domingo, 21 de outubro de 2018

quatro poemas de Fabrício Corsaletti

Notícia

Uma coisa é a mãe que acorrenta o filho de onze anos
viciado em crack
à sua cama miserável
para evitar uma tragédia
outra é rodar os sebos de Pinheiros
atrás dos poemas de Villon
e voltar para casa
com uma novela sobre um urso

uma coisa é a mãe que acorrenta o filho de onze anos
porque quando fica louco
ameaça a irmã com uma faca
e bebe perfume se não tem birita
outra é passar duas horas num engarrafamento
conversando com um taxista irritado
que garante que antes do Viagra
as ruas eram cheias de mulheres casadas
procurando sexo

uma coisa é a mãe que acorrenta o filho de onze anos
por desespero
e sem temer um processo
outra é faltar ao trabalho
por ter cheirado cocaína a noite inteira
ouvindo Bach
e falando merda

uma coisa é a mãe que acorrenta o filho de onze anos
é presa e diz
que não se arrepende de nada
pois seu menino é seu tesouro
outra é esquecer o aniversário
de uma amiga querida mas neurótica
que não perdoa quem não telefona
para lhe dar os parabéns


Bairro

lá vem o homem deformado

não quero desviar os olhos
nem prender a respiração
ao passar por ele

eu me concentro
quase nos trombamos
a pele do rosto inchado
a ponto de explodir

tenho 35 anos
nenhum dinheiro no banco
uma vaga memória
de que vale a pena viver
etc.

mas o que faz o homem deformado
quando está alegre
quando sente o coração tomado
pelo fogo alaranjado
das estrelas de verão?


Pelo sul

em algum momento entendi que adorava
varais com roupas estendidas

no quintal de casa
nos filmes italianos
num bairro do século XVIII em Marselha

a maneira como as camisas
não se desesperam
as calças não se cansam
as cuecas e as calcinhas convivem
pacificamente
embora continuem a desejar
as meias não se iludem
os sutiãs ignoram
e os vestidos e as saias existem
pelo mesmo motivo que os poetas escrevem -
para que os ossos brilhem na noite

desde então
o mundo pode ter atirado
meus mortos num poço de merda
mas se topo de manhã com um varal pelas ruas
rio por dentro porque sei que no fundo
fui quase sempre amoroso e feliz


Manual da faxineira

meu grande desejo seria escrever
um livro triste e engraçado
ao mesmo tempo

que fizesse as pessoas
rirem e chorarem
dentro do instante desprotegido

meu grande desejo seria escrever como Lucia Berlin
para ser amado por Lucia Berlin
para ser amigo de Lucia Berlin
e um dia ser convidado por ela
para ir ao México

Lucia Berlin minha mulher e eu
de carro pelos pueblos de Oaxaca
saudando os mortos e os sobreviventes
tomando mezcal nos bares escuros
mergulhando nas águas cristalinas
e partilhando histórias e bombinhas
de cortisona

na última noite elas me deixariam no aeroporto
com um beijo e a promessa de viajarmos juntos
no ano seguinte de novo talvez

