quarta-feira, 23 de maio de 2012

segunda-feira, 14 de maio de 2012

sábado, 12 de maio de 2012

da minha terra,

as gentes (inclusive eu) são esquisitas, mas a arquitetura é show.


Imagens do "fotocronista" Washington C. Takeuchi, do blog circulandoporcuritiba.blogspot.com

quarta-feira, 9 de maio de 2012

eu, o homem do facão

Meu pai, que me achava uma pessoa extremamente dura - e com razão, ao contrário do que muita gente pensa - costumava me dizer: "você é ruim como meu tio Rafael". Desse tio, ele contava que sempre que alguém lhe agradecia por qualquer coisa com o costumeiro "Deus o abençôe", ele invariavelmente retrucava: "não precisa".

eu, no meu tempo de Clarice Lispector

há uns 40 anos

sexta-feira, 4 de maio de 2012

"A alma e a morte 6"

[...continuação]
"A natureza da psique mergulha em obscuridades, para além dos limites de nossas categorias intelectuais. A alma encerra tantos mistérios quanto o mundo com seus sistemas de galáxias diante de cujas majestosas configurações só um espírito desprovido de imaginação é capaz de negar suas próprias insuficiências. Esta extrema incerteza da compreensão humana nos mostra que o estardalhaço iluminista é não somente ridículo, como também lamentavelmente estúpido. Se alguém, portanto, extraísse da necessidade do próprio coração, ou da concordância com as lições da antiga sabedoria da humanidade, ou do fato psicológico de que ocorrem percepções “telepáticas”, a conclusão de que a psique participa, em suas camadas mais profundas, de uma forma de existência transespacial e transtemporal e que, por conseqüência, pertence àquilo que inadequada e simbolicamente é designado pelo nome de “eternidade”, o único argumento que a razão crítica lhe poderia opor seria o non liquet (não está provado) da ciência. Tal pessoa, além disso, possuiria a inestimável vantagem de estar de acordo com a inclinação presente na psique humana desde tempos imemoriais e universalmente existente. Quem por ceticismo, rebeldia contra a tradição, falta de coragem ou insuficiente experiência psicológica ou ignorância cega não extrai esta conclusão, tem muito pouca chance, estatisticamente falando, de ser um pioneiro do espírito, embora esteja firmemente cero de entrar em conflito com as verdades do próprio sangue. No fundo, jamais conseguiremos provar que tais verdades sejam ou não absolutas. É suficiente, porém, que elas existam como indicações da psique, e sabemos demais o que seja entrar levianamente em choque com essas “verdades”. Equivale à negação consciente dos instintos, isto é, a um desenraizamento, a uma desorientação, à falta de sentido da existência, ou que outros nomes possam ter estes sintomas de inferioridade. Um dos erros sociológicos e psicológicos mais fatais de que nossa época é tão rica, foi o de pensar, muitas vezes, que alguma coisa pode mudar de um momento para outro, por exemplo: que a natureza do homem pode mudar radicalmente, ou que podemos descobrir uma fórmula ou ma verdade que seja um começo inteiramente novo etc. Qualquer mudança essencial ou mesmo uma simples melhoria significa um milagre. O distanciamento das verdades do sangue produz uma agitação neurótica cujos exemplos abundam em nossos dias. Esta agitação, por sua vez, gera a falta de sentido da existência, falta esta que é uma enfermidade psíquica cuja amplidão e alcance total nossa época ainda não percebeu."*

JUNG, C.G.  In A natureza da psique, Ed. Vozes, Petrópolis, 2011.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

