quarta-feira, 23 de maio de 2012
quarta-feira, 16 de maio de 2012
segunda-feira, 14 de maio de 2012
sábado, 12 de maio de 2012
quarta-feira, 9 de maio de 2012
eu, o homem do facão
Meu pai, que me achava uma pessoa extremamente dura - e com razão, ao contrário do que muita gente pensa - costumava me dizer: "você é ruim como meu tio Rafael". Desse tio, ele contava que sempre que alguém lhe agradecia por qualquer coisa com o costumeiro "Deus o abençôe", ele invariavelmente retrucava: "não precisa".
terça-feira, 8 de maio de 2012
sexta-feira, 4 de maio de 2012
"A alma e a morte 6"
[...continuação]
"A natureza da psique mergulha em obscuridades, para além dos
limites de nossas categorias intelectuais. A alma encerra tantos mistérios
quanto o mundo com seus sistemas de galáxias diante de cujas majestosas
configurações só um espírito desprovido de imaginação é capaz de negar suas
próprias insuficiências. Esta extrema incerteza da compreensão humana nos
mostra que o estardalhaço iluminista é não somente ridículo, como também
lamentavelmente estúpido. Se alguém, portanto, extraísse da necessidade do próprio
coração, ou da concordância com as lições da antiga sabedoria da humanidade, ou
do fato psicológico de que ocorrem percepções “telepáticas”, a conclusão de que
a psique participa, em suas camadas mais profundas, de uma forma de existência
transespacial e transtemporal e que, por conseqüência, pertence àquilo que
inadequada e simbolicamente é designado pelo nome de “eternidade”, o único
argumento que a razão crítica lhe poderia opor seria o non liquet (não está provado) da ciência. Tal pessoa, além disso, possuiria
a inestimável vantagem de estar de acordo com a inclinação presente na psique
humana desde tempos imemoriais e universalmente existente. Quem por ceticismo,
rebeldia contra a tradição, falta de coragem ou insuficiente experiência
psicológica ou ignorância cega não extrai esta conclusão, tem muito pouca
chance, estatisticamente falando, de ser um pioneiro do espírito, embora esteja
firmemente cero de entrar em conflito com as verdades do próprio sangue. No
fundo, jamais conseguiremos provar que tais verdades sejam ou não absolutas. É
suficiente, porém, que elas existam como indicações da psique, e sabemos demais
o que seja entrar levianamente em choque com essas “verdades”. Equivale à
negação consciente dos instintos, isto é, a um desenraizamento, a uma
desorientação, à falta de sentido da existência, ou que outros nomes possam ter
estes sintomas de inferioridade. Um dos erros sociológicos e psicológicos mais
fatais de que nossa época é tão rica, foi o de pensar, muitas vezes, que alguma
coisa pode mudar de um momento para outro, por exemplo: que a natureza do homem
pode mudar radicalmente, ou que podemos descobrir uma fórmula ou ma verdade que
seja um começo inteiramente novo etc. Qualquer mudança essencial ou mesmo uma
simples melhoria significa um milagre. O distanciamento das verdades do sangue
produz uma agitação neurótica cujos exemplos abundam em nossos dias. Esta
agitação, por sua vez, gera a falta de sentido da existência, falta esta que é
uma enfermidade psíquica cuja amplidão e alcance total nossa época ainda não
percebeu."*
"A natureza da psique mergulha em obscuridades, para além dos
limites de nossas categorias intelectuais. A alma encerra tantos mistérios
quanto o mundo com seus sistemas de galáxias diante de cujas majestosas
configurações só um espírito desprovido de imaginação é capaz de negar suas
próprias insuficiências. Esta extrema incerteza da compreensão humana nos
mostra que o estardalhaço iluminista é não somente ridículo, como também
lamentavelmente estúpido. Se alguém, portanto, extraísse da necessidade do próprio
coração, ou da concordância com as lições da antiga sabedoria da humanidade, ou
do fato psicológico de que ocorrem percepções “telepáticas”, a conclusão de que
a psique participa, em suas camadas mais profundas, de uma forma de existência
transespacial e transtemporal e que, por conseqüência, pertence àquilo que
inadequada e simbolicamente é designado pelo nome de “eternidade”, o único
