lá o rosto morto. Estava o outro, estrela na boina, bonito e sério; nem era triste, nem olhava para longe: olhava para mim, intensamente. Me daria a lua, se pudesse.
aveloh
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
"Os dois irmãos
Fazem dó e compaixão os mortos que hão de ser enterrados nos cemitérios das cidades. Quando postos no carro fúnebre e conduzidos através das ruas, é como se resmungassem e gemessem lá dentro do caixão. Alguns há que lastimam não haja penachos em seus coches mortuários. Outros se põem a contar as coroas, e não ficam satisfeitos e contentes. E há também os que, seguidos apenas de uma, duas, três carruagens, se sentem humilhados.
De tais cousas jamais precisam tomar conhecimento os mortos. Mas a gente das cidades não sabe de forma alguma como prestar homenagem àquele que vai dormir, lá dos sete palmos, o sono eterno. Compreendem-no um tanto melhor, porém, nos distritos rurais, e nenhures tão bem quanto na paróquia de Svartsjö, no Värmland.
Se morres na paróquia de Svartsjö, fica logo sabendo que ganharás um caixão em tudo igual ao que cabe aos demais – um caixão decente, forrado de preto, da mesma classe que os caixões em que o juiz distrital e o delegado de polícia baixaram à sepultura o ano passado. Isto porque o mesmo marceneiro faz todos os caixões, e só dispõe de um único modelo: nenhum há de sair melhor ou pior do que o outro. E fica sabendo também, pois tantas vezes o tem visto, que serás transportado até a igreja numa carroça de trabalho, adrede pintada de preto para o ato. Não deves de modo algum preocupar-te com penachos, cousas que todos desconhecem na paróquia. E fica sabendo, ainda, que os cavalos levarão xairéis, presos aos arções das selas, e hás de ser conduzido tão amorosamente, e de modo tão solene, quanto um simples campônio.
Mas não te alarmes, caso não tenhas tido coroas em número suficiente: não haverá uma só flor no féretro. Exige a praxe que o esquife seja forrado de preto, e rebrilhante, e nada impeça de vê-lo bem. Não tens de preocupar-te se terás um cortejo bastante numeroso, porquanto as pessoas que moram na tua aldeia sem dúvida te acompanharão todas juntas. Não procures saber se há quem chore ou soluce em torno do teu ataúde. Nunca se choram os mortos quando estes já se encontram no alto do outeiro, diante da igreja de Svartsjö.
Não se choram mais lágrimas por um rapaz novo, cheio de vida, que baqueou justamente quando começava a ser o arrimo dos seus pobres e velhos pais, do que por ti. Colocar-te-ão sobre dois cavaletes de cor preta, ante a porta do paço paroquial, e toda uma multidão, a lanço e lanço, se irá ajuntando em derredor de ti. As mulheres todas levarão os lenços nas mãos. Mas ninguém há de chorar: todos os lenços estarão bem dobrados, e nenhum deles há de procurar os olhos... Não receies que se derramem por ti tantas lágrimas quantas pelos demais defuntos. Haveriam de chorar se fosse o caso, mas tal não acontece.
Podes compreender agora que, se houvesse pesar em demasia sobre uma campa, quão triste não haveria de sentir-se aquele que ninguém pranteia! Eles sabem o que fazem, lá em Svartsjö. Eles se portam como é de uso e costume ali há muitas centenas de anos.
Mas, enquanto permaneces no outeiro da igreja, tu és um ser poderoso e magnífico, posto não hajas recebido flores nem lágrimas. Ninguém vai à igreja para saber quem és. E assim, em silêncio, aproximar-se-ão do ataúde e de pé o contemplarão. A ninguém ocorre ofender o defunto compadecendo-se dele. Ninguém manifesta outra opinião senão a de que foi bom que chegasse a sua hora.
De maneira alguma sucederá como na cidade, onde serias sepultado num dia qualquer da semana. Em Svartsjö, terás sepultura num domingo, de modo que em torno de ti esteja reunida a comunidade inteira. Lá verá, ao lado do teu féretro, tanto a jovem com quem dançaste na última noite de São João como o homem com quem fizeste troca de cavalos na última feira. Terás o mestre-escola que te ensinava a ler quando eras menino, e que de ti se esqueceu, embora ainda te lembre tanto dele; e terá também o velho parlamentar que nunca dantes te havia cumprimentado. Não, não é como na cidade: lá os homens mal se virariam para ver-te à tua passagem.
Quando chegam as compridas correias e as põem debaixo do caixão, não há ninguém que não acompanhe com interesse todos os movimentos.
Não imaginas que espécie de zelador tem a igreja de Svartsjö. É um velho soldado, com uns ares de marechal-de-campo. Traz os cabelos cortados à escovinha, retorcidos os bigodes, e usa cavanhaque; é esbelto e alto, sempre empertigado, passo leve e firme. Aos domingos veste uma sobrecasaca bem escovada, de bom tecido. Na verdade, é o mais belo ancião que se poderia arranjar. É ele quem vai na frente, à testa do cortejo. Depois dele vem o porta-maça.
Escusado dizer que o porta-maça faz pobre figura em comparação com o zelador da igreja. Pode-se dar que o chapéu lhe fique demasiado grande, ou fora de moda. Nota-se que está bastante constrangido ali, mas desde quando não se sente contrafeito um porta-maça?
Assim chegas, tu mesmo, no teu féretro, com os seis carregadores, e vêm-se aproximando também o pastor e o sacristão, os moradores da aldeia, e a paróquia em peso. Todos os fiéis te acompanham ao campo-santo: disto podes estar certo.
Mas agora prestarás bem atenção a uma cousa: vê como parecem humildes e pobres esses que te acompanham. Não há entre eles pessoas enfatuadas como as da cidade; só a gente simples e modesta de Svartsjö. Apenas se encontra ali alguém que é deveras grande e digno de reverência, e esse alguém és tu, que morto estás. Os outros, coitados, terão de se levantar no dia seguinte para recomeçarem as suas duras e árduas fainas; sentar-se-ão em suas velhas e míseras choupanas, e tornarão a vestir as suas velhas roupas esfarrapadas. Os outros, coitados, hão de continuar sempre atribulados, atormentados, torturados, oprimidos, humilhados pela miséria.
Se um forasteiro marchasse a teu lado até à cova, ficaria mais comovido ao ver as pessoas que tomam parte no cortejo fúnebre do que ao pensar em ti, que morto estás. Não precisas nunca mais examinar a gola de veludo da casaca, a ver se a orla se lhe começa a desbotar pelos rebordos; já não é mister dobrares cuidadosamente o lenço a fim de lhe esconderes o rasgão. Nunca dos nuncas necessitarás pedir aos mercadores da aldeia que te vendam fiado; e não sentirás jamais como te vai fugindo a energia para o trabalho, e assim não estarás à espera do dia em que te convertas num pesado fardo para a comunidade.
Enquanto te acompanham ao túmulo, não há um só dentre eles que não imagine que é preferível morrer, que é melhor ir para o Céu, em meio às brancas nuvens da manhã, do que sofrer sempre esta vida cheia de tantas vicissitudes.
Quando se chega ao muro do cemitério, onde a cova está aberta, substituem-se as correias por grossas cordas, e os que te conduzem o féretro sobem para os montes de terra solta e te fazem baixar à tumba.
Concluído isto, o sacristão se aproxima da beira do sepulcro e põe-se a cantar: - “Eu vou para a morte...”
Ele canta o salmo sozinho: nem o pastor nem ninguém da congregação o ajuda. Mas o sacristão tem de cantar; e, por mais rijo que sopre o vento norte, por mais abrasador que lhe bata o sol no rosto, ele canta.
O sacristão já é muito velho, e não lhe resta muita voz para cantar. Sabe que esta já não soa tão melodiosa agora, ao cantar para o morto no fundo da sepultura, como o era nos dias da sua mocidade, mas cantará, porque este é o seu dever.
Pois, fica sabendo, no dia em que lhe faltasse de todo a voz, de modo que não pudesse cantar, ver-se-ia obrigado a pedir demissão do cargo, e seria o mesmo que lançar-se na mais negra miséria.
Por isso, toda a congregação se toma de ansiedade sempre que o velho sacristão principia a cantar: todos perguntam a si mesmos se essa voz se agüentará firme através de todos os versículos. Mas ninguém o acompanha, nem um só dos fiéis presentes, porque não é possível tal cousa, não é de uso. Jamais se canta à beira do túmulo em Svartsjö. Na igreja só se canta o primeiro salmo, nas matinas de Natal.
Contudo, se alguém prestasse bem ouvidos, haveria de observar que o sacristão não está cantando sozinho. Em verdade, outra voz o acompanha, mas o tom lhe é tão precisamente igual que as duas vozes se misturam, como se fossem uma só.
Essa outra voz, que canta em acompanhamento, pertence a um velhinho que traja uma comprida vestidura de burel pardo. É mais idoso que o sacristão, mas solta tudo quanto tem de voz para ajudá-lo.
E essa voz, como foi dito, é absolutamente do mesmo timbre que a do sacristão, e tão semelhantes são as duas que não se pode deixar de ficar maravilhado.
Mas repara-se de mais perto, e vê-se que o velhinho do burel pardo é, deveras, muito parecido com o sacristão: o mesmo nariz, a mesma barba, a mesmíssima boca, somente um tanto mais velho e mais maltratado pela vida. Compreende-se logo que o pobrezinho é irmão do sacristão, e fica-se sabendo, por igual, o motivo que o fez acudir em auxílio deste.