"A alma e a morte" 5

[...continuação]
"Saber de que modo se deve, afinal, interpretar estas experiências é um problema que supera a competência de uma ciência empírica e ultrapassa nossas capacidades intelectuais, pois, para se chegar a uma conclusão, é preciso que se tenha necessariamente também a experiência real da morte. Este acontecimento, infelizmente, coloca o observador numa situação que lhe torna impossível transmitir uma informação objetiva de sua experiência e das conclusões daí resultantes.
A consciência se move dentro de estreitos limites, dentro do curto espaço de tempo entre seu começo e seu fim, encurtado ainda mais em cerca de um terço por períodos de sono. A vida do corpo dura um pouco mais, começa sempre mais cedo e, muitas vezes, só cessa depois da consciência. Começo e fim são aspectos inevitáveis de todos os processos. Todavia, se examinarmos de perto, verificamos que é extremamente difícil indicar onde começa e onde termina um processo, porque os acontecimentos e os processos, os começos e os fins constituem, no fundo, um contínuo indivisível. Distinguimos os processos uns dos outros, com o fim de defini-los e conhece-los melhor, mas, no fundo, sabemos que toda divisão é arbitrária e convencional. Este procedimento não interfere no contínuo do processo mundano porque “começo” e “fim” são, antes e acima de tudo, necessidades do processo de conhecimento consciente. Podemos certamente afirmar, com bastante certeza, que uma consciência individual chegou ao fim enquanto relacionada conosco. Mas não é de todo certo se isto interrompe a continuidade do processo psíquico, porque hoje em dia não se pode afirmar a ligação da psique com o cérebro, com tanta certeza quanto há cinqüenta anos[U1] . Primeiro que tudo, a Psicologia precisa ainda de digerir certos fatos parapsicológicos, o que não fez até agora.
Quer dizer, parece que a psique inconsciente possui qualidades que projetam uma luz inteiramente singular sobre sua relação com o espaço e o tempo. Refiro-me aos fenômenos telepáticos espaciais e temporais que, como sabemos, é mais fácil ignorar do que explicar. Sob este aspecto a ciência até agora escolheu (com bem poucas exceções) o caminho mais cômodo, que é o de ignora-los. Devo, porém, confessar que as chamadas capacidades telepáticas me causaram muita dor de cabeça, porque a palavra-chave “telepatia” longe está de explicar o que quer que seja. A limitação da consciência no tempo e no espaço é uma realidade tão avassaladora, que qualquer desvio desta verdade fundamental é um acontecimento da mais alta significação teórica, pois provaria que a limitação no tempo e no espaço é uma determinante que pode ser anulada. O fator anulador seria a psique, porque o atributo espaço-tempo se ligaria a ela, consequentemente, no máximo como qualidade relativa e condicionada. Em determinadas circunstâncias, contudo, ela poderia romper a barreira do tempo e do espaço, precisamente por causa de uma qualidade que lhe é essencial, ou seja, sua natureza transespacial e transtemporal. Essa possibilidade de transcender o tempo o e espaço, que me parece muito lógica, é de tão grande alcance, que estimularia o espírito de pesquisa ao maior esforço possível. O desenvolvimento atual de nossa consciência, contudo, está tão atrasado (as exceções confirmam a regra!) que, em geral, falta-nos ainda o instrumental científico e intelectual para avaliar adequadamente os fatos da telepatia quanto à sua importância para o conhecimento da natureza da psique. Refiro-me a este grupo de fenômenos, simplesmente para indicar que a ligação da psique com o cérebro, isto é, sua limitação no espaço e no tempo, não é tão evidente nem tão indiscutível como até agora nos têm feito acreditar.
Quem conhece, um mínimo que seja, o material psicológico já existente e suficientemente testado, sabe muito bem que os chamados fenômenos telepáticos são fatos inegáveis. Um exame crítico e objetivo dos dados disponíveis nos permite verificar que alguma dessas percepções ocorrem de tal maneira, como se não existisse o fator espaço, e outras como se não houvesse o fator tempo. Naturalmente não podemos tirar daí a conclusão metafísica de que no mundo das coisas “em si” não há espaço nem tempo, e que, consequentemente, a mente humana se acha implicada na categoria espaço-tempo como em uma ilusão nebulosa[U2] . Pelo contrário, verifica-se que o espaço e o tempo são não apenas as certezas mais imediatas e mais primitivas para nós, como são também empiricamente observáveis, porque tudo o que é perceptível acontece como se estivesse no tempo e no espaço. Em vista desta certeza avassaladora, é compreensível que a razão sinta a maior dificuldade em admitir a validade da natureza peculiar dos fenômenos telepáticos. Mas quem fizer justiça aos fatos não pode deixar de admitir que sua aparente in dependência em relação ao espaço e ao tempo é sua qualidade mais essencial. Em suma, nossas percepções ingênuas e nossas certezas mais imediatas não são, estritamente falando, mais do que evidências de uma forma de intuição psíquica a priori que exclui qualquer outra forma. O fato de sermos totalmente incapazes de imaginar uma forma de existir independente do tempo e do espaço não prova absolutamente que tal existência seja impossível. E da mesma forma como de uma aparente independência em relação ao espaço e ao tempo não podemos tirar a conclusão absoluta quanto à realidade de uma forma de existência independente do espaço e do tempo, assim também não nos é permitido concluir , a partir do caráter aparentemente espacial e temporal de nossas percepções, que uma existência  independente em relação ao espaçoe ao tempo é impossível.. Em vista dos dados fornecidos pela experiência, não somente nos é permitido, mas é imperioso duvidar da validez de nossa percepção espacial-temporal. A possibilidade hipotética de que a psique toque também em uma forma de existência independente em relação ao espaço e ao tempo constitui um ponto de interrogação que deve ser levado a sério, pelo menos por enquanto. As idéias e as dúvidas de nossos físicos modernos devem aconselhar aos psicólogos a serem prudentes, porque o que significa, filosoficamente falando, “a limitação do espaço” senão uma relativização da categoria espaço? Algo de semelhante pode facilmente acontecer com a categoria tempo (como também com a causalidade). As dúvidas a este respeito, hoje em dia, têm menos fundamento do que as de outrora[U3] ."*
[continua...]