argumento que a razão crítica lhe poderia opor seria o non liquet (não está provado) da ciência. Tal pessoa, além disso, possuiria
a inestimável vantagem de estar de acordo com a inclinação presente na psique
humana desde tempos imemoriais e universalmente existente. Quem por ceticismo,
rebeldia contra a tradição, falta de coragem ou insuficiente experiência
psicológica ou ignorância cega não extrai esta conclusão, tem muito pouca
chance, estatisticamente falando, de ser um pioneiro do espírito, embora esteja
firmemente cero de entrar em conflito com as verdades do próprio sangue. No
fundo, jamais conseguiremos provar que tais verdades sejam ou não absolutas. É
suficiente, porém, que elas existam como indicações da psique, e sabemos demais
o que seja entrar levianamente em choque com essas “verdades”. Equivale à
negação consciente dos instintos, isto é, a um desenraizamento, a uma
desorientação, à falta de sentido da existência, ou que outros nomes possam ter
estes sintomas de inferioridade. Um dos erros sociológicos e psicológicos mais
fatais de que nossa época é tão rica, foi o de pensar, muitas vezes, que alguma
coisa pode mudar de um momento para outro, por exemplo: que a natureza do homem
pode mudar radicalmente, ou que podemos descobrir uma fórmula ou ma verdade que
seja um começo inteiramente novo etc. Qualquer mudança essencial ou mesmo uma
simples melhoria significa um milagre. O distanciamento das verdades do sangue
produz uma agitação neurótica cujos exemplos abundam em nossos dias. Esta
agitação, por sua vez, gera a falta de sentido da existência, falta esta que é
uma enfermidade psíquica cuja amplidão e alcance total nossa época ainda não
percebeu."*
JUNG, C.G. In A natureza da psique, Ed. Vozes, Petrópolis, 2011.
quarta-feira, 2 de maio de 2012
"A alma e a morte" 5
[...continuação]
"Saber de que modo se deve, afinal, interpretar estas
experiências é um problema que supera a competência de uma ciência empírica e
ultrapassa nossas capacidades intelectuais, pois, para se chegar a uma
conclusão, é preciso que se tenha necessariamente também a experiência real da
morte. Este acontecimento, infelizmente, coloca o observador numa situação que
lhe torna impossível transmitir uma informação objetiva de sua experiência e
das conclusões daí resultantes.
"Saber de que modo se deve, afinal, interpretar estas
experiências é um problema que supera a competência de uma ciência empírica e
ultrapassa nossas capacidades intelectuais, pois, para se chegar a uma
conclusão, é preciso que se tenha necessariamente também a experiência real da
morte. Este acontecimento, infelizmente, coloca o observador numa situação que
lhe torna impossível transmitir uma informação objetiva de sua experiência e
das conclusões daí resultantes.
A consciência se move dentro de estreitos limites, dentro do
curto espaço de tempo entre seu começo e seu fim, encurtado ainda mais em cerca
de um terço por períodos de sono. A vida do corpo dura um pouco mais, começa
sempre mais cedo e, muitas vezes, só cessa depois da consciência. Começo e fim
são aspectos inevitáveis de todos os processos. Todavia, se examinarmos de
perto, verificamos que é extremamente difícil indicar onde começa e onde
termina um processo, porque os acontecimentos e os processos, os começos e os
fins constituem, no fundo, um contínuo indivisível. Distinguimos os processos
uns dos outros, com o fim de defini-los e conhece-los melhor, mas, no fundo,
sabemos que toda divisão é arbitrária e convencional. Este procedimento não
interfere no contínuo do processo mundano porque “começo” e “fim” são, antes e
acima de tudo, necessidades do processo de conhecimento consciente. Podemos
certamente afirmar, com bastante certeza, que uma consciência individual chegou
ao fim enquanto relacionada conosco. Mas não é de todo certo se isto interrompe
a continuidade do processo psíquico, porque hoje em dia não se pode afirmar a
ligação da psique com o cérebro, com tanta certeza quanto há cinqüenta anos[U1] .
Primeiro que tudo, a Psicologia precisa ainda de digerir certos fatos
parapsicológicos, o que não fez até agora.