Imagina só: jamais ao velhinho lhe correram bem as cousas neste baixo mundo, sempre perseguido da má sorte, e de uma feita abriu falência, arrastando o sacristão na sua desgraça. Ele sabe que, por culpa sua, o irmão tem de lutar com sérias dificuldades.
O sacristão tentou endireitar-lhe a vida e os negócios, mas sem resultado, porque o velhinho não é daqueles a quem se possa dar a mão: ele sempre carregou consigo o infortúnio, e nunca teve a necessária força para vencer.
Ao invés, o sacristão tem sido a luz refulgente da família, enquanto o outro não tem feito senão receber e receber sempre, sem nada restituir.
Oh! Falar em restituir, santo Deus! Ele que é tão pobre! Devíeis, Senhor Deus, ir ver a choça em que mora, lá no bosque!
Bem sabe o velhinho que tem sido um fardo pesado, a tristeza e o tormento, sim, um suplício, para o irmão e para todos os seres humanos.
Mas considera: nos últimos tempos tornou-se importante, e presentemente correm-lhe os negócios à feição. Já agora, pode restituir alguma cousa. E é o que está fazendo. Ajuda o irmão, o sacristão, que tem sido o seu farol, a animação e alegria em todos os dias da sua vida. Ajuda-o neste instante a cantar, a fim de que possa manter-se no emprego.
O velhinho não vai à igreja, por lhe parecer que todos reparam em sua pessoa, pois não tem roupas pretas domingueiras. Mas sobe a encosta da igreja aos domingos, a ver se lá em cima há algum caixão por sobre os cavaletes pretos, diante do paço paroquial. Se encontra algum, acompanha-o até o cemitério, e faz o sacrifício de apresentar-se com a sua velha estamenta parda, e ajuda o irmão com a sua desafinada voz.
Ele ouve perfeitamente quão mal lhe sai o canto, e, assim, coloca-se por detrás de todos, e não ousa acercar-se do túmulo. Mas canta, ah! isto ele o faz. E não seria muito perigoso se a voz do sacristão falhasse numa que outra nota, porque “ele” ali está para garanti-lo...
No cemitério ninguém se ri do canto. Mas, de regresso aos lares, e desfeita a recolhida unção, falam do que passou na igreja, e riem do canto do sacristão – riem tanto dele como do irmão. Não se zanga o sacristão com tal cousa, pois não é do seu temperamento, mas o velhinho sofre com isto e preocupa-se. A semana inteira treme ao só pensamento do domingo, mas, chegado este, e apesar de tudo, ei-lo a subir pontualmente ao cemitério e cumprir o seu dever.
Tu, porém, lá do fundo do caixão, tu não pensas tão mal assim de tais cânticos. Achas até que é boa música. Não é verdade que gostarias de ser enterrado em Svartsjö só por causa desses cantos?
Diz o salmo que tudo é um eterno caminhar para a morte, e, quando os dois velhos cantam, esses dois que passaram a vida inteira pelejando um pelo outro, sente-se quão dura e amarga é a vida, e fica-se muito contente de estar morto.
E assim acaba o canto: o pastor lança alguns punhados de cinza sobre o ataúde e reza uma oração por ti.
Ao depois, põem-se de novo a cantar as duas velhas vozes: - “Eu vou para o Céu...”
E não cantam agora estes versos melhor do que antes. As duas vozes se lhes tornam mais fracas e mais lamentosas à medida que cantam.
Mas para ti se abre o espaço, vasto e infinito, e lá vais subindo com ansioso júbilo, flutuando, e tudo o que é da Terra vai sumindo, esfumando-se, empalidecendo.
Mas as derradeiras notas que da Terra ouves são, todavia, como um hino de Fidelidade e Amor. Em meio ao teu vôo indeciso, há de o pobre canto despertar em ti saudade de tudo quanto aqui na Terra encontraste, levando-te para o Alto. E ele far-te-á transfulgir ainda como uma luz esplendorosa e far-te-á belo como um anjo do Senhor..."
Selma Lagerlöf In “Mar de histórias: antologia do conto mundial, VI: caminhos cruzados/ [organizadores e tradutores] Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai. -4.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira
De tais cousas jamais precisam tomar conhecimento os mortos. Mas a gente das cidades não sabe de forma alguma como prestar homenagem àquele que vai dormir, lá dos sete palmos, o sono eterno. Compreendem-no um tanto melhor, porém, nos distritos rurais, e nenhures tão bem quanto na paróquia de Svartsjö, no Värmland.
Se morres na paróquia de Svartsjö, fica logo sabendo que ganharás um caixão em tudo igual ao que cabe aos demais – um caixão decente, forrado de preto, da mesma classe que os caixões em que o juiz distrital e o delegado de polícia baixaram à sepultura o ano passado. Isto porque o mesmo marceneiro faz todos os caixões, e só dispõe de um único modelo: nenhum há de sair melhor ou pior do que o outro. E fica sabendo também, pois tantas vezes o tem visto, que serás transportado até a igreja numa carroça de trabalho, adrede pintada de preto para o ato. Não deves de modo algum preocupar-te com penachos, cousas que todos desconhecem na paróquia. E fica sabendo, ainda, que os cavalos levarão xairéis, presos aos arções das selas, e hás de ser conduzido tão amorosamente, e de modo tão solene, quanto um simples campônio.
Mas não te alarmes, caso não tenhas tido coroas em número suficiente: não haverá uma só flor no féretro. Exige a praxe que o esquife seja forrado de preto, e rebrilhante, e nada impeça de vê-lo bem. Não tens de preocupar-te se terás um cortejo bastante numeroso, porquanto as pessoas que moram na tua aldeia sem dúvida te acompanharão todas juntas. Não procures saber se há quem chore ou soluce em torno do teu ataúde. Nunca se choram os mortos quando estes já se encontram no alto do outeiro, diante da igreja de Svartsjö.
Não se choram mais lágrimas por um rapaz novo, cheio de vida, que baqueou justamente quando começava a ser o arrimo dos seus pobres e velhos pais, do que por ti. Colocar-te-ão sobre dois cavaletes de cor preta, ante a porta do paço paroquial, e toda uma multidão, a lanço e lanço, se irá ajuntando em derredor de ti. As mulheres todas levarão os lenços nas mãos. Mas ninguém há de chorar: todos os lenços estarão bem dobrados, e nenhum deles há de procurar os olhos... Não receies que se derramem por ti tantas lágrimas quantas pelos demais defuntos. Haveriam de chorar se fosse o caso, mas tal não acontece.
Podes compreender agora que, se houvesse pesar em demasia sobre uma campa, quão triste não haveria de sentir-se aquele que ninguém pranteia! Eles sabem o que fazem, lá em Svartsjö. Eles se portam como é de uso e costume ali há muitas centenas de anos.
Mas, enquanto permaneces no outeiro da igreja, tu és um ser poderoso e magnífico, posto não hajas recebido flores nem lágrimas. Ninguém vai à igreja para saber quem és. E assim, em silêncio, aproximar-se-ão do ataúde e de pé o contemplarão. A ninguém ocorre ofender o defunto compadecendo-se dele. Ninguém manifesta outra opinião senão a de que foi bom que chegasse a sua hora.
De maneira alguma sucederá como na cidade, onde serias sepultado num dia qualquer da semana. Em Svartsjö, terás sepultura num domingo, de modo que em torno de ti esteja reunida a comunidade inteira. Lá verá, ao lado do teu féretro, tanto a jovem com quem dançaste na última noite de São João como o homem com quem fizeste troca de cavalos na última feira. Terás o mestre-escola que te ensinava a ler quando eras menino, e que de ti se esqueceu, embora ainda te lembre tanto dele; e terá também o velho parlamentar que nunca dantes te havia cumprimentado. Não, não é como na cidade: lá os homens mal se virariam para ver-te à tua passagem.
Quando chegam as compridas correias e as põem debaixo do caixão, não há ninguém que não acompanhe com interesse todos os movimentos.
Não imaginas que espécie de zelador tem a igreja de Svartsjö. É um velho soldado, com uns ares de marechal-de-campo. Traz os cabelos cortados à escovinha, retorcidos os bigodes, e usa cavanhaque; é esbelto e alto, sempre empertigado, passo leve e firme. Aos domingos veste uma sobrecasaca bem escovada, de bom tecido. Na verdade, é o mais belo ancião que se poderia arranjar. É ele quem vai na frente, à testa do cortejo. Depois dele vem o porta-maça.
Escusado dizer que o porta-maça faz pobre figura em comparação com o zelador da igreja. Pode-se dar que o chapéu lhe fique demasiado grande, ou fora de moda. Nota-se que está bastante constrangido ali, mas desde quando não se sente contrafeito um porta-maça?
Assim chegas, tu mesmo, no teu féretro, com os seis carregadores, e vêm-se aproximando também o pastor e o sacristão, os moradores da aldeia, e a paróquia em peso. Todos os fiéis te acompanham ao campo-santo: disto podes estar certo.
Mas agora prestarás bem atenção a uma cousa: vê como parecem humildes e pobres esses que te acompanham. Não há entre eles pessoas enfatuadas como as da cidade; só a gente simples e modesta de Svartsjö. Apenas se encontra ali alguém que é deveras grande e digno de reverência, e esse alguém és tu, que morto estás. Os outros, coitados, terão de se levantar no dia seguinte para recomeçarem as suas duras e árduas fainas; sentar-se-ão em suas velhas e míseras choupanas, e tornarão a vestir as suas velhas roupas esfarrapadas. Os outros, coitados, hão de continuar sempre atribulados, atormentados, torturados, oprimidos, humilhados pela miséria.
