sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

pequena homenagem a um jovem ator

“Impressões do teatro

Para mim, o mais importante na tragédia é o sexto ato:
o ressuscitar dos mortos das cenas de batalha,
o ajeitar das perucas e dos trajes,
a faca arrancada do peito,
a corda tirada do pescoço,
o perfilar-se entre os vivos
de frente para o público.

As reverências individuais e coletivas:
a mão pálida sobre o peito ferido,
as mesuras da suicida
o acenar da cabeça cortada.

As reverências em pares:
a fúria dá o braço à brandura,
a vítima lança um olhar doce ao carrasco,
o rebelde caminha sem rancor ao lado do tirano.

O pisar na eternidade com a ponta da botina dourada.
A moral varrida com a aba do chapéu.
A incorrigível disposição de amanhã começar de novo.

A entrada em fileira dos que morreram muito antes,
nos atos três e quatro, ou nos entreatos.
A volta milagrosa dos que sumiram sem vestígios.
Pensar que, pacientes, esperavam nos bastidores
sem tirar os trajes,
sem remover a maquiagem,
me comove mais que as tiradas da tragédia.

Mas o mais sublime é o baixar da cortina
e o que ainda se avista pela fresta:
aqui uma mão se estende para pegar as flores,
acolá outra apanha a espada caída.
Por fim uma terceira mão, invisível,
cumpre o seu dever:
me aperta a garganta.”

Wislawa Szymborska In Poemas, (seleção e tradução de Regina Przybycien),  Companhia das Letras, 2011