Quer dizer, parece que a psique inconsciente possui
qualidades que projetam uma luz inteiramente singular sobre sua relação com o
espaço e o tempo. Refiro-me aos fenômenos telepáticos espaciais e temporais
que, como sabemos, é mais fácil ignorar do que explicar. Sob este aspecto a
ciência até agora escolheu (com bem poucas exceções) o caminho mais cômodo, que
é o de ignora-los. Devo, porém, confessar que as chamadas capacidades
telepáticas me causaram muita dor de cabeça, porque a palavra-chave “telepatia”
longe está de explicar o que quer que seja. A limitação da consciência no tempo
e no espaço é uma realidade tão avassaladora, que qualquer desvio desta verdade
fundamental é um acontecimento da mais alta significação teórica, pois provaria
que a limitação no tempo e no espaço é uma determinante que pode ser anulada. O
fator anulador seria a psique, porque o atributo espaço-tempo se ligaria a ela,
consequentemente, no máximo como qualidade relativa e condicionada. Em
determinadas circunstâncias, contudo, ela poderia romper a barreira do tempo e
do espaço, precisamente por causa de uma qualidade que lhe é essencial, ou
seja, sua natureza transespacial e transtemporal. Essa possibilidade de
transcender o tempo o e espaço, que me parece muito lógica, é de tão grande
alcance, que estimularia o espírito de pesquisa ao maior esforço possível. O
desenvolvimento atual de nossa consciência, contudo, está tão atrasado (as
exceções confirmam a regra!) que, em geral, falta-nos ainda o instrumental
científico e intelectual para avaliar adequadamente os fatos da telepatia
quanto à sua importância para o conhecimento da natureza da psique. Refiro-me a
este grupo de fenômenos, simplesmente para indicar que a ligação da psique com
o cérebro, isto é, sua limitação no espaço e no tempo, não é tão evidente nem
tão indiscutível como até agora nos têm feito acreditar.
Quem conhece, um mínimo que seja, o material psicológico já
existente e suficientemente testado, sabe muito bem que os chamados fenômenos
telepáticos são fatos inegáveis. Um exame crítico e objetivo dos dados
disponíveis nos permite verificar que alguma dessas percepções ocorrem de tal
maneira, como se não existisse o fator espaço, e outras como se não houvesse o
fator tempo. Naturalmente não podemos tirar daí a conclusão metafísica de que
no mundo das coisas “em si” não há espaço nem tempo, e que, consequentemente, a
mente humana se acha implicada na categoria espaço-tempo como em uma ilusão nebulosa[U2] .
Pelo contrário, verifica-se que o espaço e o tempo são não apenas as certezas
mais imediatas e mais primitivas para nós, como são também empiricamente
observáveis, porque tudo o que é perceptível acontece como se estivesse no
tempo e no espaço. Em vista desta certeza avassaladora, é compreensível que a
razão sinta a maior dificuldade em admitir a validade da natureza peculiar dos
fenômenos telepáticos. Mas quem fizer justiça aos fatos não pode deixar de
admitir que sua aparente in dependência em relação ao espaço e ao tempo é sua
qualidade mais essencial. Em suma, nossas percepções ingênuas e nossas certezas
mais imediatas não são, estritamente falando, mais do que evidências de uma
forma de intuição psíquica a priori
que exclui qualquer outra forma. O fato de sermos totalmente incapazes de
imaginar uma forma de existir independente do tempo e do espaço não prova
absolutamente que tal existência seja impossível. E da mesma forma como de uma
aparente independência em relação ao espaço e ao tempo não podemos tirar a
conclusão absoluta quanto à realidade de uma forma de existência independente
do espaço e do tempo, assim também não nos é permitido concluir , a partir do
caráter aparentemente espacial e temporal de nossas percepções, que uma
existência independente em relação ao
espaçoe ao tempo é impossível.. Em vista dos dados fornecidos pela experiência,
não somente nos é permitido, mas é imperioso duvidar da validez de nossa
percepção espacial-temporal. A possibilidade hipotética de que a psique toque
também em uma forma de existência independente em relação ao espaço e ao tempo
constitui um ponto de interrogação que deve ser levado a sério, pelo menos por
enquanto. As idéias e as dúvidas de nossos físicos modernos devem aconselhar
aos psicólogos a serem prudentes, porque o que significa, filosoficamente
falando, “a limitação do espaço” senão uma relativização da categoria espaço?
Algo de semelhante pode facilmente acontecer com a categoria tempo (como também
com a causalidade). As dúvidas a este respeito, hoje em dia, têm menos
fundamento do que as de outrora[U3] ."*
[continua...]
JUNG, C.G. In A natureza da psique, Ed. Voze, Petrópolis, 2011.