Se um forasteiro marchasse a teu lado até à cova, ficaria mais comovido ao ver as pessoas que tomam parte no cortejo fúnebre do que ao pensar em ti, que morto estás. Não precisas nunca mais examinar a gola de veludo da casaca, a ver se a orla se lhe começa a desbotar pelos rebordos; já não é mister dobrares cuidadosamente o lenço a fim de lhe esconderes o rasgão. Nunca dos nuncas necessitarás pedir aos mercadores da aldeia que te vendam fiado; e não sentirás jamais como te vai fugindo a energia para o trabalho, e assim não estarás à espera do dia em que te convertas num pesado fardo para a comunidade.
Enquanto te acompanham ao túmulo, não há um só dentre eles que não imagine que é preferível morrer, que é melhor ir para o Céu, em meio às brancas nuvens da manhã, do que sofrer sempre esta vida cheia de tantas vicissitudes.
Quando se chega ao muro do cemitério, onde a cova está aberta, substituem-se as correias por grossas cordas, e os que te conduzem o féretro sobem para os montes de terra solta e te fazem baixar à tumba.
Concluído isto, o sacristão se aproxima da beira do sepulcro e põe-se a cantar: - “Eu vou para a morte...”
Ele canta o salmo sozinho: nem o pastor nem ninguém da congregação o ajuda. Mas o sacristão tem de cantar; e, por mais rijo que sopre o vento norte, por mais abrasador que lhe bata o sol no rosto, ele canta.
O sacristão já é muito velho, e não lhe resta muita voz para cantar. Sabe que esta já não soa tão melodiosa agora, ao cantar para o morto no fundo da sepultura, como o era nos dias da sua mocidade, mas cantará, porque este é o seu dever.
Pois, fica sabendo, no dia em que lhe faltasse de todo a voz, de modo que não pudesse cantar, ver-se-ia obrigado a pedir demissão do cargo, e seria o mesmo que lançar-se na mais negra miséria.
Por isso, toda a congregação se toma de ansiedade sempre que o velho sacristão principia a cantar: todos perguntam a si mesmos se essa voz se agüentará firme através de todos os versículos. Mas ninguém o acompanha, nem um só dos fiéis presentes, porque não é possível tal cousa, não é de uso. Jamais se canta à beira do túmulo em Svartsjö. Na igreja só se canta o primeiro salmo, nas matinas de Natal.
Contudo, se alguém prestasse bem ouvidos, haveria de observar que o sacristão não está cantando sozinho. Em verdade, outra voz o acompanha, mas o tom lhe é tão precisamente igual que as duas vozes se misturam, como se fossem uma só.
Essa outra voz, que canta em acompanhamento, pertence a um velhinho que traja uma comprida vestidura de burel pardo. É mais idoso que o sacristão, mas solta tudo quanto tem de voz para ajudá-lo.
E essa voz, como foi dito, é absolutamente do mesmo timbre que a do sacristão, e tão semelhantes são as duas que não se pode deixar de ficar maravilhado.
Mas repara-se de mais perto, e vê-se que o velhinho do burel pardo é, deveras, muito parecido com o sacristão: o mesmo nariz, a mesma barba, a mesmíssima boca, somente um tanto mais velho e mais maltratado pela vida. Compreende-se logo que o pobrezinho é irmão do sacristão, e fica-se sabendo, por igual, o motivo que o fez acudir em auxílio deste.
Imagina só: jamais ao velhinho lhe correram bem as cousas neste baixo mundo, sempre perseguido da má sorte, e de uma feita abriu falência, arrastando o sacristão na sua desgraça. Ele sabe que, por culpa sua, o irmão tem de lutar com sérias dificuldades.
O sacristão tentou endireitar-lhe a vida e os negócios, mas sem resultado, porque o velhinho não é daqueles a quem se possa dar a mão: ele sempre carregou consigo o infortúnio, e nunca teve a necessária força para vencer.
Ao invés, o sacristão tem sido a luz refulgente da família, enquanto o outro não tem feito senão receber e receber sempre, sem nada restituir.
Oh! Falar em restituir, santo Deus! Ele que é tão pobre! Devíeis, Senhor Deus, ir ver a choça em que mora, lá no bosque!
Bem sabe o velhinho que tem sido um fardo pesado, a tristeza e o tormento, sim, um suplício, para o irmão e para todos os seres humanos.
Mas considera: nos últimos tempos tornou-se importante, e presentemente correm-lhe os negócios à feição. Já agora, pode restituir alguma cousa. E é o que está fazendo. Ajuda o irmão, o sacristão, que tem sido o seu farol, a animação e alegria em todos os dias da sua vida. Ajuda-o neste instante a cantar, a fim de que possa manter-se no emprego.
O velhinho não vai à igreja, por lhe parecer que todos reparam em sua pessoa, pois não tem roupas pretas domingueiras. Mas sobe a encosta da igreja aos domingos, a ver se lá em cima há algum caixão por sobre os cavaletes pretos, diante do paço paroquial. Se encontra algum, acompanha-o até o cemitério, e faz o sacrifício de apresentar-se com a sua velha estamenta parda, e ajuda o irmão com a sua desafinada voz.
Ele ouve perfeitamente quão mal lhe sai o canto, e, assim, coloca-se por detrás de todos, e não ousa acercar-se do túmulo. Mas canta, ah! isto ele o faz. E não seria muito perigoso se a voz do sacristão falhasse numa que outra nota, porque “ele” ali está para garanti-lo...
No cemitério ninguém se ri do canto. Mas, de regresso aos lares, e desfeita a recolhida unção, falam do que passou na igreja, e riem do canto do sacristão – riem tanto dele como do irmão. Não se zanga o sacristão com tal cousa, pois não é do seu temperamento, mas o velhinho sofre com isto e preocupa-se. A semana inteira treme ao só pensamento do domingo, mas, chegado este, e apesar de tudo, ei-lo a subir pontualmente ao cemitério e cumprir o seu dever.
Tu, porém, lá do fundo do caixão, tu não pensas tão mal assim de tais cânticos. Achas até que é boa música. Não é verdade que gostarias de ser enterrado em Svartsjö só por causa desses cantos?
Diz o salmo que tudo é um eterno caminhar para a morte, e, quando os dois velhos cantam, esses dois que passaram a vida inteira pelejando um pelo outro, sente-se quão dura e amarga é a vida, e fica-se muito contente de estar morto.
E assim acaba o canto: o pastor lança alguns punhados de cinza sobre o ataúde e reza uma oração por ti.
Ao depois, põem-se de novo a cantar as duas velhas vozes: - “Eu vou para o Céu...”
E não cantam agora estes versos melhor do que antes. As duas vozes se lhes tornam mais fracas e mais lamentosas à medida que cantam.
Mas para ti se abre o espaço, vasto e infinito, e lá vais subindo com ansioso júbilo, flutuando, e tudo o que é da Terra vai sumindo, esfumando-se, empalidecendo.
Mas as derradeiras notas que da Terra ouves são, todavia, como um hino de Fidelidade e Amor. Em meio ao teu vôo indeciso, há de o pobre canto despertar em ti saudade de tudo quanto aqui na Terra encontraste, levando-te para o Alto. E ele far-te-á transfulgir ainda como uma luz esplendorosa e far-te-á belo como um anjo do Senhor..."
Selma Lagerlöf In “Mar de histórias: antologia do conto mundial, VI: caminhos cruzados/ [organizadores e tradutores] Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai. -4.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Lapso
Foi com enjôo e desgosto que o engenheiro oito interrompeu o que fazia e foi para a sala do engenheiro chefe. Não devia se tratar de assunto de trabalho: disso o chefe se desincumbia a toque de caixa, de passagem pela sala dos engenheiros, ou, se o caso exigisse, com a equipe reunida na enorme mesa da sala contígua. No gabinete da chefia a conversa costumava ser de outra natureza, em especial se precedida de chamado solene da secretária; ali, aquele homenzinho gostava de exercitar sua política de boas relações, que consistia em bajular o interlocutor e insinuar vagas maldades sobre a reputação e a competência dos outros, com muita sutileza, é claro, de modo que nenhum comentário seu pudesse ser reproduzido fora dali, indispondo-o com os outros engenheiros.
Indispor-se com qualquer dos engenheiros era coisa que o chefe evitava a todo custo, pois bastava uma ligeira turbulência na diretoria e todas as chefias abaixo dela rearranjavam-se conforme critérios insondáveis, de forma que quem num dia desfrutasse da privacidade do gabinete do chefe podia na manhã seguinte ocupar uma das inúmeras mesas da sala comum dos engenheiros ou ir desempenhar suas funções em outro departamento, ou no campo, ou alhures. E, como qualquer dos engenheiros estava apto a fazer o percurso inverso, tão importante quanto evitar que isso acontecesse era fazer com que cada um pensasse merecer sua amizade e especial consideração. Desnecessário dizer que o restante dos funcionários não tinha o mesmo tratamento; quanto mais baixa a posição hierárquica, menor a atenção dispensada pelo engenheiro chefe, de modo que quem ocupava as regiões mais sombrias do organograma, os pequenos funcionários da administração, os peões de obra, só podiam ouvir dele uma ordem ríspida ou uma descompostura grosseira, porque “essa gente, se você trata bem, não te respeita”. Isso excepcionalmente; de ordinário ele não lhes dirigia a palavra.