sexta-feira, 27 de abril de 2018

para assustar as comadres e "idealistas" em geral


"Que em meus escritos fala um psicólogo sem igual é talvez a primeira constatação a que chega um bom leitor – um leitor como eu o mereço, que me leia como os bons filólogos de outrora liam o seu Horácio. As proposições sobre as quais no fundo o mundo inteiro está de acordo – para não falar dos filósofos de todo mundo, dos moralistas e outros cabeças ocas, cabeças de repolho – aparecem em mim como ingenuidades do erro: por exemplo, a crença de que “altruísta” e “egoísta” são opostos, quando o ego não passa de um “embuste superior”, um “ideal” ... Não existem acões egoístas, nem altruístas: ambos os conceitos são um contra-senso psicológico. Ou a proposição: “o homem busca a felicidade” ... Ou “a felicidade é o prêmio da virtude” ... Ou “prazer e desprazer são opostos”... A Circe da humanidade, a moral, falsificou no cerne – moralizou – todos os psychologica, até chegar ao horrendo absurdo de que o amor deve ser algo “altruísta”... É preciso estar firmemente assentado em si, é preciso sustentar-se bravamente sobre as duas pernas, caso contrário não se pode absolutamente amar. Isso sabem as mulherezinhas muito bem, afinal: não sabem que diabo fazer com homens desisteressados, puramente objetivos... Posso, aliás, arriscar a suposição de que conheço  as mulherezinhas? É parte de meu dom dionisíaco. Quem sabe? Talvez eu seja o primeiro psicólogo do eterno-femin ino. Todas elas me amam – uma velha história: excetuando as mulherezinhas vitimadas, as “emancipadas”, as não aparelhadas para ter filhos. – Felizmente não estou disposto a deixar-me despedaçar: a mulher realizada despedaça quando ama... Eu conheço essas adoráveis mênades... Ah, que perigoso, insinuante subterrâneo bichinho de rapina! E tão agradável, além disso!  Uma pequena mulher correndo atrás de sua vingança seria capaz de atropelar o próprio destino. -  A mulher é indizivelmente mais malvada que o homem, também mais sagaz; bondade na mulher é já uma forma de degeneração ... No fundo de todas as chamadas “almas belas” há um inconveniente psicológico – não digo tudo, senão me tornaria medicínico.  A luta por direitos iguais é inclusive um sintoma de doença: qualquer médico o sabe. – A mulher, quanto mais é mulher, mais se defende com unhas e dentes contra os direitos em geral; o estado de natureza, a eterna guerra entre os sexos, dá-lhe de longe a primeira posição. – Houve ouvido0s para a minha definição de amor? É a única digna de um filósofo. Amor – em seus meios a guerra, em seu fundo o ódio de morte dos sexos. – Foi ouvida a minha resposta à questão de como se cura – se “redime” – uma mulher? Fazendo-lhe um filho. A mulher necessita de filhos, o homem é sempre somente o meio; assim falou Zaratustra. – “Emancipação da mulher” – isso é o ódio instintivo da mulher que não vinga, ou seja, não procria, à mulher que vingou – a luta contra o “homem” é sempre apenas meio, pretexto, tática. Ao elevarem  a si mesmas , como “mulher em si”, como “mulher superior”, como “idealista femin ina”, querem rebaixar a posição geral da mulher; nenhum meio mais seguro para isso do que instrução secundária, calças e direitos políticos de gado eleitoral.  No fundo as emancipada são as anarquistas do mundo do “eterno-feminino”, as que fracassaram, cujo instinto mais básico é a vingança... Todo um gênero do mais maligno “idealismo” – que aliás também ocorre em homens, por exemplo em Henrik Ibsen, essa típica solteirona – tem o objetivo de envenenar a boa consciência, a natureza no amor sexual... E para não deixar qualquer dúvida quanto às minhas convicções nesse ponto, tão honestas quanto estritas, comunicarei mais uma sentença contra o vício extraída do meu código moral: sob o nome de vício combato toda espécie de antinatureza, ou, para quem ama belas palavras, idealismo. A sentença diz: “A pregação da castidade é um incitamento público à antinatureza. Todo desprezo pela vida sexual, toda impurificação da mesma  através do conceito de ‘impuro’ é o próprio crime contra a vida – é o autêntico pecado contra o santo espírito da vida”.-"


Ecce homo, Friederich Nietzsche

quinta-feira, 8 de março de 2018

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

pequena homenagem a um jovem ator

“Impressões do teatro

Para mim, o mais importante na tragédia é o sexto ato:
o ressuscitar dos mortos das cenas de batalha,
o ajeitar das perucas e dos trajes,
a faca arrancada do peito,
a corda tirada do pescoço,
o perfilar-se entre os vivos
de frente para o público.

As reverências individuais e coletivas:
a mão pálida sobre o peito ferido,
as mesuras da suicida
o acenar da cabeça cortada.

As reverências em pares:
a fúria dá o braço à brandura,
a vítima lança um olhar doce ao carrasco,
o rebelde caminha sem rancor ao lado do tirano.

O pisar na eternidade com a ponta da botina dourada.
A moral varrida com a aba do chapéu.
A incorrigível disposição de amanhã começar de novo.

A entrada em fileira dos que morreram muito antes,
nos atos três e quatro, ou nos entreatos.
A volta milagrosa dos que sumiram sem vestígios.
Pensar que, pacientes, esperavam nos bastidores
sem tirar os trajes,
sem remover a maquiagem,
me comove mais que as tiradas da tragédia.