[U3]Jung
certamente acompanhou o desenvolvimento da física moderna a partir da virada
dos séculos XIX/XX e ficou encantado com a forma “herética” com que esta
sondava a Natureza, em oposição à física clássica. Chegou emsmo a desenvolver
um trabalho (Sincronicidade) junto com um físico queue foi seu paciente.
segunda-feira, 30 de abril de 2012
"A alma e a morte" 4
[...continuação]
"Sei que muitas pessoas têm dificuldades com a palavra
“psicológico”. Para tranqüilizar esses críticos, eu gostaria, portanto, de
acrescentar que ninguém sabe o que é a “psique”, como ninguém sabe até onde a
natureza da psique se estende. Uma verdade psicológica é, portanto, uma coisa
tão boa e respeitável quanto uma verdade física que se limita à matéria, como
aquela à psique. O “consensus gentium” que se expressa nas religiões está em
consonância com a minha fórmula paradoxal acima referida. Por isto parece-me
que considerar a morte como a realização plena do sentido da vida e sua
verdadeira meta, em vez de uma mera cessão sem sentido, corresponde melhor à
psique coletiva da humanidade. Quem professa uma opinião racionalista a este
respeito, isolou-se psicologicamente e está em oposição com sua própria
natureza humana básica.
[continua...]
JUNG, C.G, In A natureza da psique, Ed. Vozes, Petrópolis, 2011
"Sei que muitas pessoas têm dificuldades com a palavra
“psicológico”. Para tranqüilizar esses críticos, eu gostaria, portanto, de
acrescentar que ninguém sabe o que é a “psique”, como ninguém sabe até onde a
natureza da psique se estende. Uma verdade psicológica é, portanto, uma coisa
tão boa e respeitável quanto uma verdade física que se limita à matéria, como
aquela à psique. O “consensus gentium” que se expressa nas religiões está em
consonância com a minha fórmula paradoxal acima referida. Por isto parece-me
que considerar a morte como a realização plena do sentido da vida e sua
verdadeira meta, em vez de uma mera cessão sem sentido, corresponde melhor à
psique coletiva da humanidade. Quem professa uma opinião racionalista a este
respeito, isolou-se psicologicamente e está em oposição com sua própria
natureza humana básica.
Esta última frase contém uma verdade fundamental a respeito
de todas as neuroses, pois as perturbações nervosas consistem primariamente em
uma alienação dos instintos, em uma separação da consciência em relação a
certos fatos fundamentais da psique; por isto as opiniões racionalistas se
aproximam inesperadamente dos sintomas neuróticos.. Como estes, elas consistem
em um pensamento dissimulado que
ocupa olugar do pensamento psicologicamente correto. Este último mantém sempre
sua vinculação com o coração[U1]
, com as profundezas da alma, com a raiz-mestra do nosso ser, porque –
Iluminismo ou não iluminismo, consciência ou não consciência – a natureza nos
prepara para a morte.. Se pudéssemos observar diretamente e registrar os
pensamentos de um jovem, caso ele tivesse tempo e vagar para sonhar em pleno
dia, descobriríamos , ao lado de imagens da memória, fantasias que se ocupam
sobretudo com o futuro. Realmente, a maioria das fantasias é constituída de
antecipações. Em geral as fantasias são atos preparatórios ou mesmo exercícios
psíquicos para lidar com certas realidades futuras. Se pudéssemos fazer a mesma
experiência com uma pessoa que envelhece – naturalmente sem o seu conhecimento
encontraríamos um número maior de imagens da memório do que no jovem, por causa
da tendência do idoso de olhar para trás; mas, em compensação, mas em
compensação, encontraríamos também um número espantosamente grande de
antecipações do futuro, inclusive da morte. Com o andar dos anos, acumulam-se
assustadoramente os pensamentos sobre a morte. O homem que envelhece – quer
queira quer não – prepara-se para a morte. Por isto eu penso que a própria
natureza se prepara para o fim. Objetivamente, é indiferente saber o que a
consciência individual pensa a respeito disto. Subjetivamente, porém, há uma
imensa diferença quanto a saber se a consciência acompanha passo a passo a
psique ou se ela se apega a opiniões que o coração desconhece. De fato, é tão
neurótico não se orientar, na velhice, para a morte como um fim, quanto
reprimir, na juventude, fantasias que se ocupam com o futuro.