Pois lá estava o engenheiro oito, acomodado numa das poltronas que ficavam em frente à mesa do engenheiro chefe, esperando ouvir a arenga da vez com paciência estóica e redobrada atenção, porque o homem era especialmente hábil em colocar palavras na boca do interlocutor. Lá estava ele, meio nauseado, observando os olhos baços do chefe vagarem pelas linhas entre as paredes e o teto, pelas colunas das estantes, pelos objetos dispostos em rigorosa ordem sobre a mesa, como se procurassem as palavras precisas para dizer algo de extrema importância, e justo quando aquelas duas poças de água turva encontram o seu próprio olhar, e enfim a coisa começa, o engenheiro oito ouve abrir-se atrás de si a porta do gabinete, e uma voz de mulher que diz: “com licença, doutor...”. E ao ver o olhar do chefe voltar-se na direção da voz ele tem a súbita sensação de que algo estranho está acontecendo, e ele mesmo se volta e vê entrar a mulher vestida com o uniforme azul dos “Serviços Gerais”, acompanhada de uma outra mulher.
De fato era estranho, porque essa gente os “Serviços Gerais” não costumava pedir licença para entrar nos escritórios. Podiam chegar a qualquer hora do dia para executar um reparo, trocar uma lâmpada, servir o café, recolher o lixo,etc.. Era quase como se fizessem parte do mobiliário, do equipamento, e ninguém se incomodava com a presença deles, nem mesmo quando era preciso interromper uma discussão importante devido à barulheira que faziam com copos e xícaras, por exemplo. Tinham, em geral, mas as mulheres especialmente, os olhos postos no chão ou nalgum ponto fugidio, e de ordinário não falavam nada; quando falavam, era o essencial, algo como “café ou chá?”, açúcar?, “gelo?”.
Mas, por algum motivo indecifrável, naquele dia uma mulher de uniforme azul abriu a porta do gabinete da chefia, olhou nos olhos do chefe, e disse: “com licença, doutor, eu vim apresentar uma nova funcionária da limpeza, dona Rosália”. E isso era ainda mais estranho, pois ninguém jamais havia julgado necessário apresentar quem quer que fosse dos “Serviços Gerais”. Então o engenheiro oito começou a temer pela mulher de azul e pela outra, porque imaginou que o engenheiro chefe podia achar extremamente impertinente tal intromissão, e sobretudo porque aquela dona Rosália, funcionária nova, ainda sem o estigma do uniforme azul, era assim ainda mais lamentável, quase andrajosa, talvez um pouco descuidada do asseio de suas roupas puídas... Decerto aconteceu de a secretária ausentar-se no preciso momento em que as duas chegavam; do contrário ela teria percebido o incomum da situação e de alguma forma civilizada evitado que as pobres entrassem e se expusessem à grosseria, à crueldade de que o chefe era capaz com a gente humilde.
E porque a secretária não estava em seu posto naquele momento, como por um desses ínfimos acasos que precipitam os eventos do Universo a secretária se ausentasse naquele preciso momento, eis que agora a mulher de uniforme azul conduz uma andrajosa dona Rosália, funcionária nova da limpeza, ainda sem o uniforme azul a remediar-lhe a aparência lamentável, até o estupefato engenheiro chefe, sem suspeitar que a conduz e a si mesma para o desastre, a humilhação, como se já não lhes bastassem o desastre e a humilhação de existirem assim, de forma tão precária. E não há nada que o engenheiro oito possa fazer para salvá-las. De nada serve cerrar os dentes e contrair todos os músculos do corpo quando a mulher diz “este é doutor fulano, o engenheiro chefe”, e uma desavisada dona Rosália estende a mão maltratada para cumprimentá-lo, e inconcebível seria deixar escapar o grito que ecoa no cérebro: “não faça isso, dona Rosália, esse homem nunca vai lhe dar a mão!”. Que dona Rosália fique com a mão suspensa, humilhada, ainda não é nada; é certo que o chefe as escorrace do gabinete, primeiro por existirem em sua presença, depois por interromperem, sem qualquer motivo justificável, a conversa de dois engenheiros.
Ocorre que há dias em que tudo de estranho acontece. É com espanto que o engenheiro oito vê o chefe, talvez pego de surpresa, tocar frouxamente a mão grossa e curtida de dona Rosália, não sem que hesitasse, lhe parece. Aliviado, ligeiramente arfante da tensão do minuto anterior, quase chega a inclinar-se adiante para que quando ouça a mulher dizer “e este é doutor sicrano, o engenheiro oito”, ele prontamente aperte a mão escalavrada de dona Rosália, sem nenhuma hesitação, sem sombra de repugnância.
Mas a mulher de azul julga que já está bem cumprida a formalidade, e diz: “era isto, doutor, com licença”. E saem as duas, sem mais delongas, sob o olhar ainda estupefato do chefe, que enfim se refaz e passa da porta que se fecha às costas das mulheres para as linhas entre as paredes e o teto, daí às colunas das estantes, e se demora nos objetos dispostos em rigorosa ordem sobre a mesa, como a procurar a palavra justa que diga uma coisa extremamente importante.
aveloh
Indispor-se com qualquer dos engenheiros era coisa que o chefe evitava a todo custo, pois bastava uma ligeira turbulência na diretoria e todas as chefias abaixo dela rearranjavam-se conforme critérios insondáveis, de forma que quem num dia desfrutasse da privacidade do gabinete do chefe podia na manhã seguinte ocupar uma das inúmeras mesas da sala comum dos engenheiros ou ir desempenhar suas funções em outro departamento, ou no campo, ou alhures. E, como qualquer dos engenheiros estava apto a fazer o percurso inverso, tão importante quanto evitar que isso acontecesse era fazer com que cada um pensasse merecer sua amizade e especial consideração. Desnecessário dizer que o restante dos funcionários não tinha o mesmo tratamento; quanto mais baixa a posição hierárquica, menor a atenção dispensada pelo engenheiro chefe, de modo que quem ocupava as regiões mais sombrias do organograma, os pequenos funcionários da administração, os peões de obra, só podiam ouvir dele uma ordem ríspida ou uma descompostura grosseira, porque “essa gente, se você trata bem, não te respeita”. Isso excepcionalmente; de ordinário ele não lhes dirigia a palavra.
Pois lá estava o engenheiro oito, acomodado numa das poltronas que ficavam em frente à mesa do engenheiro chefe, esperando ouvir a arenga da vez com paciência estóica e redobrada atenção, porque o homem era especialmente hábil em colocar palavras na boca do interlocutor. Lá estava ele, meio nauseado, observando os olhos baços do chefe vagarem pelas linhas entre as paredes e o teto, pelas colunas das estantes, pelos objetos dispostos em rigorosa ordem sobre a mesa, como se procurassem as palavras precisas para dizer algo de extrema importância, e justo quando aquelas duas poças de água turva encontram o seu próprio olhar, e enfim a coisa começa, o engenheiro oito ouve abrir-se atrás de si a porta do gabinete, e uma voz de mulher que diz: “com licença, doutor...”. E ao ver o olhar do chefe voltar-se na direção da voz ele tem a súbita sensação de que algo estranho está acontecendo, e ele mesmo se volta e vê entrar a mulher vestida com o uniforme azul dos “Serviços Gerais”, acompanhada de uma outra mulher.
De fato era estranho, porque essa gente os “Serviços Gerais” não costumava pedir licença para entrar nos escritórios. Podiam chegar a qualquer hora do dia para executar um reparo, trocar uma lâmpada, servir o café, recolher o lixo,etc.. Era quase como se fizessem parte do mobiliário, do equipamento, e ninguém se incomodava com a presença deles, nem mesmo quando era preciso interromper uma discussão importante devido à barulheira que faziam com copos e xícaras, por exemplo. Tinham, em geral, mas as mulheres especialmente, os olhos postos no chão ou nalgum ponto fugidio, e de ordinário não falavam nada; quando falavam, era o essencial, algo como “café ou chá?”, açúcar?, “gelo?”.
Mas, por algum motivo indecifrável, naquele dia uma mulher de uniforme azul abriu a porta do gabinete da chefia, olhou nos olhos do chefe, e disse: “com licença, doutor, eu vim apresentar uma nova funcionária da limpeza, dona Rosália”. E isso era ainda mais estranho, pois ninguém jamais havia julgado necessário apresentar quem quer que fosse dos “Serviços Gerais”. Então o engenheiro oito começou a temer pela mulher de azul e pela outra, porque imaginou que o engenheiro chefe podia achar extremamente impertinente tal intromissão, e sobretudo porque aquela dona Rosália, funcionária nova, ainda sem o estigma do uniforme azul, era assim ainda mais lamentável, quase andrajosa, talvez um pouco descuidada do asseio de suas roupas puídas... Decerto aconteceu de a secretária ausentar-se no preciso momento em que as duas chegavam; do contrário ela teria percebido o incomum da situação e de alguma forma civilizada evitado que as pobres entrassem e se expusessem à grosseria, à crueldade de que o chefe era capaz com a gente humilde.