sábado, 25 de novembro de 2017

um conto dentro do romance

“Não houve um homem da tripulação que não o considerasse perdido; e, quanto ao próprio Queequeg, o que ele pensava de seu caso demonstrou-se de maneira convincente por um curioso favor que pediu. Chamou um dos marinheiros para junto de si, na cinzenta vigília matinal quando o dia apenas raiava, e, pegando em sua mão, disse-lhe que vira por acaso em Nantucket pequenas canoas de madeira escura, como a preciosa madeira de guerra  de sua ilha natal; e,  informando-se, veio a saber que todos os baleeiros que morriam em Nantucket eram colocados naquelas mesmas canoas escuras e a ideia de jazer desse modo muito lhe agradara; pois não diferia do costume de sua própria gente, que, depois de embalsamar um guerreiro morto,  o estendia em sua canoa e o deixava à deriva entre os arquipélagos estrelados; pois não apenas acreditava que as estrelas eram ilhas, mas que muito além do horizonte visível seus serenos mares sem continentes se mesclavam com os céus  azuis; dando assim origem aos brancos vagalhões da Via-Láctea. Acrescentou que estremecia  com  a ideia de ser enterrado com sua rede, segundo o costume marítimo, atirado como alguma coisa desprezível aos tubarões devoradores de mortos. Não: ele desejava uma canoa como aquelas de Nantucket, tanto mais apropriadas, sendo ele um baleeiro, pois, como os botes baleeiros, essas canoas-caixão não portavam quilhas; embora isso implicasse uma navegação bastante incerta e uma grande deriva para as eras sombrias.
Ora, quando esse caso estranho foi levado à ré, o carpinteiro  recebeu ordens de atender às vontades de Queequeg, quaisquer que fossem suas implicações. Havia a bordo uma velha madeira pagã, cor de caixão, que, no decurso de uma longa viagem anterior, havia sido cortada nos bosques nativos das ilhas Laquedivas,  e dessas tábuas escuras  recomendou-se que o caixão fosse feito. Não tardou mais o carpinteiro a receber a ordem do que, tomando a régua, encaminhar-se com toda a indiferente presteza que o caracterizava para o castelo de proa e tomar as medidas de Queequeg com muita perícia, tracejando regularmente o giz na pessoa do arpoador enquanto movia a régua.
[...]
De volta à sua bancada, o carpinteiro, por comodidade ou referência geral, transferiu-lhe o exato comprimento que o caixão deveria ter, e então tornou permanente essa transferência, talhando duas fendas nas extremidades. Feito isso, enfileirou tábuas e ferramentas e pôs-se a trabalhar.
Quando o último prego foi cravado, e a tampa devidamente aplainada e ajustada, o carpinteiro levou o caixão aos ombros sem esforço e seguiu com ele à frente, perguntando se ali já estavam prontos para usá-lo.
Ouvindo os gritos indignados, porém um tanto engraçados, com que as pessoas do convés empurravam o caixão para longe de si, Queequeg, para a consternação geral, ordenou que o objeto fosse imediatamente trazido até ele, e não houve quem o negasse; visto que, de todos os mortais, certos moribundos são os mais tirânicos; e, sem dúvida, uma vez que em pouco tempo eles nos darão tão pouco trabalho para sempre, os caprichos dos pobres diabos devem ser atendidos.