Na minha experiência bastante longa fiz uma série de
observações com pessoas cuja capacidade psíquica inconsciente eu pude seguir
até imediatamente antes da morte. Geralmente a aproximação do fim era
indicada através daqueles símbolos que,
na vida normal, denotavam mudanças no estado psicológico – símbolos de
renascimento, tais como mudanças de localidade, viagens e semelhantes. Muitas
vezes pude acompanhar até acima de um ano antes os indícios de aproximação da
morte, inclusive naqueles casos em que a situação externa não permitia tais
pensamentos. O processo tanatológico começara, portanto, muito antes da morte
real. Aliás, observa-se isto, frequentemente, também na mudança peculiar de
caráter que precede de muito a morte. Globalmente falando, eu me espantava de
ver o pouco caso que a psique inconsciente fazia da morte. Pareceria que a
morte era uma coisa relativamente sem importância, ou talvez nossa psique não
se preocupasse com o que eventualmente
acontecia ao indivíduo. Por isto parece que o inconsciente se interessa
tanto mais por saber como se morre,
ou seja, se a atitude da consciência está em conformidade ou não com o processo
de morrer. Assim, uma vez tive de tratar uma mulher de 62 anos, ainda vigorosa,
e [sofridamente[U2] ]
inteligente. Não era, por tanto, por falta de dotes que ela se mostrava incapaz
de compreender os próprios sonhos. Infelizmente era por demais evidente que ela
não queria entende-los. Seus sonhos eram muito claros, mas também
desagradáveis. Ela metera na própria cabeça que era uma mãe perfeita para os
filhos, mas os filhos não partilhavam desta opinião, e os seus próprios sonhos
revelavam uma convicção bastante contrária. Fui obrigado a interromper o
tratamento, depois de algumas semanas de esforços infrutíferos, por ter sido
convocado para o serviço militar (era durante a guerra). Entrementes a paciente
foi acometida de um mal incurável, que, depois de alguns meses, levou-a a um
estado agônico o qual, a cada momento, podia significar o fim. Na maior parte do tempo ela se achava
mergulhada numa espécie de delírio ou sonambulismo, e nesta curiosa situação
mental ela espontaneamente retomou o trabalho de análise antes interrompido.
Voltou a falar de seus sonhos e confessava a si própria tudo o que havia negado
antes com toda a obstinação possível, e mais uma porção de outras coisas. O
trabalho de autoanálise se prolongava por várias horas ao dia, durante semanas.
No final deste período, ela havia se acalmado, como uma paciente num tratamento
normal, e então morreu.
Desta e de numerosas outras experiências do mesmo
gênero devo concluir que nossa alma não é indiferente, pelo menos, ao morrer do
indivíduo. A tendência compulsiva que os moribundos frequentemente revelam de
querer corrigir ainda tudo o que é errado deve apontar na mesma direção."*[continua...]
JUNG, C.G, In A natureza da psique, Ed. Vozes, Petrópolis, 2011
sexta-feira, 27 de abril de 2012
"A alma e a morte" 3
[continuação]
“Nossa longevidade comprovada pelas estatísticas atuais é um
produto da civilização. Entre os primitivos só excepcionalmente se chega a uma
idade avançada. Assim, quando visitei as tribos primitivas da África Oriental,
vi pouquíssimos homens de cabelos brancos que poderiam ter estimativamente mais
de sessenta anos. Mas eram realmente velhos e parecia que tinham sido sempre
velhos, tão plenamente se haviam identificado com sua idade avançada. Eram
exatamente o que eram sob todos os aspectos, ao passo que nós somos sempre mais
ou menos aquilo que realmente somos. É como se nossa consciência tivesse
deslizado um pouco de suas bases naturais e não soubesse mais como se orientar
pelo tempo natural. Dir-se-ia que sofremos de uma “hybris” da consciência que
nos induz a acreditar que o tempo de nossa vida é mera ilusão que pode ser
alterada a nosso bel- prazer. (Pergunta-se de onde a consciência tira a sua
capacidade de ser tão contrária à natureza e o que pode significar tal
arbitrariedade.)
Da mesma forma que a trajetória de um projétil termina
quando ele atinge o alvo, assim também a vida termina na morte, que é,
portanto, o alvo para o qual tende a vida inteira. Mesmo sua ascensão e seu
zênite são apenas etapas e meios através dos quais se alcança o alvo que é a
morte. Esta fórmula paradoxal nada mais é do que a conclusão lógica do fato de
que nossa vida é teleológica e determinada por um objetivo. Não acredito que eu
seja culpado de estar brincando aqui com silogismos. Se atribuímos uma
finalidade e um sentido à ascensão da vida, por que não atribuímos também ao
seu declínio? Se o nascimento do homem é prenhe de significação, por que é que
a sua morte também não o é? O jovem é preparado durante vinte anos ou mais para
a plena expansão de sua existência individual. Por que não deve ser preparado
também, durante vinte anos ou mais, para o seu fim? Por certo, com o zênite a
pessoa alcança obviamente este fim, é este fim e o possui. O que se alcança com
a morte?