E porque a secretária não estava em seu posto naquele momento, como por um desses ínfimos acasos que precipitam os eventos do Universo a secretária se ausentasse naquele preciso momento, eis que agora a mulher de uniforme azul conduz uma andrajosa dona Rosália, funcionária nova da limpeza, ainda sem o uniforme azul a remediar-lhe a aparência lamentável, até o estupefato engenheiro chefe, sem suspeitar que a conduz e a si mesma para o desastre, a humilhação, como se já não lhes bastassem o desastre e a humilhação de existirem assim, de forma tão precária. E não há nada que o engenheiro oito possa fazer para salvá-las. De nada serve cerrar os dentes e contrair todos os músculos do corpo quando a mulher diz “este é doutor fulano, o engenheiro chefe”, e uma desavisada dona Rosália estende a mão maltratada para cumprimentá-lo, e inconcebível seria deixar escapar o grito que ecoa no cérebro: “não faça isso, dona Rosália, esse homem nunca vai lhe dar a mão!”. Que dona Rosália fique com a mão suspensa, humilhada, ainda não é nada; é certo que o chefe as escorrace do gabinete, primeiro por existirem em sua presença, depois por interromperem, sem qualquer motivo justificável, a conversa de dois engenheiros.
Ocorre que há dias em que tudo de estranho acontece. É com espanto que o engenheiro oito vê o chefe, talvez pego de surpresa, tocar frouxamente a mão grossa e curtida de dona Rosália, não sem que hesitasse, lhe parece. Aliviado, ligeiramente arfante da tensão do minuto anterior, quase chega a inclinar-se adiante para que quando ouça a mulher dizer “e este é doutor sicrano, o engenheiro oito”, ele prontamente aperte a mão escalavrada de dona Rosália, sem nenhuma hesitação, sem sombra de repugnância.
Mas a mulher de azul julga que já está bem cumprida a formalidade, e diz: “era isto, doutor, com licença”. E saem as duas, sem mais delongas, sob o olhar ainda estupefato do chefe, que enfim se refaz e passa da porta que se fecha às costas das mulheres para as linhas entre as paredes e o teto, daí às colunas das estantes, e se demora nos objetos dispostos em rigorosa ordem sobre a mesa, como a procurar a palavra justa que diga uma coisa extremamente importante.
aveloh
domingo, 1 de novembro de 2009
Dia sem Deus
O menino devia ter uns sete, oito anos. Ficava num ponto estratégico do calçadão, entre um banco e uma pastelaria, de modo que passava o dia a recolher as sobras da clientela farta: uns trocados aqui, um finzinho de pastel já sem recheio ali, assim ia vivendo. Não vivia só de sobras, é preciso que se diga: tinhas as suas muitas vezes de pastel inteiro, quando um freguês se incomodava com o olhar de cãozinho e dizia ao pasteleiro que lhe desse um por sua conta. E também, em certas tardes, fechado o banco, contada e recontada a féria do dia, subtraída a importância razoável de se apresentar quando voltasse à noite para onde voltava, o menino decidia que era ocasião de banquete: entrava na pastelaria com passo firme e voz de quem paga: “um especial, um de banana com açúcar e canela por cima, bem quentinho, e uma coca-cola”.
E havia as brincadeiras, que ninguém é de ferro. É bem verdade que pouco se podia brincar ali: rodopiar no poste, catar coisinhas perdidas pelo chão, chutar tampinhas... bom mesmo era quando aparecia por lá o irmão mais velho, que tinha ponto ainda melhor, e podia se dar ao luxo de umas gazetas de vez em quando. Aí ficavam os dois um tempão no passatempo predileto: escolhiam entre as passantes a madame mais cheirosa, a de nariz mais empinado, e a acompanhavam, um de cada lado, iam reclamando com insistência os seus trocados. Em geral não se enganavam quanto à disposição da madame: gostavam de ouvi-la repetir “não tenho, não tenho”, enquanto apertava a bolsa e o passo, medrosa de que tivessem um canivete ou de que a tocassem com as mãos sujas. Ao fim de um quarteirão davam-se por satisfeitos, deixavam que se fosse a vítima lívida com os trocados intactos. Riam a valer, e de novo se punham a escolher a mais cheirosa, a mais empinada.
A boa samaritana, que por ali sempre passava, vinha já com as moedas separadas para o menino, ao que ele agradecia com uma piscadela e o polegar direito para cima; economizava-lhe assim a ladainha pedinte e os “Deus que ajude que nunca lhe falte” para os rabugentos . Se entrava na pastelaria, lá vinha o moleque saltitante e de cara limpa: “paga um pra mim, tia!”; pura formalidade, pois ela sempre se adiantava e já fazia seu pedido dobrado, coisa que incomodava demais o pasteleiro: “só hoje é o terceiro que ele come”. Se o surpreendia entretido em assustar as madames, aplicava-lhe na cabeça uns tapinhas, meio corretivos, meio cúmplices, e ele gargalhava de prazer menino.
Sucedeu que ela passasse por ali numa tarde de domingo, os pedestres rarefeitos, o calçadão assombrado de ecos, e visse de longe que o menino chorava. Por que havia de chorar esse menino? Não estaria doente ou machucado, que não era o choro da dor, que de dor choram igual todos os meninos. Contrariedade por estarem banco e pastelaria fechados? Ora, se essa gente, de pequena ainda, conhece tão bem os hábitos da cidade... Implicância da polícia, de outros meninos, do juizado de menores? Isso não. Do contrário, pernas para que te quero; esperto que era, ele não teria se abandonado a chorar ali, na soleira do banco, tão desprotegido e visível contra o imenso portal de madeira escura. Ofenderam-no, quem sabe? Mas a boa samaritana tinha para si que esse menino não se ofendia, e se às vezes o via fazer caretas de deboche e gestos obscenos aos que imprecavam contra a mendicância e a sujidade, sempre lhe pareceu que fosse por simples molecagem, nunca por indignação. Nem seria possível que chorasse de fome, porque esses meninos o primeiro que aprendem é como não se passa fome. E mesmo numa tarde esvaziada de domingo sempre haveria entre os que passavam quem lhe desse um resto de doce, uns trocados para um pão, por caridade ou desfastio, a ele que sabia olhares de cãozinho, e era miúdo e franzino, e que sabia todas as lamúrias de apiedar e aborrecer, pai morto, pai desempregado, pai sumido no mundo, mãe entrevada, mãe morta, irmãozinhos famintos, doentes, com frio... Mas ele nem se dava conta de quem passava. Deixava-se estar sentado na soleira do banco, quase ao rés do chão, as pernas meio dobradas contra o peito, e os braços que enlaçavam frouxamente as pernas...
Por que é que chorava esse menino? Que imprecasse, que mentisse, que roubasse, que tivesse um canivete, estava certo e justo, mas se esse menino chorava, assim, como esses meninos não choram, então se desmanchava a ordem precária do mundo, e o mundo era só uma rua de portas fechadas e um menino que se senta numa soleira, e se encolhe, e pousa o rosto nos joelhos, e soluça...
- Que foi?
E como ela o tocasse, e ele a olhasse e dissesse: “foi nada”, e se esquivasse, e ainda mais se encolhesse, ela o deixou, lívida, e desapareceu no domingo entre os demais que passavam.
aveloh
E havia as brincadeiras, que ninguém é de ferro. É bem verdade que pouco se podia brincar ali: rodopiar no poste, catar coisinhas perdidas pelo chão, chutar tampinhas... bom mesmo era quando aparecia por lá o irmão mais velho, que tinha ponto ainda melhor, e podia se dar ao luxo de umas gazetas de vez em quando. Aí ficavam os dois um tempão no passatempo predileto: escolhiam entre as passantes a madame mais cheirosa, a de nariz mais empinado, e a acompanhavam, um de cada lado, iam reclamando com insistência os seus trocados. Em geral não se enganavam quanto à disposição da madame: gostavam de ouvi-la repetir “não tenho, não tenho”, enquanto apertava a bolsa e o passo, medrosa de que tivessem um canivete ou de que a tocassem com as mãos sujas. Ao fim de um quarteirão davam-se por satisfeitos, deixavam que se fosse a vítima lívida com os trocados intactos. Riam a valer, e de novo se punham a escolher a mais cheirosa, a mais empinada.
A boa samaritana, que por ali sempre passava, vinha já com as moedas separadas para o menino, ao que ele agradecia com uma piscadela e o polegar direito para cima; economizava-lhe assim a ladainha pedinte e os “Deus que ajude que nunca lhe falte” para os rabugentos . Se entrava na pastelaria, lá vinha o moleque saltitante e de cara limpa: “paga um pra mim, tia!”; pura formalidade, pois ela sempre se adiantava e já fazia seu pedido dobrado, coisa que incomodava demais o pasteleiro: “só hoje é o terceiro que ele come”. Se o surpreendia entretido em assustar as madames, aplicava-lhe na cabeça uns tapinhas, meio corretivos, meio cúmplices, e ele gargalhava de prazer menino.