Debruçando-se na beira da rede, Queequeg demorou-se a contemplar o caixão com olhares atentos. Pediu então seu arpão, fez com que lhe tirassem o cabo de madeira e então ordenou que colocassem a parte metálica no caixão junto a um dos remos de seu bote. Ainda segundo sua vontade, foram espalhados biscoitos por toda sua volta interna: um frasco de água doce foi depositado à cabeceira, e um saquinho de pó de madeira lixada do porão posto a seus pés; e, sendo um pedaço de lona de vela enrolado à guisa de travesseiro,  Queequeg  apelou para que fosse levado a seu último leito, para poder experimentar de sua comodidade,   se é que havia. Ficou ali deitado sem se mover por alguns minutos e então pediu para que alguém fosse a seu embornal e lhe trouxesse seu pequeno deus, Yojo. Então, cruzando os braços sobre o peito com Yojo entre eles, solicitou que a tampa do caixão  (chamou-a de  escotilha) fosse colocada sobre ele. A extremidade da cabeça abria-se com uma dobradiça de couro e ali Queequeg permaneceu, deitado em seu caixão, mostrando um pouco de seu semblante sereno. “Rarmai” (serve; é confortável), murmurou por fim, e fez sinal para que o recolocassem na rede.
[...]
Porém, agora que ele aparentemente havia encerrado todos os preparativos para a morte; agora que o caixão se mostrava bem adaptado, Queequeg subitamente se recobrou; logo parecia não haver mais necessidade da caixa do carpinteiro; e, daí que, quando alguém expressava sua alegre surpresa, ele respondia, em substância, que a causa de sua repentina convalescença era a seguinte – em um momento crítico, lembrara-se de uma pequena obrigação, que havia ficado pendente em terra; daí que mudara de ideia sobre morrer: ainda não podia morrer, declarou. Perguntaram-lhe, então, se viver ou morrer era uma questão de seu desejo e prazer soberanos. Certamente, respondeu. Resumindo, era do pensamento de Queequeg acreditar que, se um homem decidisse viver, uma simples doença não poderia matá-lo: nada, exceto uma baleia, uma tormenta, ou qualquer força destrutiva violenta, estúpida e ingovernável  dessa natureza.
Ora, existe uma diferença digna de nota entre os selvagens e os civilizados; enquanto, digamos, um doente civilizado pode passar seis meses convalescendo,  um doente selvagem pode ficar quase curado em um dia. Assim, em boa hora, meu Queequeg recuperou sua força; e depois de ter permanecido sentado ao molinete por uns poucos dias indolentes (mas comendo com apetite vigoroso), de repente pôs-se de pé, esticou os braços e as pernas, alongou-se bem, bocejou um pouquinho e então, saltando para a proa de seu bote suspenso, e brandindo o arpão, declarou estar pronto para a luta.
Com uma selvagem extravagância, servia-se agora do caixão como arca; e, retirando as roupas de seu embornal de lona, arrumou-as ali. Passou muitas horas de folga entalhando a tampa com todo o tipo de figuras e desenhos grotescos; e parecia desse modo empenhado, segundo sua rudeza de modos, em copiar partes da intricada tatuagem de seu corpo. E essa tatuagem fora obra de um finado profeta e vidente de sua ilha, o qual, mediante tais sinais hieroglíficos, escrevera em seu corpo uma teoria completa dos céus e da terra e um tratado místico sobre a arte de alcançar a verdade; de modo que Queequeg, por seu próprio corpo, era um enigma a ser decifrado; uma maravilhosa obra em um volume; mas cujos mistérios nem mesmo ele próprio podia ler, ainda que seu próprio coração pulsante batesse contra eles; e esses mistérios estivessem, portanto, destinados a se desfazer no pó do pergaminho vivo em que estavam inscritos e ficar sem solução até o fim. E deve ter sido esse pensamento que sugeriu a Ahab aquela sua furiosa exclamação, quando certa manhã ele retornava da visita ao pobre Queequeg – “Oh, diabólica tentação dos deuses!“.”