No momento em que talvez se poderia esperar, eu não gostaria
de tirar uma fé subitamente do meu bolso e convidar meus leitores a fazer
justamente aquilo que ninguém pode fazer, isto é, a acreditar em alguma coisa. Devo confessar
que eu também jamais poderia fazê-lo. Por isto certamente eu não afirmarei
agora que é preciso crer que a morte é um segundo nascimento que nos leva a uma
sobrevida no além. Mas posso pelo menos mencionar que o “consensus gentium”
(consenso universal) tem concepções claras sobre a morte, que se acham
expressas de maneira inequívoca nas grandes religiões do mundo. Pode-se mesmo
afirmar que a maioria destas religiões é um complicado sistema de preparações
para a morte, de tal modo que a vida, de acordo com a minha fórmula paradoxal
acima expressa, realmente nada mais é do que uma preparação para o fim
derradeiro que é a morte. Para as duas maiores religiões vivas: o cristianismo
e o budismo, o significado da existência se consuma com o seu término.
Desde a época do Iluminismo desenvolveu-se uma opinião a
respeito da religião, que, embora seja uma concepção errada, tipicamente
racionalista, merece ser mencionada por causa de sua grande difusão. De acordo
com este ponto de vista, todas as religiões constituem uma espécie de sistemas
filosóficos, forjados pela cabeça dos homens. Um dia alguém inventou um Deus e
outros dogmas e passou a zombar da humanidade com esta fantasia “própria para
satisfazer desejos”. Esta opinião é contraditada pelo fato psicológico de que a
cabeça é um órgão inteiramente inadequado quando se trata de conceber símbolos
religiosos. Estes não provêm da cabeça, mas de algum outro lugar, talvez do coração[U1] ;
certamente, de alguma camada profunda da psique, popuco semelhante à
consciência, que é sempre uma camada superficial.. É por isto que os símbolos
religiosos têm um pronunciado “caráter de revelação” e, em geral, são produtos
espontâneos da atividade inconsciente da psique. São tudo, menos coisa
imaginada. Pelo contrário, eles se desenvolveram progressivamente, à semelhança
de plantas, como revelações naturais da psique humana, no decurso dos séculos.
Ainda hoje podemos observar em certos indivíduos o aparecimento espontâneo de
autênticos e genuínos símbolos religiosos que brotam do inconsciente quais flores de espécie estranha, enquanto a
consciência se mantém perplexa de lado, sem saber realmente o que fazer com
semelhantes criações. Não é muito difícil constatar que esses símbolos
individuais provêm, tanto em seu conteúdo quanto em sua forma, do mesmo
“espírito” (ou que outro nome tenha) que as grandes religiões da humanidade. Em
qualquer caso, a experiência nos mostra que as religiões não são elaborações
conscientes, mas provêm da vida natural da psique inconsciente, dando-lhe
adequada expressão. Isto explica a sua disseminação universal e sua imensa
influência sobre a humanidade através da história. Esta influência seria
incompreensível se os símbolos religiosos não fossem ao menos verdades
psicológicas naturais.”*
[continua...]
*JUNG, C.G., In A natureza da psique, Ed. Vozes, Petrópolis,
2011.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
"A alma e a morte" 2
[continuação]
"A curva psicológica da vida, entretanto, recusa-se a se
conformar com estas leis da natureza. A discordância começa às vezes já antes,
na subida. Biologicamente, o projétil sobe, mas psicologicamente retarda.
Ficamos parados, por trás de nossos anos, agarrados à nossa infância, como se
não pudéssemos nos arrancar do chão. Paramos os ponteiros do relógio, e
imaginamos que o tempo se deteve. Se alcançamos finalmente o cume, mesmo com
algum atraso, psicologicamente nos sentamos aí para descansar, e embora nos sintamos
deslizar montanha abaixo, agarramo-nos, ainda que com olhares nostálgicos, ao
pico que outrora alcançamos; o medo que antigamente nos paralisava diante da
vida, agora nos paralisa diante da morte. E embora admitamos que foi o medo da
vida que retardou nossa subida, contudo, exigimos maior direito ainda de nos
determos no cume que acabamos de galgar, justamente por causa desse atraso.
Embora se torne evidente que a vida se afirmou, apesar de todas as nossas
resistências (agora profundamente lamentadas), não levamos esse fato em conta e
tentamos deter o curso da vida. Com isto, nossa psicologia perde a sua base
natural. Nossa consciência paira suspensa no ar, enquanto, embaixo, a parábola
da vida desce cada vez mais rapidamente.