Sucedeu que ela passasse por ali numa tarde de domingo, os pedestres rarefeitos, o calçadão assombrado de ecos, e visse de longe que o menino chorava. Por que havia de chorar esse menino? Não estaria doente ou machucado, que não era o choro da dor, que de dor choram igual todos os meninos. Contrariedade por estarem banco e pastelaria fechados? Ora, se essa gente, de pequena ainda, conhece tão bem os hábitos da cidade... Implicância da polícia, de outros meninos, do juizado de menores? Isso não. Do contrário, pernas para que te quero; esperto que era, ele não teria se abandonado a chorar ali, na soleira do banco, tão desprotegido e visível contra o imenso portal de madeira escura. Ofenderam-no, quem sabe? Mas a boa samaritana tinha para si que esse menino não se ofendia, e se às vezes o via fazer caretas de deboche e gestos obscenos aos que imprecavam contra a mendicância e a sujidade, sempre lhe pareceu que fosse por simples molecagem, nunca por indignação. Nem seria possível que chorasse de fome, porque esses meninos o primeiro que aprendem é como não se passa fome. E mesmo numa tarde esvaziada de domingo sempre haveria entre os que passavam quem lhe desse um resto de doce, uns trocados para um pão, por caridade ou desfastio, a ele que sabia olhares de cãozinho, e era miúdo e franzino, e que sabia todas as lamúrias de apiedar e aborrecer, pai morto, pai desempregado, pai sumido no mundo, mãe entrevada, mãe morta, irmãozinhos famintos, doentes, com frio... Mas ele nem se dava conta de quem passava. Deixava-se estar sentado na soleira do banco, quase ao rés do chão, as pernas meio dobradas contra o peito, e os braços que enlaçavam frouxamente as pernas...
Por que é que chorava esse menino? Que imprecasse, que mentisse, que roubasse, que tivesse um canivete, estava certo e justo, mas se esse menino chorava, assim, como esses meninos não choram, então se desmanchava a ordem precária do mundo, e o mundo era só uma rua de portas fechadas e um menino que se senta numa soleira, e se encolhe, e pousa o rosto nos joelhos, e soluça...
- Que foi?
E como ela o tocasse, e ele a olhasse e dissesse: “foi nada”, e se esquivasse, e ainda mais se encolhesse, ela o deixou, lívida, e desapareceu no domingo entre os demais que passavam.
aveloh
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Um vaso

Nasci igual a centenas de outros, em fôrma comum e de louça ordinária. Estamparam-me umas flores e uns frisos meio borrados, e lá estava eu, no depósito, pronto para o destino que me coubesse.
Lembro-me de passar depois muito tempo entre outras quinquilharias simplórias, na seção “variedades” de um supermercado de subúrbio. Senhoras e mocinhas igualmente simplórias às vezes nos cobiçavam: tomavam-nos com mil cuidados, acariciavam-nos, consideravam longamente o preço na etiqueta, acariciavam-nos... Cheguei mesmo a ver um ou outro de meus pares ir-se embora ao fim desse ritual.
Mas eis que é hora do meu próprio destino,e o estranho portador do meu destino é um moço que chega afobado, olha-nos com ar contrafeito, consulta o relógio e, impetuoso, coloca-me no carrinho de compras, entre queijos, vinhos e outras guloseimas. Leva-me sem carícias nem ponderações preliminares.
A casa do moço era um apartamento claro, quase nu, só com os móveis indispensáveis. Enfeite nenhum, silêncio absoluto. Senti-me sozinho e deslocado naquela sala sem mais frivolidades, enquanto o moço acomodava as guloseimas na cozinha. Quando ele sai de lá, traz até mim um enorme maço de flores. Flores como eu jamais tinha visto, em nada parecidas com as que ficavam em pacotes na prateleira vizinha, e às vezes se arranjavam em um de nós, de amostra, no supermercado. Estas estavam vivas, frescas, e eram tão belas, e tantas, que mal pude acomodá-las. Fiquei lisonjeado. O moço arranja-as em mim com gestos nervosos e sai por longo tempo. Quando volta está diferente, calmo, um tanto entorpecido, eu diria, e... não vem só.
A moça nota as flores assim que a porta se abre; vem até elas, toca-as, admira-lhes a profusão, o perfume, a beleza, enquanto o moço se desculpa por minha feiúra indiscreta. Confessa que só lembrou do vaso em cima da hora, e aí teve que se arrumar com o que havia no supermercado próximo, etc., etc.. Ela parece concordar que eu não seja mesmo grande coisa, mas ama as flores, a gentileza, e sobretudo ama muito – posso ver – o moço. Passam-se então dois dias inteiros sem que ele faça outra coisa senão estar perto dela.
Quando ela se vai e as flores murcham, quase não o vejo e a mais ninguém. Sucedem-se longos dias de silêncio e brancura; o moço nem está agitado, como quando o conheci, nem calmo, como o vi depois: está distraído, compenetrado, absorto, talvez, no corriqueiro da vida. Numa certa manhã, algo na casa está mudado: algo impreciso, indefinível, um alvoroço no ar, digamos. À noite o moço se agita, sai, volta com flores. Quando a noite vem, vem com a moça.
Foi assim, tantas vezes que eu não saberia contar. Chegava numa sexta-feira e partia no domingo. Às vezes acontecia de ficar um dia mais, e então, no domingo, ela dizia: “que bom que hoje é sábado”, e o moço sorria, comovido. Ia-se a moça, murchavam as flores, longos dias iguais, alvoroço no ar, flores, moça chegando, moça partindo, flores murchando...
E, de repente, a mudança: embalam-se livros, roupas, utensílios, desmontam-se os móveis. Caminhão. Estrada. Casa nova. Chega de outro lugar mais um caminhão: são coisas da moça. Móveis do moço e da moça compõem-se em nova ordem, selecionam-se os utensílios, distribuem-se as coisas em armários e gavetas conforme utilidade e importância. A mim e a outros trastes coube-nos um compartimento da despensa, espécie de tumba onde a moça encerrou o que julgava sem utilidade ou indigno de estar à vista. É escuro este lugar, e nunca se abre, a não ser quando chega um novo velho traste.
Tudo que posso perceber daqui são vozes. Já há, por esse tempo, sempre junto às de moço e moça, voz pequenina e clara. Surge mais tarde uma outra, vagido apenas, que aos poucos vai se transformando em balbucio, sílabas, palavras inteiras. Gargalhadas, correria n o quintal, gritos de “mãos ao alto”, “um, dois, nove, cinco, dezessete, lá vou eu”. À noite – sei que é noite porque se calam as vozes pequeninas e as dos pássaros- moço e moça conversam longamente, e eu fico nostálgico de luz e de outros tempos.
Um dia ouço alguém dizer à moça que em tal lugar se prepara um evento beneficente. Será que ela não teria, para doar, algum objeto ainda em bom estado? Os objetos doados seriam vendidos numa grande feira, para ajudar na arrecadação de fundos. Silêncio. Abre-se a porta da tumba, e vejo de novo a luz, enquanto a moça pergunta: “serve?”. Sirvo. A estranha, que já me segura, agradece muito, convida para ir à festa, “vai ser no domingo, não deixe de ir”. “Sim, vou, sim”, responde a moça, entediada, querendo ficar logo sozinha. Quando enfim saímos, ela nos acompanha e me olha com estranhamento, como se visse em mim algo que nunca vira antes. Demora-se a fechar a porta.
Cá estou eu de novo à venda, entre muitos outros trastes inúteis, tirados de não sei que tumbas. Muitas pessoas passam por aqui com vagar e tédio; algumas compram, para colaborar, coisinha qualquer. De repente eu vejo chegar, aflita, aflita, a moça. Olha à volta, procura não sei quê, tem muita urgência, vê-se. E é a mim que procura. Corre quando me vê, segura-me por alguns segundos contra o peito, aliviada, como se me salvasse de grande perigo. “Vou levar isto”, diz, passando o dinheiro.
Volto à casa das vozes, mas nunca mais ao cubículo dos inúteis. Colocam-me no alto de um armário, que é para onde vão as coisas que se quer bem longe das mãozinhas buliçosas. E é aqui que passo agora a maior parte do tempo. Alguma vez o moço traz flores, e então a moça me deixa por dois ou três dias sobre um móvel mais baixo, repleto de efêmera majestade. Quando as flores murcham, ela as deita fora e amorosamente me lava; examina-me, compungida, as rachaduras de sempre, seca-me, e me repõe a salvo no alto do armário. E se é dia de limpeza na casa, ou se alguém vem procurar alguma coisa aqui em cima, ela aponta para mim e diz: “cuidado com aquele vaso”.
aveloh
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Dioloro

Minha tia-avó Deocleciana foi menina há muito, muito tempo. Casou-se no tempo de casar e teve muitos filhos, como convinha em seu tempo. Viveu decerto algumas alegrias e uns tantos desgostos, como todo mundo; de umas e de outros eu nada sei, e nem ela, que já não se lembra.
Tudo cumprido, o que restou de minha tia é quase só o que posso ver: o corpo diminuído e trêmulo, um barco à deriva na sala antiga em que a visitamos, meus pais e eu, numa tarde qualquer.
-Mãe, veja só quem está aqui: Fulana e Sicrano, e a filha mais nova deles. Lembra, mãe, sua sobrinha, filha de sua irmã Waldemira.
Anos atrás minha tia talvez ficasse constrangida por não reconhecer quem deveria. Agora, nem isto. Tudo passou, nunca foi, ou foi em demasia. Pai, mãe, irmãos, irmãs, marido, filhos e filhas, netos, os vários tons de sépia que se perfilam na parede sépia, são todos estranhos, vozes que chegam sem voz, da outra margem.
- Não sei de Waldemira.
As velhas histórias da família, casos d’antanho, aquela vez no Bom-Jardim, as mesmas visitas repetidas vezes apresentadas (“quem é mesmo essa gente?”), tudo é novo, e em seguida é nada: dissolve-se na névoa do tempo excessivo, na alvura desta mesa em que vários tempos comungam e se esvaem.
