segunda-feira, 22 de setembro de 2014

como reconhecer um bobo

Já falei aqui em postagem antiga (do caráter das mulheres) sobre como é fácil reconhecer as víboras: são as que fazem cara de meiga para a foto. Não sei se é possível tal analogia para o caráter masculino - talvez a analogia no reino animal para homem seja homem mesmo - mas também é possível inferir algo sobre um homem fotografando-o. Vamos lá:
1) para começo de conversa um homem interessante nunca se deixa fotografar com muita facilidade;
2) já o bobo adora aparecer na foto; na iminência da foto, faz cara de "profundidade", fixa o olhar num ponto ao longe, como a contemplar as esferas celestes, ou olha direto para a câmera, mas com olhar vazio, de quem não está ali, mas no interior de seu próprio cérebro;
3) o bobo bem acabado posta a foto na internet. 

sábado, 10 de maio de 2014

talvez um caminho

Acho que vou passar a me dedicar à aquarela. Mesmo com resultado bem sofrível, o prazer é imenso.

Aqui, a primeira foi feita a partir de foto de Washington C. Takeushi, a segunda de foto de não sei quem na web e a terceira de uma foto antiga em que aparecem meu tio Baltazar e sua netinha Vera, na serraria da Saudade.

domingo, 6 de abril de 2014

o coronel assassino

Há muito tempo, tendo eu lido pela primeira vez São Bernardo, um amigo espantou-se quando  lhe falei que não me referia a Madalena ao dizer ter encontrado, entre todos os livros que já lera, o personagem com o qual mais me identificava. Alguns anos e um certo lustre depois, vim a aprender que esse bruto, proprietário de terras,  "coronel assassino", não é figura com que alguém normal se identifique. Pois hoje em dia, ou porque eu não seja mesmo propriamente normal, ou por tê-lo conhecido ainda em tempos de minha inocência intelectual, Paulo Honório continua sendo para mim a criatura mais comovente de toda a ficção que conheço.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

5 poemas de Alcides Villaça

"Cruzamento

A moça muito antiga,
a prematura morta,
é uma criança inquieta
que ninguém sabe ninar.
Menor a cada dia,
a cada hora mais menina,
a morta muito antiga
toma a pista contrária
e vem ao nosso encontro.
Quando passar por nós
sequer terá nascido.
Será um capricho nosso,
imagem que desenhamos,
saudade de viver.


Dobradura

Pareceu-me cicatriz do teu rosto
a marca no papel fotográfico.
Pareceu-me especial efeito
a luz (tão viva) dos velhos olhos teus.
Pareceu-me, enfim, amarga essa foto, 
como boneca dormindo de mentira
qual menina morta de verdade.

Assim as fotos, espelhos de alma própria:
parece que são tudo o que olham
e se enganam nas verdades, e acertam nas mentiras
- porque refletem nos desejos outra luz,
e em outras luzes o mesmo desejo.
Também ocorre que nada mais reflitam
quando se guardam num cristal fechados
nas pálpebras do tempo


Viagem

imagine
se sobre a casca do ovo pequenino
tombasse uma gota de limão corrosivo
e mal nascido quanto mal desperto
o filhotinho tivesse que voar
contra cortantes facas amarelas

como haveria ele de entender
a beleza sem parar das feridas?
teria tempo para sentir
a falta das penas sonhadas?
saberia como cantar
o brilho de cada susto de morrer?

(Não sei te explicar
essa luz que fia e desconcerta
meus melhores dias)


Eurídice

Eurídice caminha pelo palco descalça mais que nua:
os pés que a levam leve sabem todo o alvor.
Desliza como dança, e deita os olhos no caminho.
Cobre de frescor o arrepio dos regatos.
Eurídice, para além de todo inferno e céu
Atira Orfeu para os bichos da floresta,
Como a onça, como o tigre, como eu.


Dádiva

As maldades mais fundas do meu poço emergem
                                                       [só para mim
Imediatamente viram flores. Ofereço o buquê
                                                        [a amigos
que o tomam no colo e reconhecem pétala a pétala 
a graça de tantas corolas. E dizem: que bonito!
Mas logo baixamos o olhar, como quem do chão
                                                                   [ouve
o ruído das águas turvas, inquietando-se."


VILLAÇA, Alcides. ONDAS CURTAS, Cosac Naify, São Paulo, 2014.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014