A vida natural é o solo em que se nutre a alma. Quem não
consegue acompanhar essa vida, permanece enrijecido e parado em pleno ar. É por
isto que muitas pessoas se petrificam na idade madura, olham para trás e se
agarram ao passado, com um medo secreto da morte no coração. Subtraem-se ao
processo vital, pelo menos psicologicamente, e por isto ficam paradas como
colunas nostálgicas, com recordações muito vívidas do seu tempo de juventude,
mas sem nenhuma relação vital com o presente. Do meio da vida em diante, só
aquele que se dispõe a morrer conserva a vitalidade, porque na hora secreta do
meio-dia da vida se inverte a parábola e “nasce a morte”. A segunda metade da
vida não significa subida, expansão, crescimento, exuberância, mas morte,
porque seu alvo é o seu término. A recusa em aceitar a plenitude da vida
equivale a não aceitar o seu fim. Tanto uma coisa como a outra significam não
querer viver. E não querer viver é sinônimo de não querer morrer. A ascensão e
o declínio formam uma só curva.
Sempre que possível, nossa consciência recusa-se a aceitar
esta verdade inegável. Ordinariamente nos apegamos ao nosso passado e ficamos
presos à ilusão de nossa juventude. A velhice é sumamente impopular. Parece que
ninguém considera que a incapacidade de envelhecer é tão absurda quanto a incapacidade
de abandonar os sapatos de criança que traz nos pés. O homem de trinta anos
ainda com espírito infantil é certamente digno de lástima, mas um setuagenário
jovem não é delicioso? E, no entanto, ambos são pervertidos, desprovidos de
estilo, verdadeiras monstruosidades psicológicas. Um jovem que não luta nem
triunfa perdeu o melhor de sua juventude, e um velho que não sabe escutar os
segredos dos riachos que descem dos cumes das montanhas para os vales não tem
sentido, é uma múmia espiritual e não passa de uma relíquia petrificada do
passado. Está situado à margem da vida, repetindo-se mecanicamente até à última
banalidade. Pobre cultura aquela que necessita de tais fantasmas!"*
[continua]*JUNG, C.G., In A Natureza da psique, Editora Vozes, Petrópolis, 2011.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
"A alma e a morte" 1

"Muitas vezes me tem sido perguntado o que é que eu penso a
respeito da morte, desse fim não problemático da existência humana individual.
A morte nos é conhecida simplesmente como um fim e nada mais. É o ponto final
que se coloca muitas vezes antes mesmo de encerrar-se o período, e depois dela
só existem recordações e efeitos subsequentes, nos outros. Mas para o
interessado a areia escoou-se na ampulheta; a pedra que rolava chegou ao estado
de repouso. Em confronto com a morte, a vida nos parece sempre como um fluir
constante, como a marcha de um relógio a que se deu corda e cuja parada afinal
é automaticamente esperada. Nunca estamos tão convencidos desta marcha
inexorável do que quando vemos uma vida humana chegar ao fim, e nunca a questão
do sentido e do valor da vida se torna mais premente e mais dolorosa do que
quando vemos o último alento abandonar o corpo que ainda há pouco vivia. Quão
diferente nos parece o significado da vida quando vemos um jovem a lutar por
objetivos distantes e a construir um futuro, em comparação com um doente
incurável ou um ancião que descem relutantes e impotentes à sepultura. A
juventude tem – aparentemente – um objetivo, um futuro, um significado e um
valor, enquanto a marcha para um fim é apenas uma cessação sem sentido. Se alguém
tem medo do mundo, da vida e do futuro, todos consideram isto como lamentável,
irracional e neurótico; o jovem é visto como um poltrão covarde. Mas, se o
homem que envelhece sente um pavor secreto ou mesmo um temor mortal ao
pensamento de que suas expectativas razoáveis de vida agora são apenas de
tantos e tantos anos, então nos lembramos penosamente de certos sentimentos que
trazemos dentro do próprio peito, desviamos o olhar para outro lado e
encaminhamos a conversa para outro assunto. O otimismo com que julgamos a
juventude fracassa nessa hora. Temos, naturalmente, um repertório de conceitos
apropriados a respeito da vida, que ocasionalmente ministramos aos outros, tais
como; “todo mundo um dia vai morrer”, “ninguém é eterno”, etc., mas quando estamos
sozinhos e é noite, e a escuridão e o silêncio são tão densos, que não
escutamos e não vemos senão os pensamentos que somam e subtraem os anos da
vida, e a longa série daqueles fatos desagradáveis que impiedosamente nos
mostram até onde os ponteiros do relógio já chegaram, e a aproximação lenta e
irresistível do muro de trevas que finalmente tragarão todo o que eu amo,
desejo, possuo, espero e procuro; então toda a nossa sabedoria de vida se
esgueirará para um esconderijo impossível de descobrir, e o medo envolverá o
insone como um cobertor sufocante.