- Come um bolinho, mãe, é daqueles que a senhora gosta.
- ...
- Pedacinho só, mãe, comeu quase nada hoje. Come, antes que Dioloro chegue.
- Dioloro vem?
- Vem, mãe, acho que vem.
Ninguém sabe. Ninguém viu. Dioloro é só nome de quem foi, abracadabra que se pronuncia para que ela se lave e coma um tantinho, fogo de artifício, chuva de estrelas ... Dioloro ... O que seriam estas cintilações na sala? Vagalumes nos olhos de minha tia? Ouso perguntar?
- Tia, me conte, quem é Dioloro, tia?
É outro tempo, e primavera. Deocleciana, menina, mãozinha apertada no peito, inclina-se para a menina que a visita muitos anos depois, e lhe concede a jóia mais rara, relíquia guardada em fenda de pedra:
- É meu amor, meu amor, meu amor...
aveloh
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Campo de Agrião

À tardinha a mãe mandou que ele fosse pela última vez colher o agrião. Que amanhã isto já não seria possível, nem depois de amanhã, nem depois de depois de amanhã, nem nunca. Que amanhã muito cedo chegariam homens e madeira para levantar o armazém, e ainda que algumas touceiras resistissem ao pisoteio da construção, o que era quase impossível, e ele depois pudesse ir até o lugar delas pelo alto vão que ia ficar entre chão e assoalho, isto de nada adiantaria, pois que lá estariam longe do sol, e longe do sol nem mesmo uma verdura valente como o agrião do seco é capaz de viver. Que amanhã, pois, quando o apito da serraria anunciasse a hora de sempre o pai chegar e ele fosse colher o agrião fresco para o almoço, o canteiro de agrião já não existiria.
Então ele tomou a tijelinha das mãos da mãe, desceu os três degraus da varanda e ficou a contemplar a vastidão do terreiro, que ele sempre imaginara coberto de pés de mexerica e de melancias. Porém ali, onde antes houve pinheiros como havia ainda em toda volta da vila, ali era terra nua, nada havia, a não ser, justo no lugar em que se construiria o armazém, aquelas touceiras de agrião do seco, a que ninguém, exceto ele e o pai, dava muito valor. Amanhã nem isto haveria. Morreria o agrião para que em seu lugar se fizesse o armazém de três portas com muito comprido balcão, e por trás da parede de prateleiras o depósito de mercadorias, lugar de nichos e penumbras, bom para as brincadeiras de esconder. Sim, havia de ser bom, mas seria outra coisa, não esta que vinha desde sempre e de repente se acaba. Pois isso de as coisas se acabarem era mesmo possível, e todas as folhas que sobrassem da última colheita, até as mais tenras, acabadas de brotar, amanhã deixariam de existir. Restariam esmagadas sob os pés dos carpinteiros, sob as tábuas de pinho que aqui e ali se empilhariam à espera de se armar em construção idêntica à de todas as casas da vila, da escola, da igrejinha, do escritório, da serraria mesma, e afinal pintarem-se as paredes de idêntico amarelo e as portas e janelas do mesmo verde do mar de pinheiros.
E quando o menino acordou no dia seguinte, tudo já começava a consumar-se.
Muito tempo se passou desde então. As margens do pinheiral foram aos poucos se afastando na direção do horizonte, e tanto se afastaram que decerto despencaram pelas bordas do mundo, pois nem mesmo ao longe se via mais o contorno das araucárias. Daí que acabou por se esvaziar o pátio de toras, acalmaram-se os vapores da serraria, e tudo ficou muito quieto. Depois, uma a uma, milhares de tábuas se despregaram e foram apodrecer, ou existir, talvez, ainda, em lugar insabido; desmontaram-se as máquinas, arrasaram-se os últimos vestígios de que algo ali tenha acontecido, e por cima de tudo semeou-se um campo de soja. Por fim, mãe e pai desapareceram, o menino mesmo desapareceu, de modo que é impossível saber agora onde houve o canteiro de agrião.
aveloh
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Das razões do nome deste blog 2 ou "O ninho das alvéloas"

Tal "colisão de palavras" não é de minha autoria. Está num conto magnífico de Selma Lagerlöf (que adiante vai transcrito), escritora sueca que conheci há pouco tempo e de quem não se acha nada no Brasil, a não ser em sebos.
"O ninho das alvéloas
Hatto, o eremita, orava a Deus no deserto. Era dia de tempestade: a barba comprida e os cabelos desgrenhados esvoaçavam-lhe em trono do rosto como tufos de grama no cimo de uma velha ruína. Porém Hatto não fazia um movimento para afastar os cabelos dos olhos nem prender a barba à cinta, pois tinha os braços erguidos para o céu. Desde o amanhecer mantinha levantados os braços nodosos e peludos, tão incansavelmente como uma árvore estende os seus ramos; e contava permanecer assim até o cair da tarde.
Era um homem que aprendera a conhecer a maldade dos homens. Ele mesmo perseguira e atormentara, mas os tormentos e as perseguições que sofrera excediam o limite que seu coração podia suportar. Por isso, retirara-se para a vasta charneca; cavara nas areias da ribanceira uma espécie de caverna, e lá se tornara um santo, cujas preces subiam ao trono de Deus.
Hatto, o eremita, rezava, diante da sua caverna, a grande prece da sua vida. Rogava a Deus que fizesse raiar o dia do Juízo Final sobre esta Terra maldita. Invocava os anjos, cujas trombetas ressoantes anunciarão o fim deste reino de pecado. Invocava as ondas de sangue que afogarão as iniqüidades do mundo. Invocava a peste que encherá os cemitérios.
À volta dele estendia-se a charneca, deserta e nua. E o furacão silvava como prodigiosa ameaça sobre a terra pelada. No entanto, um pouco mais acima crescia um salgueiro de tronco enfezado e curto que formava na extremidade um grosso nó de onde rebentavam molhos de ramos tenros. Pelo outono, os habitantes da planície o despojavam de sua fresca ramagem. Pela primavera, a árvore brotava novos e flexíveis rebentos que, nos dias de vento forte, se agitavam como os cabelos e a barba de Hatto, o eremita.
O casal de alvéloas que ali costumava fazer o seu ninho queria, naquele dia precisamente, começar a construí-lo. Mas entre os galhos que os fustigavam não acharam nenhuma segurança. Chegavam com folhas secas de caniço, fibras de raízes e junco do verão anterior, e várias vezes tiveram de voltar sem nada conseguir. Foi quando avistaram o velho Hatto, que rogava a Deus que a tempestade aumentasse e varresse tanto os ninhos dos pequeninos pássaros como os das águias.
Certo, as pessoas de hoje dificilmente imaginam quanto pode ser nodoso, musgoso e negro, e como se assemelhava pouco a um homem, um velho eremita daquele tempo. A pele distendida na fronte e nas faces dava-lhe o aspecto de uma caveira, onde, no fundo das órbitas, apenas dois pequenos clarões eram resquícios de vida. Os músculos ressequidos tiravam-lhe aos membros qualquer sombra de redondeza; e os braços não passavam de longos ossos recobertos de uma crosta de carne rude e rugosa. Vestia uma velha batina preta, muito justa. Estava tostado pelo sol e enegrecido de lama. Claros, nele, somente os cabelos e a barba. Dera-lhes o sol e a chuva os mesmos tons verdes e cinzentos que ao reverso das folhas do salgueiro.
Os pássaros que procuravam lugar para seus ninhos tomaram Hatto, o eremita, por um salgueiro, tão velho quanto o outro, e que uma machadada detivera também no seu impulso para o céu. Voavam, iam-se embora, voltavam, bordejavam, giravam em torno de Hatto, tomavam pontos de referência. Calcularam a situação dele em relação às aves de rapina e às tempestades. Acharam-no pouco propício; mas a vizinhança do rio e dos caniços, seu depósito de provisões e sua oficina, decidiram-nos. Uma das alvéloas atirou-se feito uma flecha na mão erguida de Hatto e nela depositou sua fibra de raiz.
A tempestade soprava: a fibrazinha voou. Porém as alvéloas retornaram e tentaram inserir as fiadas do seu ninho entre os dedos calosos do velho ermitão. Súbito, um grosso e rude polegar calcou os pedacinhos de erva para os reter, e quatro dedos, dobrando-se por sobre aquela mão, formaram como que um tranqüilo nicho onde os pássaros poderiam construir. E Hatto continuava as suas preces: __ “Senhor, onde estão as tuas nuvens de fogo que destruíram Sodoma? Quando abrirás as cataratas celestes que levantaram a arca de Noé até o cimo do Arará?”
E no cérebro febril do solitário surgiram as visões do Juízo Final. Tremia o solo; o firmamento avermelhava-se. Mas, enquanto essas fúnebres visões lhe fascinavam a alma, seus olhos entraram a acompanhar o vôo das alvéloas, que reapareciam sem interrupção e, de cada vez, com um gritinho de contentamento, consolidavam o seu ninho com um novo pedaço de erva.
O velho não se mexia, pois, para obrigar o Senhor a escutar-lhe a prece, fizera o voto de orar imóvel do amanhecer ao pôr-do-sol. E, à medida que aumentava o cansaço, mais vivos se lhe tornavam os sonhos de visionário. Ouviu o estrondo das casas a desabar e das paredes a se desmoronarem. Passavam-lhe ante os olhos multidões aterradas e vociferantes, expulsas, acossadas pelos anjos da destruição, anjos de semblante terrivelmente belo, encouraçados de prata e de ouro, galopando em cavalos pretos, com látegos de relâmpagos.