JUNG, C.G. In A natureza da psique, Ed. Voze, Petrópolis, 2011.


 [U1]Provavelmente hoje ele pensaria diferente

 [U2]Eu, pessoalmente, acho que esta é uma hipótese perfeitamente defensável.

 [U3]Jung certamente acompanhou o desenvolvimento da física moderna a partir da virada dos séculos XIX/XX e ficou encantado com a forma “herética” com que esta sondava a Natureza, em oposição à física clássica. Chegou emsmo a desenvolver um trabalho (Sincronicidade) junto com um físico queue foi seu paciente.


segunda-feira, 30 de abril de 2012

"A alma e a morte" 4

[...continuação]
"Sei que muitas pessoas têm dificuldades com a palavra “psicológico”. Para tranqüilizar esses críticos, eu gostaria, portanto, de acrescentar que ninguém sabe o que é a “psique”, como ninguém sabe até onde a natureza da psique se estende. Uma verdade psicológica é, portanto, uma coisa tão boa e respeitável quanto uma verdade física que se limita à matéria, como aquela à psique. O “consensus gentium” que se expressa nas religiões está em consonância com a minha fórmula paradoxal acima referida. Por isto parece-me que considerar a morte como a realização plena do sentido da vida e sua verdadeira meta, em vez de uma mera cessão sem sentido, corresponde melhor à psique coletiva da humanidade. Quem professa uma opinião racionalista a este respeito, isolou-se psicologicamente e está em oposição com sua própria natureza humana básica.
Esta última frase contém uma verdade fundamental a respeito de todas as neuroses, pois as perturbações nervosas consistem primariamente em uma alienação dos instintos, em uma separação da consciência em relação a certos fatos fundamentais da psique; por isto as opiniões racionalistas se aproximam inesperadamente dos sintomas neuróticos.. Como estes, elas consistem em um pensamento dissimulado que ocupa olugar do pensamento psicologicamente correto. Este último mantém sempre sua vinculação com o coração[U1]  , com as profundezas da alma, com a raiz-mestra do nosso ser, porque – Iluminismo ou não iluminismo, consciência ou não consciência – a natureza nos prepara para a morte.. Se pudéssemos observar diretamente e registrar os pensamentos de um jovem, caso ele tivesse tempo e vagar para sonhar em pleno dia, descobriríamos , ao lado de imagens da memória, fantasias que se ocupam sobretudo com o futuro. Realmente, a maioria das fantasias é constituída de antecipações. Em geral as fantasias são atos preparatórios ou mesmo exercícios psíquicos para lidar com certas realidades futuras. Se pudéssemos fazer a mesma experiência com uma pessoa que envelhece – naturalmente sem o seu conhecimento encontraríamos um número maior de imagens da memório do que no jovem, por causa da tendência do idoso de olhar para trás; mas, em compensação, mas em compensação, encontraríamos também um número espantosamente grande de antecipações do futuro, inclusive da morte. Com o andar dos anos, acumulam-se assustadoramente os pensamentos sobre a morte. O homem que envelhece – quer queira quer não – prepara-se para a morte. Por isto eu penso que a própria natureza se prepara para o fim. Objetivamente, é indiferente saber o que a consciência individual pensa a respeito disto. Subjetivamente, porém, há uma imensa diferença quanto a saber se a consciência acompanha passo a passo a psique ou se ela se apega a opiniões que o coração desconhece. De fato, é tão neurótico não se orientar, na velhice, para a morte como um fim, quanto reprimir, na juventude, fantasias que se ocupam com o futuro.