Assim como existe um grande número de jovens que, no fundo,
tem um medo assustador da vida (que eles ao mesmo tempo desejam ardentemente),
também existe um número, talvez ainda maior, de pessoas idosas que tem o mesmo
medo em relação à morte. Tenho observado que aqueles que mais temem a vida
quando jovens, são justamente os que mais têm medo da morte quando envelhecem.
Quando são jovens, dizemos que eles opõem uma resistência infantil às
exigências normais da vida, mas deveríamos dizer a mesma coisa quando são
velhos, ou seja, que eles têm medo também das exigências normais da vida; mas
estamos tão convencidos de que a morte não é senão o fim de um processo, que
ordinariamente não nos ocorre conceber a morte como uma meta e uma consumação,
como o fazemos, sem hesitação, com respeito aos objetivos e às intenções da
vida jovem em ascensão.
A vida é um processo energético como qualquer outro, mas, em
princípio, todo processo energético é irreversível e, por isto, é orientado
univocamente para um objetivo. E este objetivo é o estado de repouso. No fundo,
todo processo nada mais é do que, por assim dizer, a perturbação inicial de um
estado de repouso perpétuo que procura restabelecer-se sempre. A vida é
teleológica “par excellence”, é a própria persecução de um determinado fim, e o
organismo nada mais é do que um sistema de objetivos prefixados que se procura
alcançar. O termo de cada processo é o seu objetivo. Todo processo energético
se assemelha a um corredor que procura alcançar sua meta com o máximo esforço e
o maior dispêndio possível de forças. A ânsia do jovem pelo mundo e pela vida,
o desejo de consumar altas esperanças e objetivos distantes constituem o
impulso teleológico manifesto da vida que se converte em medo da vida, em
resistências neuróticas, depressões e fobias, se fica preso ao passado, sob
algum aspecto, ou recua diante de certos riscos sem os quais não se podem
atingir as metas prefixadas. Mas o impulso teleológico da vida não cessa quando
se atinge o amadurecimento e o zênite da vida biológica. A vida desce agora
montanha abaixo, com a mesma intensidade e a mesma irresistibilidade com que a
subia antes da meia idade, porque a meta não está no cume, mas no vale, onde a
subida começou. A curva da vida é como a parábola de um projétil que retorna ao
estado de repouso, depois de ter sido perturbado no seu estado de repouso
inicial."*
[continua....]
*JUNG, C.G. in A Natureza da Psique, Ed. Vozes, Petrópolis, 2011
sábado, 21 de abril de 2012
Esta me lavou a alma
"O mérito de um texto bem escrito é, sobretudo, ético:
liberta o leitor. Ao contrário do que estabelece certo senso comum
pretensamente científico, à complexidade conceitual de um texto não precisa,
nem deve, corresponder a obscuridade da escrita. Que o digam os leitores de
Montaigne, grande filósofo de “fácil” leitura, cujas amplitude e profundidade
de pensamento não ficam nada a dever a seus contemporâneos. Ao contrário, com
freqüência Montaigne os ultrapassa.
A obscuridade de um texto revela dois problemas que em geral
andam juntos: a falta de clareza do pensamento e a vontade de impressionar e
(ou) de intimidar o leitor. No segundo caso, reconhecemos o artifício empregado
por quem deseja dominar um campo de pensamento através da supercodificação dos
conceitos, dos mais simples aos mais intrincados, de modo a criar uma língua
somente para iniciados – reles estratégia de mercado utilizada para assegurar o
poder dos mestres e das corporações de ensino.
A escola lacaniana, à qual me filio com esforço, sofre desse
mal crônico: a dificuldade dos textos, estabelecida por seu criador e
perseguida por seus discípulos como se fosse um valor intelectual, promove uma
permanente disputa em torno da imprecisão e da flutuação dos conceitos. Isso
ocorreu, em parte, pela dificuldade da transposição textual da fluência de
Lacan nos Seminários; em parte, porque, nos “Escritos” Lacan revela que a
transmissão escrita não era seu forte.”*
*Maria Rita Kehl, na apresentação de FREUD, S. , Luto e
Melancolia, Cosac Naify, São Paulo,
2011.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
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