Mas o mais sublime é o baixar da cortina
e o que ainda se avista pela fresta:
aqui uma mão se estende para pegar as flores,
acolá outra apanha a espada caída.
Por fim uma terceira mão, invisível,
cumpre o seu dever:
me aperta a garganta.”

Wislawa Szymborska In Poemas, (seleção e tradução de Regina Przybycien),  Companhia das Letras, 2011


sábado, 25 de novembro de 2017

um conto dentro do romance

“Não houve um homem da tripulação que não o considerasse perdido; e, quanto ao próprio Queequeg, o que ele pensava de seu caso demonstrou-se de maneira convincente por um curioso favor que pediu. Chamou um dos marinheiros para junto de si, na cinzenta vigília matinal quando o dia apenas raiava, e, pegando em sua mão, disse-lhe que vira por acaso em Nantucket pequenas canoas de madeira escura, como a preciosa madeira de guerra  de sua ilha natal; e,  informando-se, veio a saber que todos os baleeiros que morriam em Nantucket eram colocados naquelas mesmas canoas escuras e a ideia de jazer desse modo muito lhe agradara; pois não diferia do costume de sua própria gente, que, depois de embalsamar um guerreiro morto,  o estendia em sua canoa e o deixava à deriva entre os arquipélagos estrelados; pois não apenas acreditava que as estrelas eram ilhas, mas que muito além do horizonte visível seus serenos mares sem continentes se mesclavam com os céus  azuis; dando assim origem aos brancos vagalhões da Via-Láctea. Acrescentou que estremecia  com  a ideia de ser enterrado com sua rede, segundo o costume marítimo, atirado como alguma coisa desprezível aos tubarões devoradores de mortos. Não: ele desejava uma canoa como aquelas de Nantucket, tanto mais apropriadas, sendo ele um baleeiro, pois, como os botes baleeiros, essas canoas-caixão não portavam quilhas; embora isso implicasse uma navegação bastante incerta e uma grande deriva para as eras sombrias.
Ora, quando esse caso estranho foi levado à ré, o carpinteiro  recebeu ordens de atender às vontades de Queequeg, quaisquer que fossem suas implicações. Havia a bordo uma velha madeira pagã, cor de caixão, que, no decurso de uma longa viagem anterior, havia sido cortada nos bosques nativos das ilhas Laquedivas,  e dessas tábuas escuras  recomendou-se que o caixão fosse feito. Não tardou mais o carpinteiro a receber a ordem do que, tomando a régua, encaminhar-se com toda a indiferente presteza que o caracterizava para o castelo de proa e tomar as medidas de Queequeg com muita perícia, tracejando regularmente o giz na pessoa do arpoador enquanto movia a régua.
[...]
De volta à sua bancada, o carpinteiro, por comodidade ou referência geral, transferiu-lhe o exato comprimento que o caixão deveria ter, e então tornou permanente essa transferência, talhando duas fendas nas extremidades. Feito isso, enfileirou tábuas e ferramentas e pôs-se a trabalhar.
Quando o último prego foi cravado, e a tampa devidamente aplainada e ajustada, o carpinteiro levou o caixão aos ombros sem esforço e seguiu com ele à frente, perguntando se ali já estavam prontos para usá-lo.
Ouvindo os gritos indignados, porém um tanto engraçados, com que as pessoas do convés empurravam o caixão para longe de si, Queequeg, para a consternação geral, ordenou que o objeto fosse imediatamente trazido até ele, e não houve quem o negasse; visto que, de todos os mortais, certos moribundos são os mais tirânicos; e, sem dúvida, uma vez que em pouco tempo eles nos darão tão pouco trabalho para sempre, os caprichos dos pobres diabos devem ser atendidos.
Debruçando-se na beira da rede, Queequeg demorou-se a contemplar o caixão com olhares atentos. Pediu então seu arpão, fez com que lhe tirassem o cabo de madeira e então ordenou que colocassem a parte metálica no caixão junto a um dos remos de seu bote. Ainda segundo sua vontade, foram espalhados biscoitos por toda sua volta interna: um frasco de água doce foi depositado à cabeceira, e um saquinho de pó de madeira lixada do porão posto a seus pés; e, sendo um pedaço de lona de vela enrolado à guisa de travesseiro,  Queequeg  apelou para que fosse levado a seu último leito, para poder experimentar de sua comodidade,   se é que havia. Ficou ali deitado sem se mover por alguns minutos e então pediu para que alguém fosse a seu embornal e lhe trouxesse seu pequeno deus, Yojo. Então, cruzando os braços sobre o peito com Yojo entre eles, solicitou que a tampa do caixão  (chamou-a de  escotilha) fosse colocada sobre ele. A extremidade da cabeça abria-se com uma dobradiça de couro e ali Queequeg permaneceu, deitado em seu caixão, mostrando um pouco de seu semblante sereno. “Rarmai” (serve; é confortável), murmurou por fim, e fez sinal para que o recolocassem na rede.