Entretanto as alveloazinhas construíram sem tréguas. Na charneca, onde cresciam tufos mirrados, e perto do rio orlado de juncos e caniços, não faltavam materiais. Não gozaram sequer o repouso do meio-dia, e antes de baixar a noite já chegavam à cumeeira da sua construção. Antes, porém, que a noite baixasse, Hatto, cujos olhos as tinham seguido demoradamente, interessava-se pelo trabalho delas. Censurava-lhes a lentidão; indignava-se com as rajadas de vento que lhes retardavam a execução da tarefa, e decerto não suportaria que elas descansassem. E o Sol se pôs. E os pássaros volveram aos caniços do rio.
Ao despontar do dia, as alvéloas cuidaram, a princípio, que os acontecimentos da véspera não passavam de um suave sonho. Inutilmente se regulavam pelos seus pontos de referência, debalde voavam em todas as direções, subiam direito ao céu e sondavam com o olhar a imensidão da charneca: o ninho e a árvore tinham desaparecido. Pousaram sobre duas pedras que emergiam das águas e puseram-se a discutir o caso, agitando a cabecinha e meneando a longa cauda. Mas, ainda o Sol não se erguera meio palmo acima da outra margem, a sua árvore veio colocar-se no mesmo lugar da véspera. Era ela, sem dúvida, sempre tão nodosa e tão negra, e com o ninho delas sobre aquela espécie de ramo rude e truncado. E as alvéloas retomaram o seu trabalho, sem mais se deterem na consideração das maravilhas de que é tão rica a Natureza.
Hatto, o eremita, que expulsava da caverna as criancinhas, gritando-lhes que melhor seria não terem nascido, aquele Hatto cujo olho mau os pastores temiam, empenhava-se em não fazer nada que pudesse assustar ou molestar as alveloazinhas. Sabia que em relação às coisas que Deus permite na Natureza sucede o mesmo que com todas as sílabas dos Livros Sagrados: cada uma delas tem o seu sentido misterioso e místico. E descobrira o que significava aquele ninho começado entre os seus dedos. Era evidentemente a promessa de Deus de que, se ele permanecesse a orar, com os braços erguidos, até que os pássaros houvessem chocado os filhinhos, a sua prece seria escutada e o mundo destruído.
Nesse dia foi ele menos perseguido por visões lúgubres. Mal afastava os olhos do trabalho dos pássaros. Via o ninho concluir-se, os pequenos arquitetos experimentarem-no e, como reboco e pintura, colocarem-lhe na parte externa alguns liquens colhidos no verdadeiro salgueiro. Quando tiveram de mobiliá-lo e habitá-lo, procuraram as lanugens das plantas mais sedosas, e mamãe alvéloa foi a ponto de arrancar algumas das próprias penas para melhor estofar o interior da sua casa.
Os camponeses, que receavam o funesto poder das orações do eremita, tratavam de lhe aplacar a cólera levando-lhe pão e leite. Encontraram-no de pé, com as mão erguidas e o ninho na mão. - “Vejam - diziam eles - como aquele santo homem gosta dos passarinhos!” E não mais o temeram, chegaram-lhe à boca a vasilha de leite e puseram-lhe entre os lábios pedaços de pão. Depois de haver comido e bebido, Hatto repeliu os homens com palavras ásperas; porém às maldições do eremita eles só responderam com bons sorrisos.
Já desde muito o seu corpo era o escravo da sua vontade. A poder de açoites e jejuns, genuflexões de um dia inteiro e insônias de uma semana a fio, havia-o reduzido à obediência. Seus músculos de ferro mantiveram-lhe rígidos os braços dias e dias; e, quando a alvéloa, chocando seus ovos, não mais deixou o ninho, nem o cair da noite o fez voltar à sua caverna para deitar-se: dormiu sentado, com os braços estendidos para o céu. Mais de um cenobita no deserto fizera coisas ainda mais duras!
Habituara-se àqueles dois olhinhos irrequietos que o fitavam da entrada do ninho. Protegia-os contra a chuva e o granizo.
Ora, um belo dia a alvéloa se levantou e saltitou sobre a frágil fortaleza, logo seguida pelo macho, que tremia de contente. Ambos estudavam providências e mostravam-se alegres, embora o ninho estivesse cheio de um pipilar desesperado. Um instante depois, atiraram-se a uma desenfreada caça de moscas e mosquitos. E, à proporção que as moscas e mosquitos apanhados eram conduzidos ao ninho, os pipios aumentavam, a ponto de turbar as preces do piedoso eremita. Então, lento e lento, num esforço das articulações, que haviam quase desaprendido a faculdade de funcionar, os seus braços desceram; e os seus olhos de brasa mergulharam no ninho tumultuoso. Não, jamais vira ele nada tão lamentavelmente feio e miserável: corpinhos nus, sem olhos, sem asas, e seis grandes bicos escancarados. Singularmente impressionado, sentiu invadi-lo uma ternura pelos bichinhos. Daí por diante, quando suplicava a Deus que salvasse o mundo pela destruição, fazia tácita reserva para aqueles pequeninos seres indefesos. E, ao receber alimento das mãos dos camponeses, não mais lhes agradeceu desejando-lhes a morte. Alegrava-o que não o deixassem morrer de fome, porquanto sua vida era necessária à ninhada que lhe pipilava na mão.
Dentro em breve seis cabeças redondas se estenderam todo o dia às bordas do ninho. E cada vez com maior freqüência o braço do velho Hatto baixava até os olhos. Via as penas que furavam a pele vermelha, os olhos que se abriam, e a forma do corpo que principiava a se arredondar. E de seus lábios subia a prece, mais e mais hesitante. Deus lhe prometera - disso estava certo - que a destruição irromperia logo que as alveloazinhas soubessem voar. E agora ele quase buscava subterfúgios, pois lhe parecia impossível imolar aqueles pequeninos seres cujo nascimento ele ajudara. Até então, nunca tivera nada que dependesse dele; e o amor dos fracos e dos humildes, insinuando-se-lhe no coração, tornava-o incerto. Às vezes passava-lhe pela cabeça lançar ao rio a ninhada inteira. Que felicidade maior que a de morrer sem ter conhecido a dor e o pecado? Salvaria, assim, aquelas pobres criaturas das aves de rapina, da fome, do frio, das provações da vida. Estava a pensar nessas coisas, quando um gavião investiu sobre as alvéloas, e Hatto mal teve tempo de o agarrar com a mão esquerda e arremessa-lo para o lado do rio.
Chegou, por fim, o dia em que os pequeninos tiveram de ensaiar as asas. Dentro do ninho, uma das alvéloas diligenciava impeli-los até à entrada, enquanto a outra esvoaçava em derredor para lhes mostrar como era fácil, que lhes bastava tentar. Mas os bichinhos tinham medo e recusavam-se à experiência. Então os pais exibiam aos olhos dos filhos todos os recursos de sua arte. Giravam e voltavam num movimento repentino das asas, ou, como as cotovias, subiam direito ao céu e mantinham-se imóveis no ar, com as asas a tremer violentamente. Os pequeninos recalcitravam. E Hatto, o eremita, não resistiu ao desejo de intervir. Deu-lhes um leve piparote, e tudo se resolveu. Fora do ninho, açoitando o ar ao jeito dos morcegos, voam canhestramente, dão cambalhotas, caem, levantam-se, e valem-se dos primeiros conhecimentos para retornarem a casa o mas rápido possível. Os pais chegam orgulhosos e alegres, e o velho Hatto sorri da alegria deles: de alguma coisa valera a sua interferência!
Sorriu e perguntou a si mesmo, seriamente, se Deus não tinha outra saída senão violar a promessa feita... Quem sabe? Talvez Deus, o Pai, sustentasse a Terra em sua mão direita como um grande ninho de pássaros, e houvesse terminado afeiçoando-se àqueles que nela vivem. E, no momento de os aniquilar, talvez houvesse sentido por eles a mesma piedade que o solitário da charneca pelos passarinhos. Seguramente os pássaros valiam mais do que os homens. Porém Hatto compreendia, também, que Deus pudesse compadecer-se da espécie humana.
No dia seguinte o ninho estava deserto, e a amargura da solidão encheu-lhe a alma. Caiu-lhe o braço, lento lento, ao longo do corpo; parecia-lhe que toda a Natureza continha a respiração na expectativa das trombetas do Juízo Final. Nesse instante, porém, as alvéloas voltaram familiarmente a pousar-lhe na cabeça e nos ombros. E um clarão iluminou o conturbado cérebro do velho ermitão. Ele, que prometera permanecer imóvel, baixara o braço! Como é que não pensara nisso? Cada dia baixara o braço para olhar o ninho. E, de pé, enquanto os seis pequeninos adejavam e brincavam em torno dele, abanou a cabeça, dirigindo-se a um ser invisível:
- Estás desobrigado de cumprir a tua promessa. Estás desobrigado! Eu não mantive a minha palavra; tu não precisas de manter a tua!
E afigurou-se-lhe que as montanhas cessavam de tremer e que o rio se espraiava no seu leito sereno, com uma segurança imensa."
Selma Lagerlöf In “Mar de histórias: antologia do conto mundial, VI: caminhos cruzados/ [organizadores e tradutores] Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai. -4.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999
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