Na minha experiência bastante longa fiz uma série de observações com pessoas cuja capacidade psíquica inconsciente eu pude seguir até imediatamente antes da morte. Geralmente a aproximação do fim era indicada  através daqueles símbolos que, na vida normal, denotavam mudanças no estado psicológico – símbolos de renascimento, tais como mudanças de localidade, viagens e semelhantes. Muitas vezes pude acompanhar até acima de um ano antes os indícios de aproximação da morte, inclusive naqueles casos em que a situação externa não permitia tais pensamentos. O processo tanatológico começara, portanto, muito antes da morte real. Aliás, observa-se isto, frequentemente, também na mudança peculiar de caráter que precede de muito a morte. Globalmente falando, eu me espantava de ver o pouco caso que a psique inconsciente fazia da morte. Pareceria que a morte era uma coisa relativamente sem importância, ou talvez nossa psique não se preocupasse com o que eventualmente  acontecia ao indivíduo. Por isto parece que o inconsciente se interessa tanto mais por saber como se morre, ou seja, se a atitude da consciência está em conformidade ou não com o processo de morrer. Assim, uma vez tive de tratar uma mulher de 62 anos, ainda vigorosa, e [sofridamente[U2] ] inteligente. Não era, por tanto, por falta de dotes que ela se mostrava incapaz de compreender os próprios sonhos. Infelizmente era por demais evidente que ela não queria entende-los. Seus sonhos eram muito claros, mas também desagradáveis. Ela metera na própria cabeça que era uma mãe perfeita para os filhos, mas os filhos não partilhavam desta opinião, e os seus próprios sonhos revelavam uma convicção bastante contrária. Fui obrigado a interromper o tratamento, depois de algumas semanas de esforços infrutíferos, por ter sido convocado para o serviço militar (era durante a guerra). Entrementes a paciente foi acometida de um mal incurável, que, depois de alguns meses, levou-a a um estado agônico o qual, a cada momento, podia significar o fim.  Na maior parte do tempo ela se achava mergulhada numa espécie de delírio ou sonambulismo, e nesta curiosa situação mental ela espontaneamente retomou o trabalho de análise antes interrompido. Voltou a falar de seus sonhos e confessava a si própria tudo o que havia negado antes com toda a obstinação possível, e mais uma porção de outras coisas. O trabalho de autoanálise se prolongava por várias horas ao dia, durante semanas. No final deste período, ela havia se acalmado, como uma paciente num tratamento normal, e então morreu.
Desta e de numerosas outras experiências do mesmo gênero devo concluir que nossa alma não é indiferente, pelo menos, ao morrer do indivíduo. A tendência compulsiva que os moribundos frequentemente revelam de querer corrigir ainda tudo o que é errado deve apontar na mesma direção."*
[continua...]