Herman Melville, In Moby Dick.

sábado, 18 de novembro de 2017

Ainda no encalço da baleia

"Pois, pensou Ahab, se mesmo na felicidade terrena mais elevada sempre existe oculta uma certa mesquinhez insignificante, enquanto, no fundo, todas as dores do coração escondem um significado místico e, em certos homens, uma grandeza angelical; assim, sua análise diligente não desmente a dedução óbvia. Percorrer a genealogia dessas altas misérias mortais nos conduz afinal às primogenituras sem origens dos deuses; de modo que, diante de todos os alegres sóis fecundos e das rotundas  luas outonais, iluminando o suave farfalhar da colheita, é necessário dar-se conta disso: de que os próprios deuses nem sempre são felizes. O sinal de nascença, triste e indefectível na fronte do homem, é apenas a marca da tristeza dos que a imprimiram."

Herman Melville (na belíssima tradução de Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza), In Moby Dick

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Anna Kariênina

Anna Kariênina é uma personagem tão chata que se demorasse mais um pouquinho eu mesma pinchava ela para debaixo do trem.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

uma página soberba


“Mas aqui quero aliviar minha consciência e admitir com sinceridade que eu não era um vigia muito bom. Com o problema do universo revolvendo em minha cabeça, como poderia eu – estando totalmente sozinho numa altitude tão propícia a pensamentos -, como poderia eu cumprir, senão levianamente, a obrigação de cumprir todas as ordens do navio baleeiro, “Mantenha os olhos bem abertos e sinalize tudo o que avistar”.
Deixai-me solenemente preveni-los aqui, proprietários de navios de Nantucket! Ao alistar vigilantes em suas pescarias, estai atentos a qualquer rapaz de rosto magro e olhos côncavos, propenso a meditações impróprias, e que se propõe de embarcar com o Fédon em lugar dos ensinamentos náuticos de Bowditch na cabeça. Cuidado com esse tipo, eu digo: as baleias devem ser avistadas antes de serem mortas; e esse jovem platônico de olhos fundos arrastará vosso barco dez vezes ao redor do mundo e não vos tornará um quartilho de espermacete mais ricos. Essas advertências não são desnecessárias. Pois nos dias de hoje a pesca da baleia oferece refúgio para muitos jovens românticos, melancólicos e distraídos, desgostosos das maçantes responsabilidades da terra, que saem em busca de emoção na gordura e no alcatrão. Childe Harold não raro se empoleira no topo do mastro de algum navio baleeiro desafortunado e declama com melancolia: -
“Desliza, oceano profundo e azul, desliza!
 Em vão dez mil caçadores de gordura te vasculham.”
          É frequente que esses capitães chamem a atenção desses jovens e avoados  filósofos, censurando-os por não se mostrarem devidamente “interessados” na viagem; como que sugerindo que estão de tal modo perdidos e desenganados para toda ambição honrada que, do fundo do coração, prefeririam qualquer coisa a avistar as baleias. Mas tudo é inútil; esses jovens platônicos sabem que sua visão é imperfeita; eles são míopes; de que adianta, então, forçar o nervo óptico? Deixaram seus binóculos de ópera em casa.
         “Mas seu vadio”, disse um arpoador a um desses rapazes, “já estamos viajando há três anos e tu ainda não avistaste nenhuma baleia. As baleias são tão raras quanto os dentes da galinha quando estás aqui em cima.” Talvez fossem mesmo; ou talvez houvesse um bando delas no horizonte distante, mas esse jovem distraído é de tal modo embalado pela cadência de ondas e pensamentos imiscuídos que, na letargia opiácea de um vago e apático devaneio, perde, por fim, sua identidade; toma o místico oceano a seus pés pela imagem visível da alma infinita, azul e profunda, que penetra humanidade e natureza; e tudo o que é belo, estranho, imprevisto e deslizante, toda barbatana de forma indiscernível que se erga, parece-lhe a materialização dos pensamentos ilusórios que povoam a alma, movendo-se continuamente por ela. Nesse enlevo, teu espírito segue as correntes rumo ao lugar de onde veio; torna-se difuso pelo tempo e pelo espaço; como as cinzas panteísticas de Cranmer espalhadas, formando por fim uma parte das praias do globo terrestre.
         Não há vida em ti, agora, exceto a vida concedida pelo gentil navio que balança; por ele, tomada ao mar; pelo mar, às inescrutáveis marés de Deus. Mas enquanto esse sono, esse sonho está em ti, mexe um pouco teu pé ou tua mão, solta-te completamente; e tua identidade retornará com terror. Estás suspenso sobre vórtices cartesianos. E talvez, ao meio dia, quando o tempo é mais belo, com um grito meio sufocado, caias através desse ar transparente no mar estival, para jamais voltar à superfície. Prestai muita atenção, vós, panteístas!”.

MELVILLE, Herman. Moby Dick. COSAC NAIFY, São Paulo SP, 2016        

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

"O artista inconfessável"*

"
Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre o fazer e o não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não, fazer para esquecer
que é inútil:nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e dificil-
mente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém."

*João Cabral de Melo Neto.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

minha casa, minha casinha, merda para o rei e para a rainha

Escala 1:50 (nunca mais), com materiais diversos (papelão, caixa e palito de fósforo, MDF e acetato (nas vidraças). Não é ainda uma Fabiano Faucz, mas devagar se vai ao longe.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

o picadinho de minha avó

Meu tio Manoel, irmão mais novo de minha mãe, volta e meia falava de sua vontade de comer outra vez um picadinho de carne inesquecível que minha avó fazia, puxado na farinha de trigo. Eu imaginava que fosse algo parecido com uma receita que minha mãe fazia e de que eu não gostava nada: dourava-se a farinha em óleo, acrescentava-se a carne picada, sempre coxão mole, os temperos - cebola, alho, sal e pimenta - cozinhava-se na pressão. Recentemente, depois de experimentar várias versões do meu próprio picadinho, cheguei a um resultado que, modéstia à parte, agradou muito até a mim mesma, que não gosto desse prato. Uso filé mignon; passo os pedaços picados em farinha de trigo, bato o excesso, douro em pequenas porções em manteiga de muito boa qualidade (só o suficiente para selar), reservo. Refogo cebola ralada também em manteiga, acrescento sal, pimenta do reino, molho inglês e colorau. Acrescento um bom tanto de água (o molho vai engrossar devido à farinha de trigo em que foi selada a carne), deixo ferver bem, corrijo os temperos e trago para a panela a carne reservada. Rapidamente o molho engrossa  e a carne pega a temperatura de servir. Deve ser algo parecido com o que minha avó fazia. Quisera ter servido esse prato a meu tio; infelizmente, como com quase tudo na vida, demora-se tanto a aprender que quando chegamos no ponto de poder homenagear os mais velhos que um dia amamos e nos amaram, é muto tarde.