sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Um vaso




Nasci igual a centenas de outros, em fôrma comum e de louça ordinária. Estamparam-me umas flores e uns frisos meio borrados, e lá estava eu, no depósito, pronto para o destino que me coubesse.

Lembro-me de passar depois muito tempo entre outras quinquilharias simplórias, na seção “variedades” de um supermercado de subúrbio. Senhoras e mocinhas igualmente simplórias às vezes nos cobiçavam: tomavam-nos com mil cuidados, acariciavam-nos, consideravam longamente o preço na etiqueta, acariciavam-nos... Cheguei mesmo a ver um ou outro de meus pares ir-se embora ao fim desse ritual.

Mas eis que é hora do meu próprio destino,e o estranho portador do meu destino é um moço que chega afobado, olha-nos com ar contrafeito, consulta o relógio e, impetuoso, coloca-me no carrinho de compras, entre queijos, vinhos e outras guloseimas. Leva-me sem carícias nem ponderações preliminares.

A casa do moço era um apartamento claro, quase nu, só com os móveis indispensáveis. Enfeite nenhum, silêncio absoluto. Senti-me sozinho e deslocado naquela sala sem mais frivolidades, enquanto o moço acomodava as guloseimas na cozinha. Quando ele sai de lá, traz até mim um enorme maço de flores. Flores como eu jamais tinha visto, em nada parecidas com as que ficavam em pacotes na prateleira vizinha, e às vezes se arranjavam em um de nós, de amostra, no supermercado. Estas estavam vivas, frescas, e eram tão belas, e tantas, que mal pude acomodá-las. Fiquei lisonjeado. O moço arranja-as em mim com gestos nervosos e sai por longo tempo. Quando volta está diferente, calmo, um tanto entorpecido, eu diria, e... não vem só.

A moça nota as flores assim que a porta se abre; vem até elas, toca-as, admira-lhes a profusão, o perfume, a beleza, enquanto o moço se desculpa por minha feiúra indiscreta. Confessa que só lembrou do vaso em cima da hora, e aí teve que se arrumar com o que havia no supermercado próximo, etc., etc.. Ela parece concordar que eu não seja mesmo grande coisa, mas ama as flores, a gentileza, e sobretudo ama muito – posso ver – o moço. Passam-se então dois dias inteiros sem que ele faça outra coisa senão estar perto dela.

Quando ela se vai e as flores murcham, quase não o vejo e a mais ninguém. Sucedem-se longos dias de silêncio e brancura; o moço nem está agitado, como quando o conheci, nem calmo, como o vi depois: está distraído, compenetrado, absorto, talvez, no corriqueiro da vida. Numa certa manhã, algo na casa está mudado: algo impreciso, indefinível, um alvoroço no ar, digamos. À noite o moço se agita, sai, volta com flores. Quando a noite vem, vem com a moça.

Foi assim, tantas vezes que eu não saberia contar. Chegava numa sexta-feira e partia no domingo. Às vezes acontecia de ficar um dia mais, e então, no domingo, ela dizia: “que bom que hoje é sábado”, e o moço sorria, comovido. Ia-se a moça, murchavam as flores, longos dias iguais, alvoroço no ar, flores, moça chegando, moça partindo, flores murchando...

E, de repente, a mudança: embalam-se livros, roupas, utensílios, desmontam-se os móveis. Caminhão. Estrada. Casa nova. Chega de outro lugar mais um caminhão: são coisas da moça. Móveis do moço e da moça compõem-se em nova ordem, selecionam-se os utensílios, distribuem-se as coisas em armários e gavetas conforme utilidade e importância. A mim e a outros trastes coube-nos um compartimento da despensa, espécie de tumba onde a moça encerrou o que julgava sem utilidade ou indigno de estar à vista. É escuro este lugar, e nunca se abre, a não ser quando chega um novo velho traste.

Tudo que posso perceber daqui são vozes. Já há, por esse tempo, sempre junto às de moço e moça, voz pequenina e clara. Surge mais tarde uma outra, vagido apenas, que aos poucos vai se transformando em balbucio, sílabas, palavras inteiras. Gargalhadas, correria n o quintal, gritos de “mãos ao alto”, “um, dois, nove, cinco, dezessete, lá vou eu”. À noite – sei que é noite porque se calam as vozes pequeninas e as dos pássaros- moço e moça conversam longamente, e eu fico nostálgico de luz e de outros tempos.

Um dia ouço alguém dizer à moça que em tal lugar se prepara um evento beneficente. Será que ela não teria, para doar, algum objeto ainda em bom estado? Os objetos doados seriam vendidos numa grande feira, para ajudar na arrecadação de fundos. Silêncio. Abre-se a porta da tumba, e vejo de novo a luz, enquanto a moça pergunta: “serve?”. Sirvo. A estranha, que já me segura, agradece muito, convida para ir à festa, “vai ser no domingo, não deixe de ir”. “Sim, vou, sim”, responde a moça, entediada, querendo ficar logo sozinha. Quando enfim saímos, ela nos acompanha e me olha com estranhamento, como se visse em mim algo que nunca vira antes. Demora-se a fechar a porta.

Cá estou eu de novo à venda, entre muitos outros trastes inúteis, tirados de não sei que tumbas. Muitas pessoas passam por aqui com vagar e tédio; algumas compram, para colaborar, coisinha qualquer. De repente eu vejo chegar, aflita, aflita, a moça. Olha à volta, procura não sei quê, tem muita urgência, vê-se. E é a mim que procura. Corre quando me vê, segura-me por alguns segundos contra o peito, aliviada, como se me salvasse de grande perigo. “Vou levar isto”, diz, passando o dinheiro.

Volto à casa das vozes, mas nunca mais ao cubículo dos inúteis. Colocam-me no alto de um armário, que é para onde vão as coisas que se quer bem longe das mãozinhas buliçosas. E é aqui que passo agora a maior parte do tempo. Alguma vez o moço traz flores, e então a moça me deixa por dois ou três dias sobre um móvel mais baixo, repleto de efêmera majestade. Quando as flores murcham, ela as deita fora e amorosamente me lava; examina-me, compungida, as rachaduras de sempre, seca-me, e me repõe a salvo no alto do armário. E se é dia de limpeza na casa, ou se alguém vem procurar alguma coisa aqui em cima, ela aponta para mim e diz: “cuidado com aquele vaso”.
aveloh

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