JUNG, C.G, In A natureza da psique, Ed. Vozes, Petrópolis, 2011


 [U1]De novo esta esquisitice

 [U2]No texto está  “sofrivelmente”, mas acho que isto foi uma cochilada do tradutor, pois, em português, “sofrivelmente inteligente”, quer dizer muito pouco inteligente, o que evidentemente não faria sentido aqui.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

"A alma e a morte" 3


[continuação]
“Nossa longevidade comprovada pelas estatísticas atuais é um produto da civilização. Entre os primitivos só excepcionalmente se chega a uma idade avançada. Assim, quando visitei as tribos primitivas da África Oriental, vi pouquíssimos homens de cabelos brancos que poderiam ter estimativamente mais de sessenta anos. Mas eram realmente velhos e parecia que tinham sido sempre velhos, tão plenamente se haviam identificado com sua idade avançada. Eram exatamente o que eram sob todos os aspectos, ao passo que nós somos sempre mais ou menos aquilo que realmente somos. É como se nossa consciência tivesse deslizado um pouco de suas bases naturais e não soubesse mais como se orientar pelo tempo natural. Dir-se-ia que sofremos de uma “hybris” da consciência que nos induz a acreditar que o tempo de nossa vida é mera ilusão que pode ser alterada a nosso bel- prazer. (Pergunta-se de onde a consciência tira a sua capacidade de ser tão contrária à natureza e o que pode significar tal arbitrariedade.)
Da mesma forma que a trajetória de um projétil termina quando ele atinge o alvo, assim também a vida termina na morte, que é, portanto, o alvo para o qual tende a vida inteira. Mesmo sua ascensão e seu zênite são apenas etapas e meios através dos quais se alcança o alvo que é a morte. Esta fórmula paradoxal nada mais é do que a conclusão lógica do fato de que nossa vida é teleológica e determinada por um objetivo. Não acredito que eu seja culpado de estar brincando aqui com silogismos. Se atribuímos uma finalidade e um sentido à ascensão da vida, por que não atribuímos também ao seu declínio? Se o nascimento do homem é prenhe de significação, por que é que a sua morte também não o é? O jovem é preparado durante vinte anos ou mais para a plena expansão de sua existência individual. Por que não deve ser preparado também, durante vinte anos ou mais, para o seu fim? Por certo, com o zênite a pessoa alcança obviamente este fim, é este fim e o possui. O que se alcança com a morte?
No momento em que talvez se poderia esperar, eu não gostaria de tirar uma fé subitamente do meu bolso e convidar meus leitores a fazer justamente aquilo que ninguém pode fazer, isto é,  a acreditar em alguma coisa. Devo confessar que eu também jamais poderia fazê-lo. Por isto certamente eu não afirmarei agora que é preciso crer que a morte é um segundo nascimento que nos leva a uma sobrevida no além. Mas posso pelo menos mencionar que o “consensus gentium” (consenso universal) tem concepções claras sobre a morte, que se acham expressas de maneira inequívoca nas grandes religiões do mundo. Pode-se mesmo afirmar que a maioria destas religiões é um complicado sistema de preparações para a morte, de tal modo que a vida, de acordo com a minha fórmula paradoxal acima expressa, realmente nada mais é do que uma preparação para o fim derradeiro que é a morte. Para as duas maiores religiões vivas: o cristianismo e o budismo, o significado da existência se consuma com o seu término.
Desde a época do Iluminismo desenvolveu-se uma opinião a respeito da religião, que, embora seja uma concepção errada, tipicamente racionalista, merece ser mencionada por causa de sua grande difusão. De acordo com este ponto de vista, todas as religiões constituem uma espécie de sistemas filosóficos, forjados pela cabeça dos homens. Um dia alguém inventou um Deus e outros dogmas e passou a zombar da humanidade com esta fantasia “própria para satisfazer desejos”. Esta opinião é contraditada pelo fato psicológico de que a cabeça é um órgão inteiramente inadequado quando se trata de conceber símbolos religiosos. Estes não provêm da cabeça, mas de algum outro lugar, talvez do coração[U1] ; certamente, de alguma camada profunda da psique, popuco semelhante à consciência, que é sempre uma camada superficial.. É por isto que os símbolos religiosos têm um pronunciado “caráter de revelação” e, em geral, são produtos espontâneos da atividade inconsciente da psique. São tudo, menos coisa imaginada. Pelo contrário, eles se desenvolveram progressivamente, à semelhança de plantas, como revelações naturais da psique humana, no decurso dos séculos. Ainda hoje podemos observar em certos indivíduos o aparecimento espontâneo de autênticos e genuínos símbolos religiosos que brotam do inconsciente  quais flores de espécie estranha, enquanto a consciência se mantém perplexa de lado, sem saber realmente o que fazer com semelhantes criações. Não é muito difícil constatar que esses símbolos individuais provêm, tanto em seu conteúdo quanto em sua forma, do mesmo “espírito” (ou que outro nome tenha) que as grandes religiões da humanidade. Em qualquer caso, a experiência nos mostra que as religiões não são elaborações conscientes, mas provêm da vida natural da psique inconsciente, dando-lhe adequada expressão. Isto explica a sua disseminação universal e sua imensa influência sobre a humanidade através da história. Esta influência seria incompreensível se os símbolos religiosos não fossem ao menos verdades psicológicas naturais.”*
[continua...]