[...]
Porém, agora que ele aparentemente havia encerrado todos os preparativos para a morte; agora que o caixão se mostrava bem adaptado, Queequeg subitamente se recobrou; logo parecia não haver mais necessidade da caixa do carpinteiro; e, daí que, quando alguém expressava sua alegre surpresa, ele respondia, em substância, que a causa de sua repentina convalescença era a seguinte – em um momento crítico, lembrara-se de uma pequena obrigação, que havia ficado pendente em terra; daí que mudara de ideia sobre morrer: ainda não podia morrer, declarou. Perguntaram-lhe, então, se viver ou morrer era uma questão de seu desejo e prazer soberanos. Certamente, respondeu. Resumindo, era do pensamento de Queequeg acreditar que, se um homem decidisse viver, uma simples doença não poderia matá-lo: nada, exceto uma baleia, uma tormenta, ou qualquer força destrutiva violenta, estúpida e ingovernável  dessa natureza.
Ora, existe uma diferença digna de nota entre os selvagens e os civilizados; enquanto, digamos, um doente civilizado pode passar seis meses convalescendo,  um doente selvagem pode ficar quase curado em um dia. Assim, em boa hora, meu Queequeg recuperou sua força; e depois de ter permanecido sentado ao molinete por uns poucos dias indolentes (mas comendo com apetite vigoroso), de repente pôs-se de pé, esticou os braços e as pernas, alongou-se bem, bocejou um pouquinho e então, saltando para a proa de seu bote suspenso, e brandindo o arpão, declarou estar pronto para a luta.
Com uma selvagem extravagância, servia-se agora do caixão como arca; e, retirando as roupas de seu embornal de lona, arrumou-as ali. Passou muitas horas de folga entalhando a tampa com todo o tipo de figuras e desenhos grotescos; e parecia desse modo empenhado, segundo sua rudeza de modos, em copiar partes da intricada tatuagem de seu corpo. E essa tatuagem fora obra de um finado profeta e vidente de sua ilha, o qual, mediante tais sinais hieroglíficos, escrevera em seu corpo uma teoria completa dos céus e da terra e um tratado místico sobre a arte de alcançar a verdade; de modo que Queequeg, por seu próprio corpo, era um enigma a ser decifrado; uma maravilhosa obra em um volume; mas cujos mistérios nem mesmo ele próprio podia ler, ainda que seu próprio coração pulsante batesse contra eles; e esses mistérios estivessem, portanto, destinados a se desfazer no pó do pergaminho vivo em que estavam inscritos e ficar sem solução até o fim. E deve ter sido esse pensamento que sugeriu a Ahab aquela sua furiosa exclamação, quando certa manhã ele retornava da visita ao pobre Queequeg – “Oh, diabólica tentação dos deuses!“.”

Herman Melville, In Moby Dick.

sábado, 18 de novembro de 2017

Ainda no encalço da baleia

"Pois, pensou Ahab, se mesmo na felicidade terrena mais elevada sempre existe oculta uma certa mesquinhez insignificante, enquanto, no fundo, todas as dores do coração escondem um significado místico e, em certos homens, uma grandeza angelical; assim, sua análise diligente não desmente a dedução óbvia. Percorrer a genealogia dessas altas misérias mortais nos conduz afinal às primogenituras sem origens dos deuses; de modo que, diante de todos os alegres sóis fecundos e das rotundas  luas outonais, iluminando o suave farfalhar da colheita, é necessário dar-se conta disso: de que os próprios deuses nem sempre são felizes. O sinal de nascença, triste e indefectível na fronte do homem, é apenas a marca da tristeza dos que a imprimiram."

Herman Melville (na belíssima tradução de Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza), In Moby Dick

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Anna Kariênina

Anna Kariênina é uma personagem tão chata que se demorasse mais um pouquinho eu mesma pinchava ela para debaixo do trem.