*JUNG, C.G., In A natureza da psique, Ed. Vozes, Petrópolis, 2011.


 [U1]Me custa acreditar que Jung tenha dito isto, mesmo que evidentemente em sentido figurado.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

"A alma e a morte" 2

[continuação]
"A curva psicológica da vida, entretanto, recusa-se a se conformar com estas leis da natureza. A discordância começa às vezes já antes, na subida. Biologicamente, o projétil sobe, mas psicologicamente retarda. Ficamos parados, por trás de nossos anos, agarrados à nossa infância, como se não pudéssemos nos arrancar do chão. Paramos os ponteiros do relógio, e imaginamos que o tempo se deteve. Se alcançamos finalmente o cume, mesmo com algum atraso, psicologicamente nos sentamos aí para descansar, e embora nos sintamos deslizar montanha abaixo, agarramo-nos, ainda que com olhares nostálgicos, ao pico que outrora alcançamos; o medo que antigamente nos paralisava diante da vida, agora nos paralisa diante da morte. E embora admitamos que foi o medo da vida que retardou nossa subida, contudo, exigimos maior direito ainda de nos determos no cume que acabamos de galgar, justamente por causa desse atraso. Embora se torne evidente que a vida se afirmou, apesar de todas as nossas resistências (agora profundamente lamentadas), não levamos esse fato em conta e tentamos deter o curso da vida. Com isto, nossa psicologia perde a sua base natural. Nossa consciência paira suspensa no ar, enquanto, embaixo, a parábola da vida desce cada vez mais rapidamente.
A vida natural é o solo em que se nutre a alma. Quem não consegue acompanhar essa vida, permanece enrijecido e parado em pleno ar. É por isto que muitas pessoas se petrificam na idade madura, olham para trás e se agarram ao passado, com um medo secreto da morte no coração. Subtraem-se ao processo vital, pelo menos psicologicamente, e por isto ficam paradas como colunas nostálgicas, com recordações muito vívidas do seu tempo de juventude, mas sem nenhuma relação vital com o presente. Do meio da vida em diante, só aquele que se dispõe a morrer conserva a vitalidade, porque na hora secreta do meio-dia da vida se inverte a parábola e “nasce a morte”. A segunda metade da vida não significa subida, expansão, crescimento, exuberância, mas morte, porque seu alvo é o seu término. A recusa em aceitar a plenitude da vida equivale a não aceitar o seu fim. Tanto uma coisa como a outra significam não querer viver. E não querer viver é sinônimo de não querer morrer. A ascensão e o declínio formam uma só curva.
Sempre que possível, nossa consciência recusa-se a aceitar esta verdade inegável. Ordinariamente nos apegamos ao nosso passado e ficamos presos à ilusão de nossa juventude. A velhice é sumamente impopular. Parece que ninguém considera que a incapacidade de envelhecer é tão absurda quanto a incapacidade de abandonar os sapatos de criança que traz nos pés. O homem de trinta anos ainda com espírito infantil é certamente digno de lástima, mas um setuagenário jovem não é delicioso? E, no entanto, ambos são pervertidos, desprovidos de estilo, verdadeiras monstruosidades psicológicas. Um jovem que não luta nem triunfa perdeu o melhor de sua juventude, e um velho que não sabe escutar os segredos dos riachos que descem dos cumes das montanhas para os vales não tem sentido, é uma múmia espiritual e não passa de uma relíquia petrificada do passado. Está situado à margem da vida, repetindo-se mecanicamente até à última banalidade. Pobre cultura aquela que necessita de tais fantasmas!"*
[continua]

*JUNG, C.G., In A Natureza da psique, Editora Vozes, Petrópolis, 2011.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

"A alma e a morte" 1


"Muitas vezes me tem sido perguntado o que é que eu penso a respeito da morte, desse fim não problemático da existência humana individual. A morte nos é conhecida simplesmente como um fim e nada mais. É o ponto final que se coloca muitas vezes antes mesmo de encerrar-se o período, e depois dela só existem recordações e efeitos subsequentes, nos outros. Mas para o interessado a areia escoou-se na ampulheta; a pedra que rolava chegou ao estado de repouso. Em confronto com a morte, a vida nos parece sempre como um fluir constante, como a marcha de um relógio a que se deu corda e cuja parada afinal é automaticamente esperada. Nunca estamos tão convencidos desta marcha inexorável do que quando vemos uma vida humana chegar ao fim, e nunca a questão do sentido e do valor da vida se torna mais premente e mais dolorosa do que quando vemos o último alento abandonar o corpo que ainda há pouco vivia. Quão diferente nos parece o significado da vida quando vemos um jovem a lutar por objetivos distantes e a construir um futuro, em comparação com um doente incurável ou um ancião que descem relutantes e impotentes à sepultura. A juventude tem – aparentemente – um objetivo, um futuro, um significado e um valor, enquanto a marcha para um fim é apenas uma cessação sem sentido. Se alguém tem medo do mundo, da vida e do futuro, todos consideram isto como lamentável, irracional e neurótico; o jovem é visto como um poltrão covarde. Mas, se o homem que envelhece sente um pavor secreto ou mesmo um temor mortal ao pensamento de que suas expectativas razoáveis de vida agora são apenas de tantos e tantos anos, então nos lembramos penosamente de certos sentimentos que trazemos dentro do próprio peito, desviamos o olhar para outro lado e encaminhamos a conversa para outro assunto. O otimismo com que julgamos a juventude fracassa nessa hora. Temos, naturalmente, um repertório de conceitos apropriados a respeito da vida, que ocasionalmente ministramos aos outros, tais como; “todo mundo um dia vai morrer”, “ninguém é eterno”, etc., mas quando estamos sozinhos e é noite, e a escuridão e o silêncio são tão densos, que não escutamos e não vemos senão os pensamentos que somam e subtraem os anos da vida, e a longa série daqueles fatos desagradáveis que impiedosamente nos mostram até onde os ponteiros do relógio já chegaram, e a aproximação lenta e irresistível do muro de trevas que finalmente tragarão todo o que eu amo, desejo, possuo, espero e procuro; então toda a nossa sabedoria de vida se esgueirará para um esconderijo impossível de descobrir, e o medo envolverá o insone como um cobertor sufocante.
Assim como existe um grande número de jovens que, no fundo, tem um medo assustador da vida (que eles ao mesmo tempo desejam ardentemente), também existe um número, talvez ainda maior, de pessoas idosas que tem o mesmo medo em relação à morte. Tenho observado que aqueles que mais temem a vida quando jovens, são justamente os que mais têm medo da morte quando envelhecem. Quando são jovens, dizemos que eles opõem uma resistência infantil às exigências normais da vida, mas deveríamos dizer a mesma coisa quando são velhos, ou seja, que eles têm medo também das exigências normais da vida; mas estamos tão convencidos de que a morte não é senão o fim de um processo, que ordinariamente não nos ocorre conceber a morte como uma meta e uma consumação, como o fazemos, sem hesitação, com respeito aos objetivos e às intenções da vida jovem em ascensão.
A vida é um processo energético como qualquer outro, mas, em princípio, todo processo energético é irreversível e, por isto, é orientado univocamente para um objetivo. E este objetivo é o estado de repouso. No fundo, todo processo nada mais é do que, por assim dizer, a perturbação inicial de um estado de repouso perpétuo que procura restabelecer-se sempre. A vida é teleológica “par excellence”, é a própria persecução de um determinado fim, e o organismo nada mais é do que um sistema de objetivos prefixados que se procura alcançar. O termo de cada processo é o seu objetivo. Todo processo energético se assemelha a um corredor que procura alcançar sua meta com o máximo esforço e o maior dispêndio possível de forças. A ânsia do jovem pelo mundo e pela vida, o desejo de consumar altas esperanças e objetivos distantes constituem o impulso teleológico manifesto da vida que se converte em medo da vida, em resistências neuróticas, depressões e fobias, se fica preso ao passado, sob algum aspecto, ou recua diante de certos riscos sem os quais não se podem atingir as metas prefixadas. Mas o impulso teleológico da vida não cessa quando se atinge o amadurecimento e o zênite da vida biológica. A vida desce agora montanha abaixo, com a mesma intensidade e a mesma irresistibilidade com que a subia antes da meia idade, porque a meta não está no cume, mas no vale, onde a subida começou. A curva da vida é como a parábola de um projétil que retorna ao estado de repouso, depois de ter sido perturbado no seu estado de repouso inicial."*
[continua....]

*JUNG, C.G.  in A Natureza da Psique, Ed. Vozes, Petrópolis, 2011

sábado, 21 de abril de 2012

Esta me lavou a alma


"O mérito de um texto bem escrito é, sobretudo, ético: liberta o leitor. Ao contrário do que estabelece certo senso comum pretensamente científico, à complexidade conceitual de um texto não precisa, nem deve, corresponder a obscuridade da escrita. Que o digam os leitores de Montaigne, grande filósofo de “fácil” leitura, cujas amplitude e profundidade de pensamento não ficam nada a dever a seus contemporâneos. Ao contrário, com freqüência Montaigne os ultrapassa.
A obscuridade de um texto revela dois problemas que em geral andam juntos: a falta de clareza do pensamento e a vontade de impressionar e (ou) de intimidar o leitor. No segundo caso, reconhecemos o artifício empregado por quem deseja dominar um campo de pensamento através da supercodificação dos conceitos, dos mais simples aos mais intrincados, de modo a criar uma língua somente para iniciados – reles estratégia de mercado utilizada para assegurar o poder dos mestres e das corporações de ensino.
A escola lacaniana, à qual me filio com esforço, sofre desse mal crônico: a dificuldade dos textos, estabelecida por seu criador e perseguida por seus discípulos como se fosse um valor intelectual, promove uma permanente disputa em torno da imprecisão e da flutuação dos conceitos. Isso ocorreu, em parte, pela dificuldade da transposição textual da fluência de Lacan nos Seminários; em parte, porque, nos “Escritos” Lacan revela que a transmissão escrita não era seu forte.”*

*Maria Rita Kehl, na apresentação de FREUD, S. , Luto e Melancolia,  Cosac Naify, São Paulo, 2011.


sexta-feira, 13 de abril de 2012